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Moral para Médicos

por Thynus, em 11.06.13

 

 

O doente é um parasita da sociedade. Em um certo estado é indecente continuar vivendo por mais tempo. O prosseguir vegetando em uma dependência covarde de médicos e práticas, depois que o sentido da vida, o direito à vida se dissipou, deveria receber da sociedade um profundo desprezo. Os médicos teriam por sua vez de ser os mediadores deste desprezo - não receitas, mas todo dia uma nova dose de nojo diante de seus pacientes... Criar uma nova responsabilidade que exija do médico em todos os casos, nos quais o interesse mais elevado da vida, da vida ascendente, o impelir a vida degenerada para o lado e para baixo sem qualquer consideração. - Por exemplo, em vista do direito de procriar, em vista do direito de nascer, em vista do direito de viver... Morrer de uma maneira orgulhosa, quando não é mais possível viver de uma maneira orgulhosa. A morte, eleita livremente, a morte no tempo certo, com claridade e alegria, empreendida em meio a crianças e testemunhas: de modo que uma real despedida ainda é possível, onde este que se despede ainda está aí, assim como uma apreciação real do que foi alcançado e querido, uma soma da vida - tudo em contraposição à comédia deplorável e horripilante que o cristianismo levou a cabo com a hora da morte. Não se deve jamais esquecer em relação ao cristianismo o fato de ele ter transformado abusivamente a fraqueza dos moribundos em violação da consciência e o modo da morte mesma em juízos de valor tanto sobre o homem quanto sobre o passado! - Aqui vale produzir, antes de tudo e apesar das covardias do preconceito, a dignificação correta, isto é, fisiológica, da assim chamada morte natural: que por fim também não é senão uma morte "não natural", um suicídio. Nunca se perece pelas mãos de um outro, mas sempre por suas próprias mãos. A única diferença é que a morte sob condições desprezíveis não é uma morte livre, ela não é uma morte no tempo certo, ela é a morte de um covarde. Dever-se-ia por amor à vida - desejar a morte de outra forma, a morte livre, consciente, sem acaso, sem a tomada de assalto... Por fim, um conselho para os senhores pessimistas e outros decadentes. Não estamos de posse da possibilidade de impedir o nascimento: mas podemos nos corrigir uma vez mais este erro - pois ele foi até aqui um erro. Quando um homem suprime a si mesmo, ele faz a coisa mais digna de respeito. Quase se conquista com isto o viver... A sociedade, que digo!, a própria vida tem mais ganho através daí do que qualquer "vida" em abnegação, abstinência e outras virtudes, - se libertou os outros de sua visualização, se libertou a vida de uma objeção... O pessimismo, puro, só se prova através da autorefutação do senhor pessimista: é preciso que se dê um passo adiante em meio à sua lógica, não meramente negar a vida com "Vontade e Representação", como Schopenhauer o fez – precisa-se negar primeiramente Schopenhauer... - O pessimismo, dito de passagem, por mais contagioso que seja, não aumenta apesar disto o caráter doentio de um tempo, de uma geração como um todo: ele é sua expressão. É-se contaminado por ele, como se é contaminado pela cólera: é preciso que já se esteja tomado morbidamente o suficiente para tanto. O pessimismo mesmo não faz nenhum único decadente a mais; eu lembro o resultado da estatística de que nos anos em que a cólera recrudesceu a cifra conjunta dos casos de morte não se diferenciou de outros anos.

(Friedrich Nietzsche - "Crepúsculo dos ídolos") 

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publicado às 16:23



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