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Belo e feio

por Thynus, em 10.06.13
Quero cada vez mais aprender a ver como belo aquilo que é necessário nas coisas. Amor-fati [amor ao destino]: seja este, doravante, o meu amor! Não quero fazer guerra ao que é feio. Não quero acusar, não quero nem mesmo acusar os acusadores, Que minha única negação seja desviar o olhar! E, tudo somado e em suma: quero ser, algum dia, apenas alguém que diz Sim!” – Nietzsche, Gaia Ciência, §276.


Nada é mais condicionado, dizemos limitado, do que o nosso sentimento do belo. Quem quisesse pensá-lo como separado do prazer que o homem experimenta junto a si mesmo, perderia imediatamente a base e o solo sob seus pés. O "belo em si" é tão-somente uma palavra, nunca um conceito. No belo, o homem se coloca enquanto medida da perfeição; em casos selecionados, ele louva a si mesmo. Um gênero não pode senão afirmar apenas a si mesmo desta forma. Seus instintos mais inferiores, o instinto de auto-conservação e de auto-expansão, brilham ainda em tais sublimidades. O homem crê que o próprio mundo está coberto pela beleza - ele esquece de si enquanto sua causa. Ele sozinho presenteou o mundo com a beleza, ah!, apenas com uma beleza humana, demasiadamente humana... No fundo, o homem se espelha nas coisas, ele toma por belo tudo o que lança de volta sua imagem: o juízo "belo" é sua vaidade genérica... É claro que a seguinte pergunta pode sussurrar para o cético uma pequena suspeita: o mundo torna-se efetivamente belo, à medida que o homem o toma como belo? Ele o humanizou: isto é tudo. Mas nada, absolutamente nada nos garante que justamente o homem forneça o modelo da beleza. Quem sabe como ele se apresenta aos olhos de um elevado juiz de gosto? Talvez ousado? Talvez mesmo animador? Talvez um pouco arbitrário?... "Oh Dioniso, divino, por que tu me puxas as orelhas?", perguntou Ariadne certa vez a seu amante filosófico, em um daqueles célebres diálogos por sobre a ilha de Naxos. "Eu vejo algo de gracioso em tuas orelhas, Ariadne: por que elas não são ainda mais longas?"

Nada é belo, só o homem é belo: é sobre esta ingenuidade que repousa toda e qualquer estética, ela é sua primeira verdade. Acrescentemos imediatamente ainda sua segunda verdade: nada é feio senão quando é o homem que o degenera - com isso o reino do juízo estético está circunscrito. - Conferido fisiologicamente, tudo o que é feio enfraquece e aflige o homem. Ele faz com que o homem relembre o declínio, o perigo, a impotência; o homem experimenta de fato aí uma dissipação de força. Pode-se medir o efeito do feio com o dinamômetro. Em geral, ao padecer de uma pressão que o impele para baixo, o homem fareja a aproximação de algo "feio". Seu sentimento de potência, sua vontade de potência, sua coragem, seu orgulho - tudo isto decai com o feio, tudo isto se eleva com o belo... Em um caso como no outro, tiramos uma conclusão: as premissas para tanto estão acumuladas, sob a forma de uma abundância monstruosa, nos instintos. O feio é entendido como um sinal e um sintoma de degenerescência: o que mais longinquamente nos faz lembrar a degenerescência produz em nós o surgimento do juízo "feio". Todo indício de extenuação, de pesar, de senilidade, de cansaço, toda e qualquer espécie de ausência de liberdade, tal como o espasmo, tal como a paralisia, sobretudo o cheiro, a cor, as formas da dissolução, da decomposição, e mesmo que isto se transforme em símbolo no interior de uma última atenuação - tudo isto evoca a mesma reação, o juízo de valor "feio". Um ódio eclode neste ponto: a quem é que o homem odeia aí? Mas não há nenhuma dúvida: a decadência de seu tipo. O seu ódio emerge aí do instinto mais profundo de seu gênero; neste ódio há calafrio, cuidado, profundidade, uma certa visão à distância - ele é o ódio mais profundo que há. É por sua causa que a arte é profunda...

(Friedrich Nietzsche - "Crepúsculo dos ídolos")

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publicado às 15:24



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