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Mito

por Thynus, em 09.06.13

 

 

Narrativa sacra envolvendo seres sobrenaturais e incorporando a conscience collective, o mito é entretecido de crenças populares a respeito da humanidade e do mundo social, bem como da natureza e significado do universo. As teorias do mito no século XX podem ser divididas em psicológicas, funcionalistas, estruturalistas e políticas.
Os antropólogos do século XIX interessados na EVOLUÇÃO e difusão de culturas buscaram descobrir as origens dos mitos, interpretando-os como pensamento nãocientífico e registros incompletos de eventos históricos. As abordagens psicanalíticas desenvolvidas por Sigmund Freud , em vez disso, tenderam a buscar no mito temas de conflito psíquico universal (repressão, tabu do incesto, inveja dos irmãos, complexo de Édipo), ou imagens arquetípicas brotando do “inconsciente coletivo” (Jung, 1964).
A tradição antropológica funcionalista, mais bem representada por Malinowski, criticou essas teorias por abstraírem os mitos de seu contexto social. A partir de estudos empíricos dos ilhéus de Trobriand, Malinowski afirmou que “o mito preenche, na cultura primitiva, uma função indispensável”: é produto de uma fé viva que serve para codificar e reforçar normas grupais, salvaguardar as regras e a moralidade e promover a coesão social (1948, p.79).
As abordagens contemporâneas, incluindo as de Leach (ver Leach e Aycock, 1983) e Barthes (1957), têm sido fortemente influenciadas pelo ESTRUTURALISMO e, em particular, por Lévi-Strauss (1964-72). Usando teorias desenvolvidas na psicanálise e na lingüística, Lévi-Strauss interpretou os mitos, não como guias de ação fornecendo explicações ou legitimação para disposições sociais existentes, mas como sistemas de signos — uma linguagem cujo sentido é codificado e se encontra sob a superfície narrativa. Os mitos são um expediente cognitivo usado para reflexão e resolução das contradições e princípios subjacentes em todas as sociedades humanas, cada mito sendo uma variação sobre temas universais, recombinando incessantemente os elementos simbólicos constituídos por grupos de oposições binárias (mãe/pai, natureza/cultura, fêmea/macho, cru/cozido), que supostamente refletem as categorias fundamentais da mente humana. As técnicas estruturalistas de Lévi-Strauss têm proporcionado percepções úteis dos motivos subjacentes aos mitos, mas os críticos alegam que essa abordagem é reducionista, uma espécie de “malabarismo verbal com uma fórmula generalizada” que “não nos pode mostrar a verdade” (Leach, 1970, p.82).
Em ciência política, o significado da palavra tem sido às vezes ampliado para a filosofia política, a IDEOLOGIA e a religião. O autor mais famoso nessa tradição foi Sorel, para quem os mitos (incluindo a Greve Geral e a Revolução Proletária) eram imagens capazes de invocar instintivamente todos os sentimentos que permitem a um povo, partido ou classe colocar em jogo suas energias para a ação política. Para Sorel (1906), todos os grandes movimentos sociais desenvolvem-se através da busca de um mito que fornece o idealismo necessário para reunir e unir as pessoas atrás de uma causa. A idéia do mito como elemento essencial urdido no tecido de uma ideologia geral teve eco na concepção mussoliniana do fascismo como uma fé viva. O mito político é um recurso mobilizador, uma celebração dos impulsos irracionais, cujo apelo aos fabricantes de mitos reside mais na visão lúcida e instigante de redenção e salvação do que em argumentos baseados em princípios abstratos (Tudor, 1972, p.130).
Crucial para a maior parte das teorias é a idéia de que os mitos não estão relacionados com o espaço e o tempo comuns, mas se encontram fora deles. “Era uma vez”, a “Idade de Ouro”, a “Aurora dos Tempos” ou o “fim da história”, tudo isso implica eventos passados ou futuros que não estão diacronicamente ligados ao presente. Nesse aspecto, os mitos têm sido interpretados como “fenômenos liminares”, contados em épocas ou lugares que ficam “em um grau intermediário” entre os estados normais do ser (Turner, 1968, p.578). Assim, segundo Eliade (1957, [ 1968, p.34]), os que participam do mito são transportados temporariamente do mundo cotidiano para um plano onde o tempo é considerado “sacro”, “concentrado” e de “intensidade ampliada”.

(William Outhwaite & Tom Bottomore - "Dicionário do pensamento social do século XX")

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publicado às 15:07



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