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Vício

por Thynus, em 09.06.13

 

 

O estado de imoderada fixação ou exagerada inclinação refere-se usualmente a uma droga como o álcool ou a heroína, embora o conceito tenha sido ampliado a outras condutas viciosas, como os jogos de azar e a gula. Uma descrição alternativa preferiu freqüentemente o termo “dependência”. A Organização Mundial de Saúde (1981) propôs as seguintes características do viciado em drogas:
— compulsão subjetiva a ingerir uma droga;
— desejo de suspender o consumo embora a ingestão continue;
— padrão estereotipado, inflexível, de ingestão;
— adaptação dos sistemas nervosos afetados pela droga, levando à tolerância dos seus efeitos e sintomas de supressão quando a droga é suspensa;
— prioridade do comportamento de busca da droga sobre todas as outras atividades;
— rápido restabelecimento da síndrome quando se quebra um período de abstinência.
Nem todas as características são mostradas por todas as drogas ou todas as pessoas afetadas.
No que diz respeito às causas, a herança é um bode expiatório de escassa importância para a dependência do álcool. As mais poderosas forças causadoras são, potencialmente, as mais capazes de remédio: fatores socioeconômicos que determinam a aceitabilidade e acessibilidade de compostos psicoativos. Tais influências, incluindo o custo do álcool, explicam as diferenças na preponderância de vícios entre países, raças, religiões, sexos e épocas. As interações geradoras de dependência entre as drogas e o cérebro são mais bem entendidas no caso dos opiáceos, os quais exercem efeitos semelhantes aos das endorfinas, substâncias endógenas que atuam como neurotransmissores. A dependência é ainda mais promovida por reações assimiladas de resposta a estímulos externos e internos pelo desejo incontrolável e a ingestão da droga.
O mais comum — e o mais letal — dos vícios é o fumo. A dependência, que é mantida pelo conteúdo de nicotina, está diminuindo nas nações mais ricas e mais bem informadas, mas aumentando nos países mais pobres. A dependência do álcool (alcoolismo) entrou em um ciclo decrescente nos países mais prósperos, mas com o recrudescimento no marketing internacional de bebidas alcoólicas vem registrando expansão em regiões menos ricas. O uso ilícito de drogas, sobretudo de heroína, cocaína e anfetaminas, gera preocupações crescentes por suas implicações sociais, criminosas e para a saúde. O uso do fumo é mais freqüente nas camadas de baixa renda e o uso de drogas ilegais, em áreas urbanas desfavorecidas.


As conseqüências sociais do vício resultam em parte da intoxicação e da embriaguez — com relações interpessoais perturbadas, acidentes, declínio no desempenho profissional — e, por vezes, de atividades ilícitas para financiar o consumo de drogas . Os danos físicos são mais salientes em conseqüência do fumo (câncer de pulmão, enfisema pulmonar, distúrbios cardiovasculares) e do álcool (incluindo danos cerebrais e hepáticos). Injeções de drogas contaminadas produzem infecções, mormente com os organismos da hepatite virótica e da Aids. As complicações psicológicas do vício incluem depressão, com risco de suicídio, ansiedade e psicoses transitórias.
O ponto de vista de que o vício representa uma deficiência moral tem cruzado lanças ao longo dos séculos com o conceito de doença . O modelo médico impôs-se a partir da década de 30 e passou a ser desafiado, por sua vez, pela tese de que o vício é um estado condicionado, suscetível de descondicionamento através de técnicas psicológicas. Os argumentos são em parte semânticos (o que é uma doença?), em parte determinados por lutas de poder entre profissões. Biologia, medicina, psicologia, sociologia, antropologia, economia e religião, todas contribuem para um entendimento da conduta viciosa e, com freqüência, do seu tratamento e prevenção.
Os vícios possuem uma proporção espontânea de remissões, de modo que as dificuldades de avaliação conduzem ao debate sobre os méritos desta ou daquela terapia. O aconselhamento breve pode ajudar pessoas no começo da dependência alcoólica e auxilia bastante gente com o vício do fumo a extrair o maior benefício da intervenção de seus médicos. Outras pessoas necessitam de ajuda mais prolongada. Organizações voluntárias ganham cada vez maior destaque. Alcoólicos Anônimos, fundada em 1936, é o paradigma para grupos de auto-ajuda nos comportamentos viciosos, assim como em outras áreas de sofrimento e angústia.
Os meios preventivos estão divididos entre redução da oferta e redução da demanda de drogas. A redução da oferta envolve o controle legal sobre a produção e distribuição de substâncias psicoativas lícitas e ilícitas. Os adversários do cumprimento da lei a todo custo apontam o seu fracasso em impedir o narcotráfico. Os adeptos assinalam que as restrições nacionais e internacionais limitam o mau uso e a dependência de drogas, e podem citar êxitos resultantes de medidas legais.
A redução da demanda inclui o reconhecimento precoce e o tratamento de viciados, a área menos tangível das melhorias nas condições sociais e a educação. Embora os métodos de educação e até o seu valor sejam discutidos, a redução do vício e dos danos do álcool e do fumo em numerosos países acompanhou o aumento da consciência pública.

(William Outhwaite & Tom Bottomore - "Dicionário do pensamento social do século XX")

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publicado às 10:46



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