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Individualidade e Karma

por Thynus, em 07.06.13

 

Com efeito, o corpo é um e, não obstante, tem muitos
membros, mas todos os membros do corpo, apesar de
serem muitos, formam um só corpo

(I Coríntios 12:12)

 

 

Cada partícula consiste em todas as outras partículas
(Princípio da teoria bootstrap, na Física subatômica)

 

Creio que seria impossível discutirmos o conceito de individualidade professado pelos povos antigos sem antes estudarmos a sua noção sobre a alma coletiva, à qual os gregos denominavam génos. Essa palavra possui uma ampla tradução: nascimento/ tempo, lugar ou condição de nascimento/ origem, descendência/ raça, gênero, espécie/família, parentela/ filho, rebento/ povo, nação, tribo/ sexo/geração, idade. Porém, esse termo vai muito além, em seu significado, do que a pura e simples tradução poderia nos oferecer. Génos, como origem, descendência ou família, refere-se a algo mais que um simples agrupamento de pessoas ligadas pela consangüinidade - não custa lembrar que a concepção de entidades isoladas é desconhecida no mundo antigo. Trata-se antes de mais nada de uma alma coletiva, ou de um "corpo místico", do qual cada indivíduo consiste em um membro. Assim como os membros de um corpo, apesar de uma relativa autonomia, são inseparáveis do todo e subordinados às ordens da "cabeça", cada elemento do génos está subordinado a algo que hoje poderíamos chamar de inconsciente familiar. Portanto, os atos de cada um não consistiam em meros atos individuais, tanto quanto a moira (destino) individual constituía-se numa quota da moira coletiva; essa quota, inclusive, estava subordinada aos atos dos antepassados, de maneira que o destino de cada um apoiava-se sobre a estrutura do génos.

 

A noção de que as faltas paternas podem ser pagas pelos filhos está presente em todas as tradições míticoreligiosas. No Rig-Veda lemos a seguinte passagem: "Afasta de nós a falta paterna e apaga também aquela que nós cometemos". Na tragédia grega Hipólito, Teseu lamenta: "Ai, que dor! Ai! Que tristes sofrimentos! A sina que carrego vem de longe; é castigo infligido pelos deuses aos desvarios de algum dos ancestrais". No Antigo Testamento, temos por exemplo o Êxodo 20:5: "Eu sou o Senhor, teu Deus, um Deus ciumento, que vingo a iniqüidade dos pais nos filhos, nos netos e bisnetos daqueles que me odeiam". Diz o Levítico 26:39: "Os que sobreviverem, consumir-se-ão, por causa de suas iniqüidades, na terra de seus inimigos e serão também consumidos por causa das iniqüidades de seus pais, que levarão sobre si". Outras passagens que versam sobre o mesmo tema são Gên.9:6 e 11:1, 49:3, Jz.9:2, Jos.7:24 e 22:17, Jer.14:20, Sal.106:6, Eclo.41:7, 2 Sam.5:1 e 21:5, Deut.5:9, Núm.14:18 e Êx.20:5 e 34:7.

 

Até aqui, tudo aparenta estar perfeitamente explicado: o homem antigo, por seu caráter eminentemente supersticioso, acreditava que as culpas dos ancestrais recaíam sobre seus descendentes, tal como uma tara genética. Interessante observar que tais apreciações advêm até mesmo de pessoas que professam a doutrina do pecado original! Porém, a questão é muito mais complexa do que afirma por exemplo Michel Berveiller, que enxerga uma "transposição para o plano espiritual e moral dessa lei da hereditariedade, que se pode constatar no mundo físico, dessa transmissão de uma geração para outra, das características biológicas e especialmente das doenças, das taras". (A Tradição Religiosa na Tragédia Grega - São Paulo, Cia. Editora Nacional, 1935.) Observe o leitor como a influência do raciocínio linear cartesiano obstrui nossa visão quanto ao entendimento da mentalidade dos antigos. O génos não trata de uma lei "genética", ou seja, de qualidades ou taras que se transmitam de geração a geração; o máximo que poderíamos declarar em relação a esta idéia é que ela consiste numa projeção no plano de uma idéia "tridimensional", tal como sucede nos mitos, conforme explicamos no primeiro capítulo. Ali, todos os erros e injustiças cometidos contra a produção mítico-religiosa dos antigos se resume nessa "cegueira dimensional" que ataca o homem moderno.

 

Para uma visualização mais fácil do problema, imagine o leitor uma árvore genealógica, que exponha numa folha de papel todo um quadro ancestral de um herói. A colocação desses nomes em um mesmo plano ajuda-nos a eliminar a noção de tempo, essa entidade ilusória e descartável; por isso, tente agora imaginar que todas as pessoas ali retratadas representem uma peça teatral, ou seja, uma tragédia, dramatizada num único momento! O "roteiro" dessa peça consiste na moira do grupo familiar, e seus membros nos "atores"; o papel individual é o quinhão que o destino reserva a cada um. Em se tratando de uma família "exemplar", isto é, da família de um herói, essa peça constituir-se- em um arquétipo.

 

Esse arquétipo deverá ser dramatizado pelo génos escolhido para tal função, em que o herói constitui-se no eleito para a irrupção da "personalidade divina" no plano manifesto. O mundo divino anseia por manifestar-se, e o homem consiste no instrumento de sua aparição. Destarte, as vicissitudes na vida do herói não são desgraças, mas símbolos de uma dramática transcendental.
No pensamento hindu, repete-se o mesmo tema no mito da criação do mundo através do auto-sacrifício de Brahma. Ele desempenha sua tarefa através de seu "poder criativo mágico", chamado Maya no Rig-Veda. Se o homem cair no encantamento de Maya, tornar-se- presa da ilusão de que o mundo observável é real. Esse processo através do qual Deus torna-se mundo, após o que o mundo deve tornar-se Deus, chama-se Lila, "a peça divina"; o mundo em que vivemos é considerado o palco onde a mesma se desenrola. A força dinâmica dessa peça é o Karma, termo que significa ação. Segundo o Bhagavad Gita, "Karma é a força da criação, de onde provém a vida de todas as coisas" (8:3). O Karma é o princípio ativo de Lila, a ação do Universo como um todo orgânico, onde tudo se encontra intimamente ligado. A superstição religiosa moderna, tal como procedem os espiritualistas em geral, com sua ânsia dualista, classificou atabalhoadamente o Karma como algo negativo, a carga que devemos suportar devido a faltas cometidas em outros tempos. Essa concepção, embora não de todo errada, peca pelo reducionismo, pois o Karma está acima do Bem e do Mal, coisa que dificilmente uma pessoa de formação judeucristã poderá compreender. Imagine-se que faça parte de nosso destino atravessar um rio; se, enquanto uns procurassem perceber o sentido da correnteza, para nadar de acordo com ela e assim chegar à outra margem, outros estupidamente se obstinassem em nadar sem nenhum critério, cegos pelo pânico, alguém poderia classificar como má essa mesma correnteza?

Por todas as razões expostas, podemos perceber o quanto é fácil pecar pela simploriedade no que trata de compreender a produção mitológica. A cada passo, somos tentados a incorrer em engodos tais como a crença no tempo linear, no bem e no mal, na causa e no efeito, ou na individualidade. Somente uma abordagem holística do tema possibilita-nos perceber os papéis ditos individuais como subordinados ao destino coletivo, ou seja, a uma tragédia urdida pelos deuses, da qual todos se constituem em simples atores. Aqui, importam os atos, e não quem os comete. Os filósofos, os autores trágicos e os iniciados nos pequenos mistérios sabiam disso. Sobre o assunto, Aristóteles é taxativo: "O elemento mais importante é a trama dos fatos, porque a tragédia não é a imitação dos homens, mas das ações de vida, felicidade ou infelicidade". (Esta forma de ver já atingiu o mundo da Física subatômica, sendo comprovada diariamente nos experimentos dos cientistas. Fritjof Capra escreve sobre esse assunto de uma forma poética: "No nível subatômico, as inter-relações e interações entre as partes do todo são mais fundamentais do que as próprias partes. Há movimento, mas não existem, em última análise, objetos moventes; há atividade, mas não existem atores; não há dançarinos, somente a dança" - O Ponto de Mutação, Cultrix, p.86).) No Novo Testamento, temos em João 9:2 o melhor exemplo desse princípio na pergunta dos discípulos a Jesus, acerca da cegueira de um homem que se lhes apresentava para a cura: "Mestre, quem pecou, ele ou seus pais, para que nascesse cego?" A resposta de Jesus é cheia de mistério: "Nem ele nem seus pais pecaram, mas é para que nele sejam manifestadas as obras de Deus".

(Antonio Farjani - "A linguagem dos deuses")

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publicado às 16:47



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