Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Cantada

por Thynus, em 06.06.13

 

 

- Eu sei que você vai rir, mas...
- Sim?
- Por favor, não pense que é paquera.
- Não penso, não. Pode falar.
- Eu não conheço você de algum lugar?
- Pode ser...
- Nice. 1971. Saguão do Hotel Negresco. Promenade des Lglais. Quem nos apresentou foi o barão... o barão... Como é mesmo o nome dele?
- Não, não. Em 71 eu não estive em Nice.
- Pode ter sido em 77. Estou quente?
- Que mês?
- Abril?
- Não.
- Agosto?
- Agosto? No forte da estação? Deus me livre.
- Claro. Eu também nunca estive em Nice em agosto. Onde é que eu estou com a cabeça?
- Não terá sido em Portofino?
- Quando?
- Outubro, 72. Eu era convidada no iate do comendador...
- Petrinelli.
- Não. Ele era comprido e branco.
- O comendador?
- Não, o iate. Tenho uma vaga lembrança de ter visto o seu rosto...
- Impossível. Há anos que eu não vou a Portofino. Desde que perdi tudo o que tinha no cassino há... Meu Deus, sete anos!
- Mas, que eu saiba, Portofino não tem cassino.
- Era um cassino clandestino na casa de verão do conde... do conde...
- Ah, sim, eu ouvi falar.
- Como era o nome do conde?
- Farci D'Amieu.
- Esse.
- Você perdeu tudo no jogo?
- Tudo. Minha salvação foi uma milionária boliviana que me adotou. Vivi durante um mês à custa do trabalho
escravo nas minas de estanho. Que remorso. O caviar não passava na garganta. Felizmente minha família
mandou dinheiro. Fui salvo do inferno pelo Banco do Brasil.
- Bom, se não foi em Portofino, então...
- Nova Iorque! Tenho certeza de que foi em Nova Iorque! Você não esteve no apartamento da Elizinha, no jantar para o rei da Grécia?
- Estive.
- Então está desvendado o mistério! Foi lá que nos conhecemos.
- Espere um pouquinho. Agora estou me lembrando. Não era para o rei da Grécia. Era para o rei da Turquia. Outra festa.
- A Turquia, que eu saiba, não tem rei.
- É um clandestino. Ele fundou um governo no exílio: 24° andar do Olympic Tower. É o único apartamento de Nova Iorque que tem cabritos pastando no tapete.
- Espere! Já sei. Matei. Saint-Moritz. Inverno de...
- 79?
- Isso.
- Então não era eu. Estive lá em 78.
- Então foi 78.
- Não pode ter sido. Eu estava incógnita. Esquiava com uma máscara. Não falei com ninguém.
- Então era você a esquiadora mascarada! Diziam que era a Farah Diba.
- Era eu mesma.
- Meu Deus, onde foi que nos encontramos, então?
- Londres lhe diz alguma coisa?
- Londres, Londres...
- A casa de Lady Asquith, em Mayfair?
- A querida Lady Asquith. Conheço bem. Mas nunca estive na sua casa da cidade. Só na sua casa de campo.
- Em Devonshire?
- Não é Hamptonshire?
- Pode ser. Sempre confundo os shires.
- Se não foi em Londres, então... Onde?
- Precisamos descobrir. Hoje eu não durmo sem descobrir onde nos conhecemos.
- No meu apartamento ou no seu?
- Mmmm. Foi ótimo.
- Para mim também.
- Quer um cigarro?
- Tem Galoise? Depois de morar em Paris, não me acostumo com outro.
- Diga a verdade. Você alguma vez morou em Paris?
- Minha querida! Tenho uma suíte reservada no Plaza Athenee.
- A verdade...
- Está bem, não é uma suíte. Um quarto.
- Confesse. Era tudo mentira.
- Como é que você descobriu?
- O conde de Farci D'Amieu. Não existe. Eu inventei o nome.
- Se você sabia que eu estava mentindo, então por quê...
- Porque gostei de você. Se você tivesse chegado e dito "Topas?" eu teria respondido "Topo". De onde você tirou tudo aquilo? Hotel Negresco, Saint-Moritz.
- Não perco a coluna do Zózimo. Vi você e pensei, com aquela ali a cantada é outro nível. Agora, me diga uma coisa.
- O quê?
- Você esquiava mesmo de máscara em Saint-Moritz?
- Nunca esquiei na minha vida. Nunca saí do Brasil. Eu não conheço nem a Bahia.
- Eu sei que você vai rir, mas...
- O quê?
- Eu conheço você de algum lugar, mesmo.
- Guarapari. Há três anos. Mamãe foi fazer um tratamento de lodo. Nos conhecemos na praia.
- Mas claro! Agora me lembro. Não reconheci você sem o mar".
- Você quer o cigarro, afinal?
- Que marca tem?
- Oliú.
- Manda.

 

Quando a gente acha que tem todas as respostas, vem a vida e muda todas as perguntas.

(Luís Fernando Ver!ssimo - "As mentiras que os homens contam")

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:06



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D