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Teologia da libertação

por Thynus, em 05.06.13

 

 

Primeira construção teórica da fé cristã elaborada no Terceiro Mundo, a teologia da libertação tem o objetivo de apresentar a liberdade com relação à opressão como assunto de importância religiosa universal. De origem latinoamericana e datando da década de 60, a teologia da libertação combina conceitos oriundos das ciências sociais com idéias bíblicas e teológicas. Em particular, no seu uso da teoria social marxista e não-marxista, pode ser superficialmente lida por teólogos pouco perspicazes e sociólogos condescendentes como uma forma de teoria social radical que incorpora uma ética secular de justiça. Com efeito, uma recente resposta oficial da Igreja Católica à teologia da libertação questiona o status epistemológico de uma teologia que integra elementos de teoria marxista (Congregação para a Doutrina da Fé, 1984).
A forma híbrida da teologia da libertação cria um obstáculo inicial à definição. Seria possível ir ainda mais longe e dizer que induz em erro o uso do substantivo no singular, “teologia”, para descrever o corpus da literatura da libertação, como se fosse de qualquer modo comparável à teologia sistemática clássica. Existem várias teologias da libertação: teologia da libertação negra (Cone, 1969); teologia judaica da libertação (Ellis, 1987); teologia da libertação asiática (Suh Kwang-sun, 1983) e teologia da libertação latino-americana (Haight, 1985). Além dessas, há a chamada teologia política, influenciada pela escola de Frankfurt de sociologia crítica, a qual pode ser descrita como uma teologia da libertação para a sociedade capitalista ocidental (Metz, 1969). Em outras palavras, é mais correto falar de “teologias da libertação” do que de “teologia da libertação”.
Mesmo que ainda não se disponha de uma descrição unívoca, essas teologias podem ser reunidas sob um só título porque compartilham pressupostos sobre a necessidade de a teologia contemporânea ser orientada por três valores: primeiro, a análise da opressão e sua correspondente forma de libertação; segundo, o emprego da análise e da teoria sociais como um corretivo para o modo “privatizado” da teologia tradicional; e terceiro, o uso do paradigma da libertação do Livro do Êxodo.

 


Opressão e libertação
A forma distinta de teologização desenvolvida na teologia da libertação resultou da combinação da detalhada análise empírica de formas de opressão e da análise sociológica e política dessas formas. Na América Latina, as teorias educacionais de Paulo Freire (1970) estimularam descrições da pobreza e da impotência da massa da população. Percebeu-se depois que a análise socioeconômica de Marx era eficiente na identificação dessas formas de opressão como inevitáveis conseqüências da aliança da riqueza e do poder específica do capitalismo. Os teólogos que estavam refletindo com o povo a respeito da experiência de pobreza começaram a falar de “estruturas de opressão” e, interpretando teologicamente a situação, adotaram o termo “estruturas de pecado”.
Não está claro se os teólogos da libertação estabeleceram ligações textuais entre o seu próprio estilo de teologização e o usado por Marx na Crítica da filosofia do direito de Hegel, mas as semelhanças são impressionantes. Marx identifica a classe opressora por sua “encarnação de uma limitação (…) que ofende de modo geral (em termos de teologia da libertação, essa poderia ser a estrutura pecaminosa que cria e propaga a pobreza) ou pela deficiência de uma determinada esfera que se converte no “notório crime de toda uma sociedade” (o que poderia descrever o lugar que o holocausto nazista ocupa na teologia judaica de libertação) (ver Marx, 1975, p.254).
A progressão de um entendimento pessoal e psicológico dos alicerces da teologia para uma interpretação sociológica da realidade é típica da teologia da libertação. Por exemplo, a recomendação da Igreja Católica de um estilo de vida subjetivo de pobreza foi substituída na teologia da libertação por uma “objetiva opção pelos pobres”. Como a Igreja tinha estado comprometida com a classe opressora, detentora da riqueza, tinha de se identificar agora com os pobres na luta pela libertação. Essa recomendação de “uma opção fundamental pelos pobres” reflete a idéia de Marx de que, “se uma classe é a classe da libertação por excelência, então uma outra deve ser a classe da opressão” (ibid.).
A conclusão de Marx (com os seus próprios e estranhos ecos teológicos) de que a opressão social desse gênero significa “a perda total de humanidade, a qual, portanto, só pode redimir-se através da total redenção da humanidade” (ibid., p.256), apresenta em forma secular o tema escatológico da luta pelo estabelecimento do Reino Universal de Deus (com suas conseqüências sociais e políticas) que está no âmago da teologia da libertação.

Teoria social radical: desprivatização da mensagem cristã

O desenvolvimento e a natureza da teoria da libertação não podem ser entendidos sem que ela seja vista, em parte, como uma reação, primeiro, ao individualismo da teologia ocidental clássica e, segundo, à abordagem teórica consensual do pensamento social católico tradicional. Duas influências atuaram para corrigir a primeira fraqueza: a teologia política alemã, definida por Metz como “um corretivo crítico à tendência da teologia contemporânea a se concentrar no indivíduo privado” (1968, p.3); e, o outro corretivo, a recuperação do significado social dos Evangelhos pelos cristãos latinoamericanos engajados na luta por justiça. A teoria da libertação tentou corrigir a segunda fraqueza apoiando-se em contribuições marxistas para demonstrar que a análise da opressão social acarreta uma teoria de conflito e da ação. Procurou ser seletiva no uso de insights marxistas — em outras palavras, tratou de evitar a aceitação do sistema marxista; mas muitos comentadores cristãos têm sérias dúvidas sobre se a análise pode ser usada sem que se aceite também a interpretação materialista da história.
O que distingue a abordagem da teoria da libertação de formas precedentes e, o que é mais importante ainda, o que constitui a sua epistemologia característica está resumido em seu uso do termo “práxis”. Os teólogos ocidentais estavam treinados em uma tradição que deu primazia ao conhecimento teórico: primeiro veio a verdade e depois a sua aplicação. Os teólogos da libertação questionam essa ordem. Eles dão primazia à ação; a práxis vem antes da teoria; a ortopráxis vem antes da ortodoxia. Sem se negar a utilidade dessa abordagem para a teologia, pode-se perguntar se esse uso da práxis não será idêntico ao de Aristóteles quando descreveu as matérias que se relacionam com a vida na pólis, enquanto que em Marx “práxis” faz referência específica à ação que se liga às relações de produção. Uma vez mais, as conexões íntimas entre a noção de práxis no marxismo e a interpretação materialista da realidade devem criar dificuldades para a interpretação teológica da história.

O paradigma do Êxodo

Seria um equívoco, contudo, expor a teoria da libertação como se a sua coerência dependesse exclusivamente da correspondência exata com um marxismo definitivo, especialmente em uma época em que o marxismo se vê cada vez mais incapaz de manter contato com a natureza universalista de suas proposições econômicas. Neste ponto, o marxismo pode ter algo a aprender com a teologia da libertação.
Em 1921 Ernst Bloch, em sua original e independente interpretação do marxismo, sustentou, contra Engels e outros, que a linguagem usada por Thomas Münzer na Guerra Camponesa de 1542 não disfarçava objetivos políticos seculares, mas constituía uma expressão de experiências religiosas profundamente sentidas, as quais também favoreciam o compromisso político. Na teologia da libertação, o Livro do Êxodo ocupa um lugar central e paradigmático na promoção do esforço cristão para quebrar os grilhões da opressão. Na história do Êxodo, fé e política estão juntas; o fato político e o evento teológico caminham unidos. Encarado do ponto de vista do próprio processo de libertação, o Livro do Êxodo identifica dois momentos: libertação da opressão do faraó e libertação para a Terra Prometida. É esse paradigma que orienta grande parte da teologia da libertação. Já em 1968 a Conferência dos Bispos da América Latina, em seu famoso documento de Medellín (o qual inaugurou oficialmente a temática da libertação), fez referência à força revolucionária da reflexão sobre libertação no Êxodo; e Gutierrez observa que ele “continua vital e contemporâneo em virtude de experiências históricas semelhantes por que passou o povo de Deus” (1973, p.159).

(William Outhwaite & Tom Bottomore - "Dicionário do pensamento social do século XX")

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publicado às 18:50



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