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Carisma

por Thynus, em 05.06.13

 

 

A história dessa palavra, hoje em dia empregada principalmente para descrever uma qualidade heróica ou extraordinária de um indivíduo isolado, é curiosa e complexa. De origens obscuras no antigo uso cristão, em que significava “o dom da graça”, carisma é hoje uma palavra popular, cheia de apelo tanto para os jornalistas quanto para os leigos. Suas conotações no século XX e o debate que ela ocasionou são inseparáveis do pensamento de Max Weber (1864-1920).
Weber adaptou a palavra a partir do teólogo Rudolph Sohm, que a empregara para interpretar o desenvolvimento da antiga igreja cristã (ver Bendix, 1966, p.325). Ampliado para abranger fenômenos tanto seculares quanto religiosos, o conceito assumiu papel axial na análise de Weber da história e da dominação (ver especialmente Weber, 1904-5 ( 1930), p.178; 1951, p.30-42, 119-29; Weber, 1921-2, vol.1, p.241-71 e vol.2, p.1.111-57.
Na análise de Weber, carisma indica uma qualidade excepcional (real ou imaginária) possuída por um indivíduo isolado, que é capaz a partir daí de exercer influência e LIDERANÇA sobre um grupo de admiradores. Os devotos do líder carismático encaram como seu dever obedecer-lhe os ditames, e fazem isso voluntariamente e com uma entrega arrebatada. O carisma é capaz de assumir toda uma variedade de aparências, correspondendo às esferas de sua influência (militar, política, ética, religiosa, artística), mas em todos os casos sua conseqüência é afetar de forma impressionante as vidas dos que ficam sob o seu efeito. O carisma é uma força interiormente revolucionária, com o poder, portanto, de mobilizar o esforço humano e transformar o mundo material empedernido com que ele se defronta. Na terminologia de Weber, carisma é uma forma particular de “dominação” ou autoridade.
Weber contrasta essa forma de dominação não-ortodoxa, de forte carga emocional e revolucionária, com duas outras: a tradicional (em que a obediência se baseia no costume e na reverência ao precedente: típica das sociedades pré-industriais) e a jurídico-racional (característica do mundo moderno, onde a conformidade a regras e procedimentos juridicamente estabelecidos e burocraticamente executados é a norma, e onde a submissão é, tipicamente, devida mais à posição do que à pessoa). Os modos de dominação tradicional e jurídico-racional são marcadamente diferentes em muitos aspectos. Mesmo assim, ambos compartilham a mesma qualidade tediosa de serem estruturas estáveis, rotineiras e relativamente previsíveis da vida do dia-a-dia. O carisma, por outro lado, é explosivo — desafia abertamente os modos tradicionais, despreza a frieza rígida da legalidade impessoal — e, em sua forma pura, volúvel e efêmero.
Quatro aspectos adicionais da discussão de Weber são dignos de nota. Primeiro, as qualidades éticas do líder carismático são irrelevantes para o conceito. Seu dinamismo como indivíduo é que é crucial. Segundo, o carisma é um fenômeno contingente. Apesar de tender a despertar em certas circunstâncias propícias, em especial em condições de agitação, o entusiasmo ou a inquietação, não há nenhuma indicação nos textos de Weber de que seu surgimento esteja socialmente destinado a ocorrer. Terceiro, a existência e a duração do encanto do carisma dependem, acima de tudo, da reação dos outros. Para manter seu fascínio sobre corações e mentes, o carisma de uma pessoa deve ser continuamente exibido e provado, por exemplo, com milagres (Jesus) ou campanhas militares brilhantes (Napoleão). Quando a devoção se transforma em indiferença, a mágica do carisma se evapora. Finalmente, o carisma, em sua forma pura, só chega a existir de modo efêmero. Devido ao seu caráter personalizado, o carisma enfrenta dificuldades de transmissão quando, por exemplo, quem o porta morre. Existem várias soluções para esse problema. Mas em todos os casos o carisma se extingue ou se torna “rotinizado”, isto é, canalizado em instituições de orientação tradicional ou jurídica, com isso perdendo sua quintessência heróica e se tornando, ao contrário, um atributo, digamos, da hereditariedade (por exemplo, um monarca) ou do cargo (por exemplo, o de primeiro-ministro ou o de presidente).
Embora a análise de Weber do carisma seja amplamente encarada como seminal, ela também atraiu críticas ou restrições. Alguns afirmaram que sua ênfase na liderança pessoal carece de uma explicação coerente de por que as pessoas encaram determinada liderança como inspiradora ou instigante, e subestima “o significado social do líder como símbolo, catalisador e portador de mensagem” (Worsley, 1957, p.293). Pois se o carisma depende do reconhecimento social, como Weber insiste em dizer que acontece, então a cultura e as sensibilidades dos que vêm legitimá-lo exigem maior especificação (Baehr, 1990). Além disso, a exposição de Weber sobre a aura do carisma tende a deixá-lo numa espécie de condição mística. Em contraste, recentes estudos sociológicos de oratória política e linguagem corporal (em especial por Atkinson, 1984, por exemplo) têm demonstrado que o que geralmente passa por carisma é, em boa parte, uma técnica — uma série de habilidades, práticas e mensagens aprendidas e orquestradas por políticos.
A contribuição do carisma à estabilidade social, diferentemente da revolução, é outra área que Weber pode ter subestimado (apesar de não a ter desprezado: ver a exposição anterior sobre rotinização). Shils, por exemplo, escreve a respeito de uma “propensão carismática” que pode ser encontrada em todas as sociedades, revelada no “temor e reverência” com que certos objetos são encarados. De acordo com isso, o carisma não apenas é algo possuído por líderes exemplares mas pode estar inerente em “papéis, instituições, símbolos e estratos ou compostos seculares comuns” (Shils, 1965, p.200). Objetos e pessoas que a sociedade acredita possuírem carisma assim são porque encarnam os valores essenciais da sociedade e, portanto, se relacionam com as questões extremas com as quais essa sociedade se preocupa, de forma que o carisma diz respeito à necessidade de coerência social. Assim, nas mãos de Shils, o carisma se transforma em uma força que é útil na manutenção da ordem social, enquanto Weber enfatizava seus atributos revolucionários.
Mais recentemente cientistas sociais têm utilizado o conceito de carisma em inúmeras esferas. Primeiro, e de maneira mais óbvia, ele foi empregado em relação a seitas e cultos religiosos cujos líderes são capazes de atrair seguidores devotos (por exemplo, Wallis, 1982). Segundo, foi usado para descrever e explicar o apelo de muitos líderes políticos (Apter, 1968; Schweitzer, 1984; Willner, 1984). Entre estes, encontramos líderes nacionais que foram capazes de desenvolver uma missão que tanto prometia a liberdade do domínio colonial quanto superava as implicações conservadoras da submissão à autoridade tradicional (Gandhi, Nkrumah); líderes revolucionários marxistas (Lenin, Castro); líderes de ditaduras modernas (Hitler, Mussolini); e líderes que alcançaram poder no contexto de democracias modernas (F. D. Roosevelt). Terceiro, existe um uso crescente da palavra para descrever alguns líderes de organizações comerciais (ver, por exemplo, Conger, 1989), cujos esforços notórios produzem uma transformação radical no destino de  uma organização em dificuldades (por exemplo, Iacocca, da Chrysler), ou cuja liderança resulta na fundação de organizações novas e vitais (por exemplo, Burr, da People Express).
Apesar de ser atraente tentar identificar tipos de carisma, essas tentativas correm o risco de gerar listas excessivamente longas: Schweitzer (1984), por exemplo, cataloga mais de 50 tipos! Duas dicotomias básicas, porém, tendem a ser empregadas com alguma freqüência na literatura especializada. Primeiro, existe a diferenciação entre carisma original e rotinizado. Nesse ponto, pesquisas mostram que líderes carismáticos às vezes desenvolvem estratégias elaboradas para resistir às incursões da rotinização, como no caso de David “Mo” Berg e os Filhos de Deus (Wallis, 1982). Por outro lado, a rotinização nem sempre tem sucesso: assim, o estudo realizado por Trice e Beyer (1986) sobre duas organizações dedicadas ao alcoolismo mostra como a rotinização do carisma do fundador pode ser frustrada por estruturas inadequadas ou por acontecimentos inesperados.
Uma segunda distinção, às vezes proposta, é entre carisma real e fabricado (ou pseudocarisma). Isso destaca o contraste entre o apelo legítimo de um indivíduo verdadeiramente carismático e a encenação e o trabalho de mídia que geralmente penetram na geração do carisma moderno (Bensman e Givant, 1975). Com plausibilidade, porém, essa distinção é ela própria problemática, pois deixa de reconhecer que todo carisma é, em certo sentido, fabricado, isto é, depende da apresentação de uma imagem atraente o bastante para recrutar um bando de seguidores que, por sua vez, agirão como emissários da causa ou missão em questão.

(William Outhwaite & Tom Bottomore - "Dicionário do pensamento social do século XX")

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publicado às 15:12



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