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A neurose religiosa

por Thynus, em 03.06.13

 

Onde quer que tenha se manifestado a neurose religiosa, encontramo-la vinculada a três perigosas prescrições: solidão, jejum e castidade — mas não se pode estabelecer com certeza qual seja a causa, qual o efeito, nem mesmo que exija propriamente uma relação de causa e efeito. O que dá o direito de manifestar uma tal dúvida é o fato de que entre os sintomas mais comuns que costumam acompanhá-la encontra-se ainda uma imprevista e desenfreada volúpia, tanto entre os povos selvagens quanto nos civilizados, libidinagem que se converte com a mesma celeridade em fanatismo de contrição, em renegação do mundo e da vontade; deve-se procurar a explicação numa epilepsia dissimulada?
Mas neste caso mais que em qualquer outro deve-se cuidar para não querer definir a qualquer custo; em nenhum outro caso pulularam tão freqüentemente o absurdo e a superstição, nada pareceu interessar mais aos homens, incluindo os filósofos, e já é tempo de se considerar um pouco mais friamente as coisas, de sermos mais circunspectos, melhor ainda volver a vista, afastar-se. Mesmo na filosofia mais recente, na de Schopenhauer, encontra-se, quase como um problema em si, esta angustiosa questão da crise e do despertar da religião. O impacto das perguntas: Como é possível negar a vontade? Como é possível o santo? Parece que estes problemas fizeram de Schopenhauer um filósofo e foram origem de sua filosofia. Se nos perguntassem o que pode apaixonar aos homens de todas as classes e de todos os tempos, inclusive aos filósofos, acerca do fenômeno da santidade, poderia responder sem medo de errar que é a aparência de milagre que tem esse fenômeno. Acreditamos observar neste fenômeno a metamorfose súbita do "mal" em santo, em homem de bem. E, por conseqüência nitidamente schopenhaueriana, seu discípulo mais convicto (ainda que último, pelo menos para a Alemanha), isto é, Richard Wagner, coroou a obra da própria vida com a apresentação daquele tipo horrível e eterno sob os despojos de Kundry, type vécu, em carne e osso, no mesmo instante em que psiquiatras de quase toda a Europa tinham bom motivo de estudá-lo de perto, onde a neurose religiosa, ou como eu a chamo "a mania religiosa" tinha seu último foco epidêmico disfarçado com a portada da saúde".
A psicologia naufragava contra esse escolho: não seria por que tivesse se colocado sob o domínio da moral, porque ela mesma acreditava nas oposições morais dos valores e porque introduzia nos texto e nos fatos uma versão errônea, uma interpretação? Como? Por acaso o "milagre" é apenas uma falha de interpretação, uma falta de filologia?
Parece que as raças latinas sentem mais intimamente seu catolicismo, do que nós pessoas do Norte, e conseqüentemente a incredulidade nos países católicos deve significar qualquer coisa de muito distinta daquela dos países protestantes — porque eqüivale a uma espécie de revolta contra o espírito da raça, enquanto para nós denota um retorno ao espírito (ou à falta de espírito) — da raça. Nós, do Norte, somos provenientes, indubitavelmente, de raças bárbaras, mesmo relativamente a nosso espírito religioso: que na verdade não temos. Podem ser excetuados os celtas que forneceram o melhor terreno para a propagação da infecção cristã nos países nórdicos, na França, o ideal cristão, tanto quanto o permite o fraco sol do Norte, atinge seu maior desenvolvimento.
Quão estranhamente piedosos pois parecem, para nosso gosto, também os últimos cépticos franceses, principalmente quando têm sangue celta em suas origens! Que odor de catolicismo anti-alemão existe na sociologia de Auguste Comte com a sua lógica dos instintos, tão romanas Que odor de jesuitismo no amável e prudente Cícero de Port Royal, Saint Beuve, com toda a sua aversão pelos jesuítas. E Ernesto Renan, quão inacessível soa para nós setentrionais a linguagem de um Renan, em que todo momento um princípio de tensão religiosa faz perder o equilíbrio à sua alma finamente voluptuosa e amante das sutilezas.
Citamos as seguintes belas frases dele e rapidamente uma resposta maligna e impertinente se apresentará à nossa alma, menos bela e mais rude, porque mais alemã: — "Disons donc hardiment que la religion est un preduit de l'homme normal, que l'homme est plus dans le vrai quand il est plus religieux et le plus assuré d'une destinée infinie... C'est quand il est bom qu'il veut que la vertu correspond à un ordre éternel, c'est quand il contemple les chases d'une manière désintéressée qu'il trouve la mort revoltante et absurde. Comment ne pas rupposer que c'est dans ces moments-là, que l'homme voit le mieux?..." ("Dizemos então seguramente que a religião é produto do homem normal, que o homem está mais próximo do verdadeiro quando é mais religioso e mais seguro de um destino Infinito... É quando é bom que ele vê que a virtude corresponde a uma ordem eterna, é quando contempla as coisas de maneira desinteressada que acha a morte revoltante e absurda. Como não supor que é nesses momentos que o homem deseja o melhor?...") O som desta frase está tão nas antípodas de minha orelha e de meus hábitos, que quando o li pela primeira vez escrevi à margem: "la niaiserie religieuse par excellence" ("a tolice religiosa por excelência".). — Mas para vergonha de meu primeiro ressentimento acabei por considerar valiosas aquelas frases que cavalgavam a verdade! É tão estranhamente gentil, tão honorável ter os próprios antípodas.
O que causa estupor na religiosidade dos antigos gregos é a exuberante gratidão que exala da mesma. Um homem que ocupa uma tal posição frente à natureza e à vida pertence a uma espécie realmente muito aristocrática!! Mais tarde, quando a plebe, também na Grécia, tornou-se preponderante, o temor invadiu também a religião, e o Cristianismo começou a preparar-se.
O amor de Deus, foi o amor rusticamente sincero e indiscreto de Lutero — o protestantismo não tem "delicadeza", a delicadeza meridional; no amor de Deus existe o êxtase oriental do escravo liberto ou perdoado sem tê-lo merecido, por exemplo, Santo Agostinho, no qual ofende a falta de modos e apetites aristocráticos, há a delicadeza e a concuspiscência feminil, a qual, vergonhosa e ignorante aspira a uma união "mystica et physica", como por exemplo a de Madame de Guyon. Em muitos casos se revela bastante estranhamente algo .semelhante ao travestimento da puberdade de uma moçoila ou de um jovenzinho, isto talvez absconda a histeria de uma solteirona, talvez também a sua última ambição — em tais casos a Igreja canonizou a mulher, freqüentemente.
Até este momento mesmo os homens mais potentes têm se inclinado em--sinal de adoração frente ao santo, como diante de um enigma da sujeição de si mesmo, da última privação voluntária. Por que se inclinaram? Pressentiam nele — ou melhor, atrás da interrogação do seu aspecto mesquinho e miserável, a força superior que quer se afirmar numa tal vitória, a força da vontade, o próprio brado de dominação, ao honrar o santo, honravam algo em si mesmos. Além do mais, a vista do santo insinuava em si uma suspeita; uma tal monstruosidade de negação contra a natureza, não seria desejada e querida sem uma finalidade, assim diziam e acreditavam. Deveria haver um motivo para fazer isso, um perigo tão grave, que o asceta, graças aos seus conselheiros secretos, espera conhecer? Em breve, os poderosos da terra apresentaram um novo temor, pressentiram uma força nova, um inimigo ignorado e ainda invicto: "a vontade da dominação", foi essa que os constrangiu a deterem-se diante do santo. Sentiam necessidade de interrogá-lo.

(FRIEDRICH WILHELM NIETZSCHE - "ALÉM DO BEM E DO MAL")

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