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Por que Nietzsche não é cristão?

por Thynus, em 01.06.13

 

Friedrich Nietzsche (1844-1900) ainda hoje é um autor que chama a atenção de muitos leitores. Seja porque Foucault, Heidegger ou Sartre o tenham citado amplamente, seja porque tantos outros o chamaram de maldito (em relação à sua herança: as críticas à religião cristã). Ou ainda por causa das deturpações que sua irmã, Elisabeth Nietzsche, promoveu em suas obras; especialmente em Vontade de Potência, para agradar Adolf Hitler e os nazistas e se promover na década de 1930.
Nietzsche escreveu sobre arte (literatura e música), moral e ética, religião, antropologia, teoria do conhecimento e também é autor de um romance filosófico, o Assim falou Zaratustra. A diculdade para ler Nietzsche está no fato de, além das traduções do alemão para o português nem sempre serem fiéis, ele não separar tais assuntos em obras sistematizadas (por exemplo, Kant - 1724/1804 - o fez), mas aqueles que querem escutar Nietzsche por meio de suas obras devem executar verdadeiro trabalho de pesquisador atento, pois são muitos os jogos de linguagem que ele usa, os trocadilhos e ironias, interjeições etc.
Mas Nietzsche era um filósofo do porvir, como gostava de salientar, e isso porque talvez, mais do que um Feuerbach (1804-1872) ou um Schopenhauer (1788-1860), tenha vivido na própria carne seu tempo e as mazelas da Europa de um de século com a Guerra Franco-Prussiana, que abalou as bases culturais do continente.
Enquanto Feuerbach desmisticava o cristianismo (em sua A essência do cristianismo) e Schopenhauer filosofava racionalmente (aos moldes ocidentais em O mundo como vontade e como representação) sobre a ideia oriental budista da ascese, e fazia avançar o pensamento humano para considerar a existência da possibilidade de uma "vontade cega" que guia o universo, concluindo, com isso, que não há sentido último no universo, que o mundo não está aí para o homem se deleitar com seus frutos (ao contrário, tudo está aí por mero acidente), não há planejamento, não há deuses por trás das coisas, o homem, grosso modo, para Schopenhauer, também é um acaso da "vontade cega" que comanda o universo.

NIETZSCHE E AS CRÍTICAS AO CRISTIANISMO
Nietzsche não é o primeiro autor moderno a criticar a religião cristã. Feuerbach, Marx (1818-1883) e Engels (1820-1895) já o tinham feito. Feuerbach mostra que foi o homem quem criou "deus" e não o contrário, e isso se deu quando o homem projetou em um ser imaginário tudo aquilo que desejava ter: imortalidade, sabedoria, onipresença, onipotência e onisciência.
Marx mostrou que são as condições econômicas e materiais que condicionam as ideias do ser humano e que eles estão atrelados a seu horizonte histórico. Além disso, a sociedade, para Marx, é constituída pela luta de classes (que é o motor da história), sendo assim há uma luta entre proprietários dos meios de produção (burgueses) e operários (proletários), estes últimos são espoliados pelos patrões, que se beneficiam deles pela mais-valia (o lucro que o trabalhador produz e que vai para o bolso do patrão); logo Marx advoga pelo fim dessa luta, ou seja, a abolição das classes sociais, o socialismo. Isso para que todos tenham acesso às benesses da vida moderna (e não apenas alguns poucos que podem pagar por isso). Consequentemente, Marx afirma que a religião também desapareceria, pois "Deus" não passa de uma criação do homem para justificar a vida de sofrimentos que tem na Terra (com ideias como pecado e redenção ou sofrimento e recompensa no além).
Mas aí surge Nietzsche com outro foco crítico contra a doutrina cristã, a moral e sua gênese. E é para entender isso que não se poderia inescrupulosamente apresentar o autor sem seu contexto histórico e sem aqueles que o antecederam. Da mesma forma como é importante avisar àqueles que tomam primeiro contato com Nietzsche e suas polêmicas declarações de que ele não conflita apenas uma das igrejas cristãs, mas todas.

CONTRAPOSIÇÃO: A ÉTICA CRISTÃ NEGA A VIDA NA TERRA
Para Nietzsche, o Ocidente, adotando a ética cristã, negou a vida real (material). Então, segundo ele, a doutrina judaico-cristã, com o conceito de "Deus castigador", moralista e juiz de homens como no Antigo Testamento, serviu apenas como um "cabresto". Jesus, com ideias como "ressurreição" e "mundo melhor" após a morte, apenas contribuiu para que todos se penitenciassem para escapar do pecado original. Mas esse pecado é impossível para Nietzsche quando ele pressupõe que o homem não tem "alma" (no sentido de algo que sobrevive após a morte) e que "Deus" não existe fora da mente humana.
O homem, então, é concebido apenas pela força da natureza e se perece com a morte. Caso isso seja verdade, infere Nietzsche que o "pecado" não passa de invenção que alimenta o medo (medo de morrer e ir para o "inferno"), medo este que é o fundamento da moral cristã. Em sua Genealogia da Moral, Nietzsche afirma que primeiramente a moral foi criada para impedir o homem de cair no niilismo e para dar explicações para a vida e seus sofrimentos. Entretanto, seu principal fator de fundamentação se constituiu no medo (NIETZSCHE, Genealogia da Moral In: Os Pensadores, p. 333). Quer dizer, o que o autor percebe de nocivo aí é que não há nenhuma relação de amor ou gratuidade com um suposto "Deus", o que há é o culto de "Deus" pelo homem porque o homem é um "covarde da vida". Teme suas mazelas e se esconde atrás de "Deus", que serve como muleta.
Nietzsche diz que é esse medo que gera a angústia diante da vida e acarreta a busca do perdão de "Deus". O problema para Nietzsche está no administrador do perdão, o sacerdote. Para Nietzsche, a lei, falando pela boca do sacerdote, transforma-se na moral vigente. Há uma máscara sobre "Deus", porque o sacerdote ganha para si o poder da lei, personificando "Deus". E, como a lei vem de um "Deus" que precisa de intérpretes (pois os textos bíblicos são a única manifestação que o crente aceita como tal), os homens elegem o sacerdote como o intérprete de "Deus". Mas aí surge outro problema, diz Nietzsche: se "Deus" é juiz dos homens e o sacerdote (padre ou pastor cristão) é seu porta-voz, então, na realidade, é o sacerdote quem julga os homens? Sim, diz ele, porque mesmo que "Deus" exista quem dá a última palavra é o sacerdote.
Assim, o sacerdote, se é quem controla o divino (porque interpreta a lei e "sabe" o que "Deus" quer dos homens), controlando o mundo terreno e controlando as coisas da Terra, controla o comportamento das pessoas por meio da moral. Assim Nietzsche mostra como os homens se deixam aprisionar por uma metafísica, ou seja, moral cristã, que é reproduzida de geração a geração e pela qual são punidos aqueles que desejam apontar suas contradições. É por isso, conclui Nietzsche, que a moral é uma "prisão" para os homens.
Quanto ao crente (cristão), este se deixa guiar passionalmente por acreditar que o sacerdote o levará ao paraíso com a graça de "Deus". Mas, para Nietzsche, esse "Deus" (como já foi dito) é uma muleta que serve para o homem amenizar sua fraqueza carnal diante do mundo real. Logo, Nietzsche rejeita a doutrina cristã, chamando-a de "moral de rebanho". "Moral de fracos" que se unem para louvar "Deus" (o cabresto) e pedir perdão a "ele". A moral cristã que arrebanha crentes para cultuar "Deus" recruta culpados para que "ele" seja reconhecido como tal. O menosprezo pelo homem que eleva "Deus" torna-o algoz do homem. Foi por isso que Nietzsche afirmou no Anticristo: "Deus está morto".

O PROBLEMA DA MORAL CRISTÃ
O problema da moral cristã, seu maior erro, diz Nietzsche, é querer mudar o homem para algo melhor. Em outras palavras, ele quer dizer que quando Jesus instituiu sua moral, o fez em nome do "Deus-cabresto." É como se Jesus dissesse: "Obedeça-me ou o meu 'Deus' te punirá. A pergunta que surge da reflexão nietzschiana é: "se perdoar significa apenas contentar um 'Deus' ou cumprir a lei, que valor tem o perdão?" Perdoar por esse motivo é comprar "Deus" e isso pode ser ilustrado no sacrifício que os judeus realizavam no Templo de Javeh na antiga Israel.
Para superar isso é que Nietzsche propõe uma ética a ser praticada por aqueles que têm coragem de enfrentar a vida sem se ajoelhar diante dos cabrestos. Por quem não acredita no reino dos céus nem espera recompensas no além-mundo. Nietzsche queria, sim, a abolição do cristianismo. Pode-se argumentar que a ética nietzschiana é para aqueles que se sentem gratificados com a simples felicidade do próximo. Como exercício de ilação pode-se inferir que aqueles que pensam assim perdoariam ou não de acordo com sua consciência (com o sentimento de bem-estar consigo mesmo) e não a partir dos padrões morais vigentes ou por causa da vontade da igreja ou do sacerdote e muito menos por medo do castigo divino.

Para Nietzsche, foi o ideal ascético (a vontade de se purificar) o principal motivo que levou ao surgimento da moral. Por isso ela é (aparentemente) uma autoridade superior à qual se obedece não porque ordene o que é "melhor", mas simplesmente porque ordena e questioná-la já é por si uma imoralidade. É o medo perante essa "inteligência" superior que ordena, é o medo de um poder incompreensível e impreciso de qualquer coisa que ultrapassa o individual, um medo que está impregnado de superstição, como diz em O crepúsculo dos ídolos (p. 69): "Em todos os tempos quis-se melhorar o homem; a rigor é o que chamamos de moral. Porém sob a palavra moral se ocultam tendências muito diferentes.
A domesticação do animal humano e a criação de uma espécie determinada de homens são um melhoramento e essas noções zoológicas, as únicas que expressam realidades, porém realidades que o melhorador típico, o sacerdote, ignora e não quer saber nada a respeito. Chamar melhoramento à domesticação do animal soa aos nossos ouvidos quase como uma brincadeira. Contudo, duvido muito que o animal acabou melhorando. É debilitado, é efeito menos perigoso; com um sentimento deprimente do medo, com a dor e as feridas faz-se dele um animal enfermo. O mesmo sucede ao homem domesticado, que o sacerdote tornou melhor".
Nietzsche diz que o homem era uma "caricatura", um "aborto" e que assim é que foi feito um pecador. "Estava enjaulado, fora encerrado no meio de ideias espantosas. Doente e miserável se aborrecia a si mesmo, estava repleto de ódio contra os instintos da vida, repleto de desconfiança em relação a tudo que permanecia sendo forte e feliz. Em uma palavra: era cristão" (Idem).
RRMATIAS "Em todos os tempos quis-se melhorar o homem; a rigor é o que chamamos de moral. Porém, sob a palavra moral se ocultam tendências muito diferentes. A domesticação do animal humano e a criação de uma espécie determinada de homens são um melhoramento e essas noções zoológicas as únicas que expressam realidades, porém realidades que o melhorador típico, o sacerdote, ignora e não quer saber nada a respeito."
Aqui Nietzsche aponta alguns malefícios que a moral cristã fez ao homem em geral, enjaular o humano (o animal) e domesticá-lo foi já transformálo em algo doente e estabelecer nele valores niilistas, porque se negou uma parte de sua própria natureza para dar lugar a outra (mutilada), ao racionalismo, apenas. Pretende perguntar com isso onde está, afinal, o humano no cristão quando se comporta negando a sexualidade, o corpo, o amor como encontro com o outro (encontro até sexual). Em outras palavras, é possível perguntar: Que validade tem, afinal de contas, ser cristão se este vive ameaçado pela terrível punição de ser excluído da presença de Deus se não se comportar "bem"? Se não se enquadrar na sua "moral"? Para responder a isso, Nietzsche propõe "transvalorar" todos os valores.

A TRANSVALORAÇÃO DOS VALORES
Diz Nietzsche que o que ele exige do " filósofo é que se coloque além do bem e do mal, que ponha sob si a ilusão do juízo moral" (Anticristo, p. 69). Ainda diz que o "juízo moral tem em comum com o juízo religioso o crer em realidades que não existem."
Para ele, a moral é uma interpretação de certos fenômenos, mas uma falsa interpretação: "O juízo moral pertence, como juízo religioso, a um grau de ignorância em que a noção da realidade, a distinção entre o real e o imaginário não existe, de modo que em tal grau a palavra 'verdade' serve para expressar coisas que hoje chamamos imaginação. Por isso não se deve nunca tomar ao pé da letra o juízo moral, pois entendido assim seria um contrassenso. Entretanto, como semiótica possui um valor inapreciável, pois revela ao que sabe entender, ao menos, realidades preciosas acerca das civilizações e dos gênios que não souberam o bastante para compreender a si mesmos. A moral é apenas uma linguagem de signos, uma sintomatologia, é preciso saber de antemão do que se trata para se poder tirar partido dela (Crepúsculo dos ídolos, p. 69)"
Nietzsche conclui ainda que o erro da moral está em acreditar que seus princípios são absolutos e ideais. E que seus extremos estão nos ditos homens morais. Para mudar a moral é preciso mudar a maneira de julgar ("quem disse que o bem e o mal se medem a partir do homem?", pergunta-se), e também mudar o seu modo de sentir. Por isso, ele afirma que a moral, como instituição, surgiu para tirar o homem do estado de natureza, legalizar a vida em sociedade, perpetuar os costumes e dirigir as sociedades pelas gerações como sua cultura, mas falsa cultura porque foi construída por outros homens e não por divindade alguma.
A moral imortalizou a prática religiosa na vida cotidiana, impôs a noção de culpa (ao sujeito que a transgredia) e determinou as relações comerciais e afetivas entre os cidadãos por meio dos castigos: "[...] fica aqui o esquema a que eu mesmo cheguei, com fundamento em um material relativamente pequeno e contingente. Castigo como tornar-inofensivo, como impedimento de novo dano. Castigo como pagamento de dano a quem sofreu o dano, sob qualquer forma (também sob a forma de uma compensação afetiva). Castigo como forma de isolamento de uma perturbação do equilíbrio, para impedir a propagação da perturbação" (Genealogia da Moral, p. 318)
A partir daí, pode-se argumentar por que Nietzsche propõe a transvaloração dos valores, ou seja, a abolição da moral, o que acarreta, por conseguinte, a abolição de sua principal viga mestra, a religião que domina o Ocidente há mais de 2 mil anos, o cristianismo. Diferentemente de Marx, Nietzsche não pregava uma revolução para que isso acontecesse, o que ele almejava (como solução, se é que se pode usar essa palavra) é que cada um de seus leitores tomasse consciência desses argumentos e percebesse que ser cristão é entregar sua vida para uma fantasia (crença em "Deus") ou para a vontade da moral dos padres. Énfim, é mais uma proposta de cunho individual do que coletiva, pressupondo que seja possível cada homem e mulher no Ocidente se conscientizar dos equívocos de sua própria cultura.

(Gerson Nei Lemos Schulz é filósofo, professor na universidade do estado do Amapá

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publicado às 10:45



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