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Dos sacerdotes

por Thynus, em 31.05.13

 

 

E certa vez Zaratustra fez um sinal a seus discípulos e lhes falou estas palavras:
“Ali estão sacerdotes: e, embora sejam meus inimigos, passai por eles em silêncio e com a espada na bainha!
Também entre eles há heróis; muitos deles sofreram muito —: assim, querem fazer outros sofrer.
Eles são maus inimigos: nada é mais vingativo do que sua humildade. E suja-se facilmente aquele que os ataca.
Mas meu sangue é aparentado ao deles; e quero que meu sangue seja honrado também no deles.” —
Após haverem passado, Zaratustra foi tomado pela dor; e não muito tempo havia lutado com sua dor, quando se ergueu e pôs-se a falar: Esses sacerdotes me causam pena. Também me ofendem o gosto; mas isso é o mínimo, desde que me acho entre os homens.
Mas eu sofri e sofro com eles: para mim, são prisioneiros e homens marcados. Aquele a quem chamam Redentor lhes pôs cadeias: —
Cadeias de falsos valores e palavras ilusórias! Ah, se alguém os redimisse de seu Redentor!
Numa ilha acreditaram certa vez aportar, ao serem arrastados pelo mar; mas olha, era um monstro adormecido!
Falsos valores e palavras ilusórias: eis os piores monstros para os mortais — longamente dorme neles a fatalidade, e espera.
Mas enfim chega, desperta, come e engole os que sobre ela construíram choupanas.
Oh, observai as choupanas que esses sacerdotes construíram! Chamam de igrejas essas cavernas de cheiro adocicado.
Oh, essa luz falseada, esse ar abafado! Ali, onde a alma não pode — voar até suas alturas!
Mas, em vez disso, sua fé ordena: “Subi de joelhos a escada, ó pecadores!”.
Em verdade, prefiro ainda ver o homem sem vergonha do que os olhos contorcidos da vergonha e devoção deles!
Quem criou tais cavernas e degraus de penitência? Não foram aqueles que queriam se esconder e se envergonhavam diante do céu puro?
E, apenas quando o céu puro novamente olhar através de tetos destruídos e para a grama e as papoulas-vermelhas junto aos muros destruídos, — eu novamente voltarei meu coração para as moradas desse Deus.
Chamaram Deus ao que os contradizia e lhes causava dor: e, em verdade, havia muito de heroico em sua adoração!
E não souberam amar seu Deus de outra forma senão pregando na cruz o ser humano!
Como cadáveres pensaram eles em viver, de preto vestiram seu cadáver; também em suas falas eu sinto o mau cheiro das câmaras mortuárias.
E quem vive próximo a eles vive perto de negros lagos, onde o agourento sapo canta com doce melancolia.
Canções melhores eles teriam de me cantar, para que eu aprendesse a acreditar em seu Redentor: os discípulos deste teriam de me parecer mais redimidos!
Nus eu desejaria vê-los: pois a beleza deveria pregar penitência. Mas a quem persuadiria essa aflição mascarada?
Em verdade, seus redentores mesmos não vieram da liberdade e do sétimo céu da liberdade! Em verdade, eles mesmos nunca andaram sobre os tapetes do conhecimento!
O espírito desses redentores era feito de lacunas; mas em cada lacuna haviam posto sua ilusão, seu tapa-buraco, que chamavam de Deus.
Em sua compaixão se afogara seu espírito, e, quando se inflavam e inchavam de compaixão, sempre boiava na superfície uma grande tolice.
Zelosamente e aos gritos empurravam seu rebanho sobre a sua estreita ponte: como se houvesse uma única ponte para o futuro! Em verdade, também esses pastores contavam ainda entre as ovelhas!
Espíritos pequenos e vastas almas tinham esses pastores: mas, meus irmãos, que pequenos países não foram até agora também as almas mais vastas!
Sinais de sangue inscreveram no caminho que percorreram, e sua tolice ensinou que a verdade se prova com o sangue.
Mas o sangue é a pior testemunha da verdade; o sangue envenena inclusive a mais pura doutrina, tornando-a loucura e ódio nos corações.
E, se alguém caminha sobre o fogo por sua doutrina — o que prova isso?
Mais vale, isto sim, que a nossa doutrina venha de nossa própria chama!
Coração quente e cabeça fria: quando estes se encontram, surge o vento impetuoso, o “Redentor”.
Em verdade, houve homens maiores e de mais alto nascimento do que esses que o povo chama redentores, esses impetuosos ventos que arrebatam!
E de homens ainda maiores do que todos os redentores ainda tereis de ser redimidos, ó irmãos, se quiserdes achar o caminho para a liberdade!
Jamais houve um super-homem. Ambos eu vi nus, o maior e o menor dos homens: —
Demasiado semelhantes ainda são um ao outro. Em verdade, também o maior de todos me pareceu — demasiado humano!
Assim falou Zaratustra.

(Friedrich Nietzsche  "assim falou Zaratustra")

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publicado às 19:49



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