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Há regiões em que na noite de passagem de ano tudo o que é velho - roupas, pratos, mobília - vai pela janela fora para a rua. E também é sabido que na noite de passagem de ano há licenças ao nível do álcool e até com a sexualidade que normalmente não são permitidas. É um pouco como se, retomando agora de modo secularizado os mitos cosmogónicos, se instalasse o caos primitivo, para em seguida, como fizeram os deuses in illo tempore, ser reposta a ordem do cosmos.
Perante um Ano Novo que está aí à nossa frente, os sentimentos misturam-se: perplexidade, entusiasmo, dúvida, expectativa, temor, esperança... Que é que nos reserva o novo ano: para mim, para a minha família, para os meus amigos, para o país, para a Europa, para o mundo? Será melhor, será pior que o ano que passou?
Querendo ir mais fundo, até somos tentados a pensar que é tudo igual, que tudo se repete: morre um ano, surge outro ano, na roda eterna do mesmo... Mas não é assim. Nunca houve na história de cada um de nós, na história do país, na história da Europa, na história da humanidade, na história do mundo, com quinze mil milhões de anos, um ano como esse que acaba de surgir. Ele está aí, novo, pela primeira vez, como criança acabada de nascer. E exactamente como a criança está aí com confiança. Todos nós, individual e colectivamente, enfrentamos o novo ano essencialmente com confiança: se reflectirmos bem, esperamos, evidentemente com realismo, também com algum temor, mas essencialmente esperamos confiadamente. Porque o ser humano é um ser constitutivamente esperante, apesar da dureza toda com que a vida nos foi confrontando.
Por que é que os homens e as mulheres, apesar de todos os fracassos, horrores, sofrimentos e cinismos, ainda não desistiram de lutar e de esperar? Por que é que continuamos a ter filhos? Por que é que depois de guerras destruidoras e terramotos devoradores, recomeçamos sempre de novo? Pergunta, com razão, o célebre teólogo Johann Baptist Metz: "Por que é que recomeçamos sempre de novo, apesar de todas as lembranças que temos do fracasso e das seduções enganadoras das nossas esperanças? Por que é que sonhamos sempre de novo com uma felicidade futura da liberdade", embora saibamos que os mortos não participarão nela? Por que é que não renunciamos à luta pelo homem novo? Por que é que o homem se levanta sempre de novo, "numa rebelião impotente", contra o sofrimento que não pode ser sanado? "Por que é que o homem institui sempre de novo novas medidas de justiça universal, apesar de saber que a morte as desautoriza outra vez" e que já na geração seguinte de novo a maioria não participará nelas? Donde é que vem ao homem "o seu poder de resistência contra a apatia e o desespero? Por que é que o homem se recusa a pactuar com o absurdo, presente na experiência de todo o sofrimento não reparado? Donde é que vem a força da revolta, da rebelião?"
Neste movimento incontível, ilimitado, do combate da esperança, pode ver-se um aceno do Infinito, um sinal de Deus. Como se não cansava de repetir o ateu Ernst Bloch: "Onde há esperança, há religião".

(Anselmo Borges - "Janela do (In)Visível")


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publicado às 11:05



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