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Signos

por Thynus, em 26.05.13

 

Os signos são meios para superar a experiência transcendente de outrem e do seu mundo. O mundo de outrem transcende o meu num duplo sentido: a) por um lado, há zonas que estão ao meu alcance imediato que não estão ao seu alcance imediato e vice-versa; b) por outro lado, o sistema de relevâncias de Outrem, fundado na sua situação biográfica única, não é coincidente com o meu. Embora não me seja possível colocar ao meu alcance imediato os pensamentos do meu co-associado, posso, através da relação apresentacional de signos, compreender as suas cogitações a partir da esfera do meu alcance imediato e, ao fazê-lo, consigo superar a transcendência da experiência de Outrem.
O signo, por um lado, remete a alguma intenção de expressão e utilização por parte do seu utilizador e, por outro lado, aponta para alguém que lê o signo e recebe a sua mensagem. Quando olhamos para um signo não o olhamos como um objecto mas como algo representativo de outra coisa qualquer. A nossa atenção não se foca nele mas naquilo que representa. Schutz cita Husserl para afirmar que é da natureza da relação sígnica que o signo e aquilo pelo qual ele se encontra, pelo qual ele vale, nada têm a ver um com o outro. Será esta característica que levará diversos autores a falarem do carácter convencional e arbitrário do signo. O signo é sempre um termo apresentativo tornado presente através de uma percepção imediata, a qual se relaciona com o termo apresentado. Na relação significativa, temos o objecto apresentativo como percebido no campo intuitivo. Porém, não estamos dirigidos para ele directamente mas, através do médium de uma apresentação secundária, para algo mais que é indicado ou apresentado pelo primeiro objecto.
Schutz revela uma sensibilidade para a vida social dos signos e para o seu uso individual, antecipando algumas reflexões que se farão, posteriormente, na Semiótica. Assim, diz existir uma certa ambiguidade no dito comum segundo o qual “o signo se encontra sempre em lugar de algo”. O signo é de facto um “signo por” que se encontra na vez do que quer que seja por ele representado, o significado do signo. Mas o signo é, também, um “signo por” aquilo que ele expressa, nomeadamente as experiências subjectivas da pessoa que usa o signo. Por isso, no mundo da natureza não há signos (Zeichen) mas apenas indicações (Anzeichen). O signo também se refere sempre a um acto de escolha por parte de um ser racional – uma escolha deste signo em particular. Nesse sentido, também é indicação de um evento na mente de um seu utilizador. A isto Schutz chama a “função expressiva” do signo.
Porém, na interpretação do signo não é necessário ter em conta que alguém o construiu ou usou. O intérprete apenas tem de conhecer o significado do signo. Por outras palavras, têm que estabelecer a correlação entre o esquema interpretativo do objecto que é o signo e o esquema interpretativo do  objecto que ele significa. Quando vemos um sinal na estrada, pensamos “obrigatório virar à esquerda!” e não “de que é feito este sinal” ou “quem o construiu?”. Podemos então definir os signos como artefactos ou objectos-acto (um objecto-acto é, por exemplo, um dedo que aponta, uma mão que apela à paragem ou indica que pode seguir) que não são interpretados de acordo com os esquemas interpretativos que lhe são adequados como objectos do mundo exterior mas antes de acordo com outros esquemas interpretativos referindo-se a outros objectos. Mais ainda, deve acrescentar-se que essa relação entre o signo e o seu correspondente esquema interpretativo – que, como já dissemos, é um esquema interpretativo que não lhe é adequado, referindo-se antes a outros objectos pelo qual o signo está – se baseia na experiência. A aplicabilidade do esquema daquilo que é significado é ela própria, um esquema interpretativo baseado na experiência, chamada sistema sígnico.
O sistema sígnico é um contexto de significado configurado por esquemas interpretativos. O utilizador ou intérprete do signo localizam-no dentro deste contexto de significado. Judiciosamente, Schutz repara porém que existe uma ambiguidade intrínseca a este conceito de sistema sígnico. Como não lhe parece pensável que a relação em questão (entre o signo e o seu correspondente esquema interpretativo) exista independentemente do efectivo uso ou interpretação do signo, tais relações não se verificam entre os signos propriamente ditos mas entre os significados, o que é outro modo de dizer entre experiências de uso e interpretação dos signos. Porém, como tais significados só são apreensíveis por signos, urge recorrer a um sistema sígnico.
O sistema sígnico emerge perante quem o interpreta como um contexto de significado de ordem mais elevada entre signos previamente experimentados: por exemplo, a língua alemã e o sistema de notação musical são contextos de significado para as palavras e notas que os integram. Porém, como a relação do signo com o esquema interpretativo aplicado àquilo que ele significa depende do seu uso, obviamente dar conta da pertença de um signo a um determinado sistema não é a mesma coisa que perceber o que o signo quer dizer e qual a experiência vivida do seu utilizador do qual é veículo expressivo. Nesse sentido, parece haver uma espécie de “tensão dialéctica” entre o sistema sígnico que permite o acesso aos significados e o uso dos signos na vida quotidiana.
Um signo tem significado objectivo dentro do seu sistema sígnico quando pode ser inteligivelmente coordenado dentro desse sistema, independentemente de quem o usa ou interpreta. É a idealidade do «posso de novo fazê-lo ». Porém, a linguagem como código de interpretação e de expressão não consiste apenas nos símbolos linguísticos catalogados nos dicionários e nas regras sintácticas enumeradas numa gramática ideal. De modo diverso das semiologias estruturais, Schutz preocupa-se efectivamente com a dimensão pragmática da linguagem. Mesmo o significado objectivo das palavras, aquele que lhe é atribuído idealmente em relação a esquemas de experiência, fundados nas reservas de experiência partilhados intersubjectivamente como tal, admite um horizonte de indeterminação. Ao fim e ao cabo, o sentido de um signo pode ser decomposto em dois elementos: a) o sentido objectivo, o seu nó de significação em torno do qual os interlocutores acordam e se entendem implicitamente, graças ao fundamento em reservas de experiências intersubjectivamente partilhadas; e b) um sentido subjectivo e ocasional em que as suas orlas de sentido (Sinnfrasen) remetem para uma rede de circunstâncias singulares e contingentes pelas quais se inscreve o uso da palavra no contexto de sentido daquilo que se exprime e daquele que interpreta.
Em relação a este segundo ponto, Schutz faz questão de lembrar que, num sistema de significação como a linguagem, há uma margem de incerteza que remete para o plano afectivo e irracional: toda a palavra, toda a frase, é cercada de auréolas que a liga, de um lado, com elementos passados e futuros do universo de discurso a que pertence e, de outro, com um halo de valores emocionais e implicações irracionais, de natureza inefável. Assim, esses termos, frases e formas estão imbuídos de significados particulares que são envolvidos por auréolas de associação e de emoção. Alguns desses significados adicionais, sobrepostos, são essencialmente privados, particulares a uma pessoa ou a um pequeno círculo íntimo de pessoas; outros são típicos de determinados grupos e classes, profissões, idade ou sexo; outros, ainda, pertencem à mesma comunidade linguística como um todo, embora não possam ser apreendidos por um estrangeiro por meio de um dicionário ou de uma gramática. Para além das conotações estandardizadas, cada elemento de fala adquire o seu próprio significado secundário, original no contexto ou no ambiente social no qual é usado, e recebe, ainda, em certas ocasiões, tonalidades especiais conforme a situação em que é utilizado.
Todo o grupo social, por menor que seja, tem o seu próprio código privado, compreensível apenas para aqueles que participaram de experiências passadas comuns onde o código se criou. Graças a isso, toda a história do código linguístico está espelhada no seu modo de dizer as coisas. Tais traços só são acessíveis aos membros internos do grupo. A fim de dominar fluentemente uma língua como meio de expressão, a pessoa tem de ter escrito cartas de amor nessa língua. Somente para os membros do grupo o código de expressão é genuíno e está à mão e somente eles o dominam fluentemente dentro do seu pensar como sempre.

(José Manuel Santos, Pedro M.S. Alves, Joaquim Paulo Serra - "Filosofias da Comunicação")

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publicado às 18:03



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