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São Francisco foi um produto à parte da Igreja, mas Dante foi seu produto mais perfeito. O catolicismo de São Francisco nada tinha a ver com a grandeza da Igreja. Tivesse ele sido um maometano, um budista, ou um judeu, de qualquer maneira poderia ter produzido o divino poema de sua vida. O catolicismo de Dante, porém, fazia parte integrante de toda a sua pompa. Tivesse Dante sido qualquer coisa, menos católico,nunca poderia ter escrito o seu Inferno. São Francisco e Dante representam, respectivamente, a humanidade e o catolicismo em seus melhores aspectos. São Francisco tentou salvar todos os homens, tanto os católicos, como os não-católicos, dos sofrimentos deste mundo. Dante tentou mandar todo o mundo, exceto alguns poucos católicos piedosos, ao fogo perpétuo e aos sofrimentos do outro mundo.
São Francisco fala por todas as épocas. Dante é meramente o porta-voz da Idade Média. É a voz da Igreja medieval. Seu poema é a melhor apologia da Igreja e sua pior acusação. É um quadro completo da beleza e da beatice do espírito medieval. Este espírito, em sua melhor forma, isto é, o espírito de Dante e o da Igreja Católica em geral, amava intensamente e odiava ainda com mais intensidade. Amava tudo dentro dos limites da Igreja, e odiava tudo fora desses limites. Seu ódio era, na verdade, devido ao seu amor. Ensinava-se a todo católico que Deus punia os filhos transviados, a fim de corrigi-los porque Ele os amava, e, tentando ser êmulos da bondade de Deus, os católicos da Idade Média resolveram corrigir os filhos desencaminhados neste mundo, torturando-os e matando-os, se necessário, porque eles os amavam. G. K. Chesterton, a voz do catolicismo hodierno, diz em um trecho de seu livro sobre São Francisco, que “não há nada incompatível entre amar uma pessoa e matá-la”. O espírito medieval de Chesterton compreende perfeitamente o espírito medieval do século XIII. Dante compadecia-se dos pecadores do Inferno, e, em alguns casos, como no de Francesca de Rimini, a quem conhecera desde a infância — amava-os. Contudo, também gostava de vê-los pagar pelos seus pecados, porque supunha serem esses sofrimentos da vontade de Deus. Dante, como a Igreja que representava, procurou não só ser o intérprete de Deus, mas também o seu promotor. Era um homem com o coração de um poeta universal e com o espírito de um padre medieval.
Demorei-me um pouco mais discorrendo sobre este pensamento, porque é de grande importância compreender o espírito de Dante se quisermos compreender o espírito da Idade Média, pela simples razão de que Dante é o próprio espírito dessa época.

Nasceu em 1265, trinta e nove anos depois da morte de São Francisco, e trinta e quatro depois da adoção oficial da Inquisição como um argumento convincente na pregação do evangelho. Seu pai era um próspero advogado na cidade de Florença. Quando criança, aprendeu três coisas acima de todas as outras: adorar a Deus, ser leal à sua cidade e lutar pela sua Igreja. Ensinaram-lhe que havia neste mundo duas espécies de indivíduos: os cristãos, a quem Deus amava, e os não-cristãos, a quem Ele odiava, aprendendo porém a amá-los se eles fossem induzidos ou forçados a se tornarem cristãos. Para aqueles que amava, Deus tinha seu Paraíso. Para os que odiava, Deus tinha o Inferno. E, entre estes dois, levantava-se a montanha do Purgatório, como uma espécie de degrau entre Seu ódio e Seu amor. Para Dante, todas essas coisas não eram contos de fadas: eram reais. Céu, Inferno e Purgatório tinham uma localização definida num mapa fixo. Segundo os melhores conhecimentos de Dante, quando as pessoas morriam, iam infalivelmente para um destes três lugares. O Inferno para Dante era tão certo quanto o é a Austrália para aqueles que nunca estiveram lá, mas que leram a seu respeito nos compêndios de Geografia. A Bíblia, para Dante, era uma fonte infalível de Geografia.
Além da Bíblia, Dante foi educado na infalibilidade de Aristóteles. Os católicos da Idade Média tinham simpatizado com as obras de Aristóteles e de Platão. Sob alguns aspectos, de fato, o catolicismo medieval não foi mais do que o platonismo batizado. Os cristãos tinham que agradecer aos maometanos e judeus pelo seu conhecimento dos filósofos gregos, visto que os maometanos traduziram para o árabe os manuscritos gregos, e os judeus, do árabe para o latim, a única língua clássica compreendida pelos católicos romanos. Assim, Dante estudou Aristóteles, e muitas vezes interpretou-o erroneamente em terceira mão, isto é, em uma tradução feita de outra tradução.
Dante aprendeu de Aristóteles e de Platão que a alma descia do céu e que aspirava a voltar para lá “como a água caída das nuvens em forma de chuva, sobe novamente em forma de vapor”. Uma vez descida, a alma torna-se rude pelo seu contato com a dureza do corpo. A vida, portanto, é um campo de batalha entre os apetites do corpo e a felicidade da alma. Negar os sentidos do corpo é purificar as aspirações da alma. Em outras palavras, devemos almejar a felicidade do céu, renunciando aos prazeres da terra. Se vivemos muito agradavelmente cá embaixo, nossa alma tornar-se-á tão coberta de inutilidades, que terá de ser purificada nos fogos do Inferno, antes de poder voltar ao céu e à santa presença de Deus.
Assim a filosofia de Aristóteles e de Platão tornara-se sutilmente metamorfoseada na moral do cristianismo medieval. Esta doutrina do Céu e do Inferno, tendo a alma humana como prêmio pelo qual ambos disputavam eternamente, ficou profundamente gravada no espírito do jovem Dante. Recebeu bons ensinamentos de Teologia Católica e Filosofia grega. Quanto à ciência, aprendeu-a da Bíblia. Sabia muito pouco acerca do mundo que habitava, mas pensava saber muito acerca do mundo em que ia morrer. Como os outros católicos fervorosos de seu tempo, Dante se interessava muito mais por Dite, a capital do Inferno, e por Jerusalém Dourada, capital do Céu, do que por Florença, cidade onde vivia. Mesmo assim, tomou parte ativa na política de sua cidade.
No século XIII, Florença era um campo de batalha entre os Guelfos, partidários do Papa, e os Gibelinos, sectários do imperador. Dante começou sua carreira como Guelfo, pela simples razão de que seu pai já o fora também. Com a idade, porém, desgostou-se com a desonestidade e a pequenez de alguns Papas. Trocou de campo, unindo-se ao partido dos Gibelinos.
Dante deu largos passos em sua carreira política. Com 35 anos apenas foi eleito um dos principais magistrados de Florença. Dois anos depois, porém, seu partido foi derrotado. Nesses dias de paixões absurdas e cruzadas históricas, uma derrota política quase sempre significava não só desgraça, mas também exílio e morte. O ódio da Idade Média era perseverante. Dante foi expulso de Florença e sentenciado a ser “queimado vivo”, onde quer que fosse encontrado.
Tornou-se um homem sem pátria. “O mundo terrestre atira-o para fora de sua órbita”, e sua imaginação sombria começou a morar no mundo mais hospitaleiro da morte. Impossibilitado de se vingar de seus inimigos na Itália, consolou-se imaginando as torturas mais engenhosas para seus inimigos no Inferno. Todos esses indivíduos foram feitos para sofrer pelo prazer de Dante e para a glória de Deus. Dividiu o Inferno em vinte e quatro círculos, cada qual aparelhado com seus instrumentos de tortura apropriados para os tipos particulares dos pecadores. A visão do Inferno de Dante é tão cheia de vícios quanto magnífica. É a obra de uma imaginação sublime e amargurada. “Ele escreveu muitas vezes”, para citar Santayana, “com uma paixão não esclarecida pelo raciocínio.” Contudo, nunca nos devemos esquecer de que ele também escreveu como um cidadão da Idade Média, filho da Igreja Católica. Pôs nas câmaras de tortura do Inferno tanto os seus
inimigos pessoais como os inimigos da Igreja, e, por inimigos da Igreja, Dante classificava todos aqueles que não eram católicos. Nada exemplifica a intolerância da Igreja medieval tão claramente como o fato de Dante negar a quaisquer dos antigos pagãos a entrada no Céu. Seu único pecado consistia no fato de eles terem nascido cedo demais para serem batizados! O amor infinito a Deus, segundo Dante, não era suficientemente grande para incluir outros que não fossem católicos. Até Virgílio, o grande mestre que guiara Dante através dos complicados labirintos do Inferno, e o trouxera são e salvo às portas do Céu, teve de permanecer, ele também, no limbo do desejo eterno sem esperança, pois Virgílio também tinha nascido cedo demais para ser um cristão.
Essa intolerância e essa insensibilidade egoísta aos sofrimentos de todos aqueles que por acaso não conseguiram alcançar as doutrinas da Igreja estão mais adiante ilustradas em diversas passagens espantosas da Divina Comédia, das quais mencionarei somente duas. A primeira delas está no segundo canto do Inferno; Beatriz, que goza a eterna felicidade no Céu, diz a Virgílio (linha 91) que, devido à graça de Deus, as misérias dos pecadores do Inferno não a tocam. Isso estava de pleno acordo com o temperamento selvagem da Idade Média. Mesmo um dos mais piedosos dos escritores medievais, Santo Tomás de Aquino, chegou a ponto de dizer que Deus em sua bondade intensifica a felicidade dos santos do Céu, permitindo-lhes contemplar as torturas dos pecadores no Inferno. A outra passagem que mencionarei está no último canto do Purgatório. Virgílio está descrevendo o limbo do Inferno (linhas 28 a 34) a Sordello, uma das almas do Purgatório. “Lá embaixo”, diz-lhe Virgílio, “moro com as crianças inocentes arrancadas da vida pelas garras da morte, antes de terem sido eximidas do pecado humano.” Em outras palavras, de acordo com a doutrina de Dante, não somente os hereges, infiéis e pagãos, mas até as crianças indefesas deviam sofrer para sempre o Inferno, se tivessem a infelicidade de morrer antes de serem batizadas. O mundo em que Dante vivia era vicioso, estreito, estúpido, ignorante e vergonhosamente intolerante. Se compreendermos o espírito de Dante, também compreenderemos facilmente o espírito das Cruzadas e as inquisições da Idade Média. Era um espírito que se comprazia em criar beleza e destruir a vida humana. A Idade Média foi bela. É um fato que não pode nem necessita ser negado. Mas a beleza só não basta. Um terremoto é belo, como o é também uma avalancha, uma tempestade no oceano, uma erupção vulcânica, os raios dum relâmpago, um assassínio cuidadosamente planejado, ou uma batalha entre dois exércitos selvagens. Há uma grandiosidade no horror e uma beleza mesmo na morte. Mas é a grandiosidade e a beleza da desarmonia, da destruição, da loucura, de um mundo doentio dividido contra si próprio. Esta é a beleza do poema de Dante e do. século xiii em que ele viveu. Durante mil anos a Europa prosseguiu com ardor, sob a ilusão, louca de que Deus desejava que todos os seus filhos fossem cristãos ou amaldiçoados. Dante herdou essa ilusão e assim sucedeu com os membros da Inquisição: Dante exprimiu-a num poema e os inquisidores usavam o poema como uma fonte de informações para os seus próprios intentos destruidores. Dante assassinou os inimigos da Igreja apenas em sua imaginação, mas os inquisidores, homens práticos e não poetas, queimaram-nos realmente. De acordo com o cálculo de Voltaire, nada menos de dez milhões de hereges foram queimados vivos “por instigação da Igreja”.
O poema de Dante é a “Divina Comédia” de um dos supremos sonhadores do mundo. É a tragédia humana de um de seus mais lamentáveis consumadores de erros clamorosos.

Dante morreu em 1317, e com ele, assim dizem, terminou a Idade Média. Contudo, tais afirmações arbitrárias estão historicamente incorretas. Infelizmente para a paz e o progresso da espécie humana, muitos milhões de homens e de mulheres do mundo inteiro ainda vivem na intolerância e na disputa da Idade Média.

(Henry Thomas - "A HISTÓRIA DA RAÇA HUMANA")

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publicado às 07:42


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