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Existem diferentes versões sobre quem foi o verdadeiro fundador da chamada Santa Aliança, o serviço de espionagem do Vaticano. Mas terá sido o papa Pio V (1566-1572) quem, em 1566, organizou o primeiro serviço de espionagem papal no sentido de lutar contra o protestantismo representado por Isabel I de Inglaterra.
Protegido pelo poderoso cardeal Juan Pedro Caraffa (o futuro papa Paulo IV), Miguel Ghislieri foi chamado a Roma para assumir a direcção de uma missão especial. Ghislieri foi encarregado pelo papa de criar uma espécie de serviço de contra-espionagem, que se ocuparia, de forma piramidal, em obter informações de todos aqueles que pudessem violar os preceitos papais e os dogmas da Igreja e por isso pudessem ser julgados pela Inquisição.
O jovem presbítero era muito devotado às sociedades secretas e o Santo Ofício era para ele uma das ”sociedades secretas” com maior poder no seu tempo. O trabalho realizado pelos agentes de Ghislieri nas regiões de Como e de Bergamo chamaram a atenção dos poderosos de Roma. Em menos de um ano, quase mil e duzentas pessoas, desde agricultores a nobres, foram julgadas pelo tribunal da Inquisição e mais de duas centenas foram consideradas culpadas, depois de serem submetidas a terríveis torturas e executadas.
A tortura da corda consistia em atar as mãos do presumido herege atrás das costas e o preso era levantado através de uma outra corda presa no tecto. Com o corpo suspenso, era solto por breves momentos para que caísse com o seu próprio peso. O preso ficava a um metro do solo e com essa violenta sacudidela as extremidades deslocavam-se.
Uma outra das torturas mais utilizadas era a da água. Os carrascos estendiam a vítima num cepo de madeira em forma de canal e colocavam um abraço, lenço fino molhado na garganta, enquanto lhe tapavam o nariz para que não pudesse respirar. Um dos verdugos enfiava-lhe água pela boca e pelas narinas e assim o preso não tinha nenhuma possibilidade de respirar. Quando o médico da Inquisição mandava parar com esse tormento, muitos dos réus já estavam mortos.
Em 1551, Miguel Ghislieri, devido aos serviços prestados, foi promovido por Caraffa, que o nomeou geral da Inquisição em Roma, sob o pontificado de Júlio III (1550-1555). Com Ghislieri como geral, a Congregação do Santo Ofício dispôs de todas as condições para alcançar os objectivos a que se propunha. Em primeiro lugar, foi realizada uma reforma do chamado Conselho da Suprema, e o papa nomeou um grupo de cardeais para o controlarem. Os purpurados faziam ao mesmo tempo de juizes e de conselheiros do Pontífice no caso de levar a juízo pessoas relevantes da sociedade romana.
Foi Ghislieri quem, no início de 1552, estabeleceu as sete classes de delitos susceptíveis de serem julgados pelo tribunal do Santo Ofício: os hereges; os suspeitos de heresia; os que protegiam os hereges; os magos, bruxos e feiticeiros; os blasfemos; os que resistissem às autoridades ou agentes da Inquisição; e os que quebrassem, ofendessem ou violassem os selos ou símbolos do Santo Ofício.
A partir desse mesmo ano, Ghislieri criou em toda a cidade uma autêntica rede de espiões, que operavam desde os lupanares da cidade até às cozinhas dos palácios dos nobres de Roma. Todas as informações de qualquer natureza recolhidas pelos agentes da Inquisição eram entregues pessoalmente a Ghislieri por intermédio de dois sistemas: de viva voz e pelo chamado Informi Rosso (Relatório Vermelho). Este último consistia num pequeno pergaminho enrolado numa cinta vermelha com o escudo do Santo Ofício. Segundo as leis vigentes, o rompimento do selo era punido imediatamente com a morte. Os agentes de Ghislieri registavam nesses pergaminhos todas as informações com que acusavam, e muitas vezes sem nenhuma prova, qualquer cidadão de Roma de violar as normas da Igreja e que podiam ser apreciadas por um tribunal da Inquisição. O Informi Rosso era depositado num pequeno vaso de bronze colocado para esse efeito na sede romana do Santo Ofício.
Durante anos, o geral da Inquisição criou uma das maiores e mais eficazes redes de espiões e um dos melhores arquivos de dados pessoais dos cidadãos de toda a Roma. Ninguém se movimentava ou falava nas ruelas ou praças da cidade sem que Ghislieri o não soubesse. Ninguém se movimentava ou falava dentro do Vaticano sem que o geral da Inquisição o não conhecesse.
A 23 de Maio de 1555, e depois de um breve pontificado com menos de um mês do papa Marcelo II, o cardeal Juan Pedro Caraffa, sem a oposição do sector imperial nem do sector francês, foi eleito papa no conclave. O embaixador de Veneza, Giacomo Navagero, definia assim o novo papa de setenta e nove anos: ”Caraffa é um papa de um temperamento violento e fogoso. É demasiado impetuoso no tratamento dos assuntos da Igreja e por isso o velho Pontífice não tolera que ninguém o contradiga”.
Caraffa, já como papa Paulo IV, chegou a temer o grande poder de Ghislieri. Em Roma, a populaça chegou mesmo a definir o geral da Inquisição como ”o papa na sombra”, mas apesar de tudo o pontífice concedeu a Miguel Ghislieri a púrpura cardinalícia. A partir daí Ghislieri o inquisidor tornar-se-ia mais perigoso e mais poderoso. Muitos membros do Colégio Cardinalício não permitiriam que, a partir do posto ocupado na temível Inquisição, ele dirigisse os destinos da Igreja Católica.
Os agentes de Ghislieri vangloriavam-se muito e impunham o terror nas ruas de Roma. Os espiões do cardeal, conhecidos como os ”monges negros”, escolhiam uma vítima e esperavam que ela seguisse por uma rua isolada. Nesse momento, era assaltada e metida numa carruagem fechada hermeticamente e levada para uma sala da Inquisição. Um frade que foi testemunha disso relatou a chegada dos sequestrados ao palácio do Santo Ofício em Roma, assim publicada na obra de Leonardo Gallois, Historia General de la Inquisition, de 1869:
Deixava-se a vítima num piso inferior do primeiro pátio, ao lado da porta principal. A vítima começava ali a sua iniciação numa sala circular onde dez esqueletos pregados na parede lhe anunciavam que por vezes naquela hospedaria se cravava em vida os hóspedes para os deixar esperar a morte com calma. Depois de um aviso tão santo, encontrava numa galeria contígua mais dois esqueletos humanos, não colocados de pé e na atitude de receber as visitas, mas estendidos em forma de mosaico ou de estrado.
Na mesma galeria podia distinguir claramente à direita um forno manchado por várias nódoas de gordura e consagrado a substituir em segredo as fogueiras das praças públicas, caídas em desuso por causa da picardia do século corrompido. (...) Poucos calabouços propriamente ditos se encontram neste primeiro corpo de edifícios, mas em contrapartida no segundo piso à direita encontra-se a sala do Santo Tribunal protegida por duas portas. Uma delas coroada por um letreiro que indica stanza del primo padre compagno e a segunda coroada por um letreiro que indica stanza del secando padre compagno. Assim se chamavam os dois inquisidores encarregados da dupla missão de ajudar a Suprema a procurar descobrir os criminosos e converter definitivamente o réu.
Mas essa situação mudaria por completo para o cardeal Ghislieri quando na noite de 18 de Agosto de 1559 o papa Paulo IV faleceu de repente. Após ser conhecida a notícia da morte, espalhou-se a sedição nas ruas de Roma; a captura e prisão dos agentes de Ghislieri converteu-se numa das principais motivações das massas. Muitos dos que serviram fielmente a Santa Inquisição eram assassinados pela população e os seus cadáveres lançados nas cloacas. Os distúrbios não acabaram aí. O povo de Roma assaltou o palácio que albergava o Tribunal da Inquisição e foi derrubada a estátua do pontífice falecido.
O cardeal Ghislieri e alguns dos seus homens conseguiram pôr a salvo uma grande parte dos arquivos secretos, levados em oito carruagens na sua fuga de Roma. Por fim, a situação voltou à normalidade em 25 de Dezembro de 1559 quando o cardeal Giovanni Angelo Medíeis, que era inimigo do anterior papa, se converteu no novo pontífice com o nome de Pio IV.
O papa era um homem de carácter firme, hábil diplomata e estava disposto a limpar a Igreja Católica de todos os vestígios do pontífice anterior, Paulo IV. Para essa tarefa rodeou-se de dois fiéis cardeais e seus sobrinhos, Marcos Sittich de Altemps e Carlos Borromeo. O primeiro era um mestre com a espada e na arte da guerra. O segundo era um mestre da diplomacia.
Borromeo foi nomeado arcebispo de Milão, legado papal em Bolonha e Romagna, responsável do governo dos Estados Pontifícios e finalmente secretário pessoal do papa. Como primeira medida, ordenou a detenção e reclusão no castelo de Sant’Angelo dos cardeais Carlo e Alfonso Caraffa, bem como de Juan Caraffa, duque de Paliano, e outros cavaleiros do séquito ducal acusados do assassínio da esposa daquele.
Como segunda medida, o papa Pio IV, aconselhado por Carlos Borromeo, decidiu reabilitar o cardeal Morone e o bispo Fiescherati que antes tinham sido acusados de heresia pelo Santo Ofício por ordem de Paulo IV. Como terceira medida, o papa ordenou o ”desterro” do cardeal Miguel Ghislieri, então geral da Inquisição, e a dissolução dos ”monges negros”. O cardeal, que se refugiou num mosteiro isolado, retomou o seu trabalho pastoral no antigo bispado, o que o fez ser visto com bons olhos quando o conclave voltou a reunir-se após o falecimento do papa Pio IV a 9 de Dezembro de 1565. Curiosamente, e depois de três semanas de conclave, o cardeal Carlos Borromeo, homem de confiança do papa falecido, decidiu defender a candidatura do cardeal Ghislieri, que contava com o apoio do rei Filipe II e desde há alguns anos recebia da Coroa de Espanha uma subvenção de 800 ducados.
A 7 de Janeiro de 1566, o cardeal Ghislieri era eleito papa e adoptou o nome de Pio V. O então embaixador de Espanha disse: ”Pio V é o papa que os tempos exigem”. Filipe II também aprovava a chegada de um aliado ao trono de São Pedro. A sua nomeação supunha a vitória de todos os que desejavam um pontífice austero e piedoso, mas por sua vez capaz de lutar e actuar com grande energia contra a Reforma protestante. O que era certo é que o papa Pio V utilizaria a sua ampla experiência à frente da Inquisição para criar um verdadeiro serviço de espionagem, implacável e de cega obediência às ordens supremas do pontífice.
A primeira função dos agentes da Santa Aliança, nome dado pelo próprio papa ao seu serviço secreto em honra da aliança entre o Vaticano e a rainha católica Maria Stuart, era sobretudo a de obter informações dos possíveis movimentos políticos e das intrigas dirigidas a partir da corte de Londres. As informações que obtinham eram enviadas àqueles poderosos monarcas que apoiavam o catolicismo e o poder pontifício em face do cada vez mais alargado protestantismo. O principal objectivo dos espiões do papa era prestar os seus serviços à rainha Maria Stuart com o intuito de procurar restaurar o catolicismo na Escócia, que se tinha declarado presbiteriana no ano de 1560, e lutar contra o protestantismo. O papa Pio V entendia que o seu principal inimigo era a Igreja cismática de Inglaterra, representada pela rainha Isabel, filha de Henrique VIII e de Ana Bolena.
O rei Henrique VIII havia rompido com a Igreja Católica em 1532, quando pediu a Clemente VII (19-XI-1523 / 25-IX-1534) autorização para se divorciar da rainha Catarina de Aragão, que era filha dos reis católicos e tia do imperador Carlos I de Espanha e V da Alemanha, para se poder casar com a sua amante Ana Bolena. O pontífice estudou a carta enviada pelo rei de Inglaterra, um velho pergaminho de sessenta por noventa centímetros e com a assinatura, como aval, de setenta e cinco altas personalidades do reino. Desse documento pendiam setenta e cinco cintas de seda vermelha com setenta e cinco selos de lacre.
No texto, Henrique VIII exprimia o desejo de contrair casamento com a sua amante e pedia a autorização papal para se divorciar da sua esposa, a rainha Catarina de Aragão. Essa petição foi negada pelo papa Clemente VII, o que provocou a ira e o afastamento de Henrique VIII da Igreja Católica. Mas o monarca de Inglaterra decidiu contrair matrimónio com Ana Bolena e anulou assim o seu casamento com Catarina, apesar da recusa de Roma.
O cisma definitivo aconteceu a 15 de Janeiro de 1535, sob o pontificado de Paulo III, quando, para dar uma base jurídica à sua nova supremacia eclesiástica, Henrique VIII convocara os sábios de todas as universidades do reino e o clero para que declarassem publicamente que o papa romano não tinha nenhum direito divino ou autoridade alguma sobre a Inglaterra. As bases reais da nova Igreja eram as de uma Igreja Católica anglicana, sob a autoridade da Coroa.
Os cinco anos de reinado de Maria Tudor até à sua morte, ocorrida a 17 de Novembro de 1558, foram muito intensos. Guerras, execuções, rebeliões internas, golpes de Estado e conflitos religiosos espalharam-se pelo reino. Na própria noite da morte da rainha Maria, a sua irmã Isabel, filha de Henrique VIII e Ana Bolena, foi proclamada rainha de Inglaterra.
Grande parte da população recebeu com júbilo a chegada da nova rainha, em parte pela má recordação deixada por Maria Tudor, a quem popularmente baptizaram como Maria, a Sanguinária (Bloody Mary). Desde a sua chegada ao trono, Maria tinha-se mostrado decidida, com o apoio de Paulo IV e a resistência do embaixador de Espanha, a implantar a sangue e fogo o catolicismo, mas para isso devia antes cortar as cabeças dos que haviam defendido a Reforma.
Muitos dos bispos protestantes, que Maria Tudor definia como ”maus pastores que conduziram as suas ovelhas à perdição”, seriam os primeiros a ser queimados na fogueira por crime de heresia. O ex-bispo de Londres, Ridley, o mesmo que pouco tempo antes tinha proclamado Jane Grey como rainha de Inglaterra e considerado Maria Tudor como bastarda, foi queimado vivo a 16 de Outubro de 1555 numa praça da cidade de Oxford. Na fogueira também o acompanharia o ex-bispo de Worcester, Latimer. Uma outra execução ordenada pela rainha, e que causaria viva surpresa mesmo em Roma e no Parlamento da Inglaterra, seria o suplício, a 21 de Março de 1556, de Thomas Cranmer, ex-bispo de Canterbury, e que no passado declarara a anulação do casamento do rei Henrique VIII com Catarina de Aragão e consumara a ruptura definitiva com o poder papal de Roma.
A 15 de Janeiro de 1559, Isabel I foi coroada como rainha de Inglaterra e a 8 de Maio inaugurava a sessão do Parlamento, onde pedia a aprovação das leis que permitiam o restabelecimento do protestantismo em todo o reino e nos seus domínios. Roma e a Igreja Católica, dirigida por um ancião de oitenta e três anos, o papa Paulo IV, já não tinham força para fazer pressão face à mudança religiosa que novamente se avizinhava na Inglaterra.

(Eric Frattini -  "A santa aliança, cinco séculos de espionagem do Vaticano)

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publicado às 07:41



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