Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



 

No sacrifício cristão, a responsabilidade do sacrifício não se encontra na vontade do fiel. O fiel não contribui para o sacrifício da cruz a não ser na medida de suas faltas, de seus pecados. Por esse motivo, a unidade da esfera sagrada é quebrada. No estágio pagão da religião, a transgressão fundava o sagrado, cujos aspectos impuros não eram menos sagrados que os aspectos contrários. O conjunto da esfera sagrada se compunha do puro e do impuro. O cristianismo rejeitou a impureza. Rejeitou a culpabilidade, sem a qual o sagrado não é concebível, posto que só a violação do interdito abre o acesso para ele.
O sagrado puro, ou fasto, dominou desde a antiguidade pagã. Mas, mesmo que se reduzisse ao prelúdio de uma superação, o sagrado impuro, ou nefasto, era o seu fundamento. O cristianismo não podia até o fim rejeitar a impureza, não podia rejeitar a mácula. Mas ele definiu, à sua maneira, os limites do mundo sagrado: nessa definição nova, a impureza, a mácula, a culpabilidade eram colocadas fora desses limites. O sagrado impuro foi desde então relegado ao mundo profano. Nada pôde subsistir, no mundo sagrado do cristianismo, que mostrasse claramente o caráter fundamental do pecado, da transgressão. O diabo — o anjo ou o deus da transgressão (da insubmissão e da revolta)  — era expulso do mundo divino. Ele era de origem divina, mas na ordem das coisas cristãs (que prolongava a mitologia judaica) a transgressão não era mais o fundamento de sua divindade, e sim o de sua queda. O diabo estava destituído do privilégio divino, que não tinha possuído senão para perdê-lo. A bem dizer, ele se tornara profano: guardava um caráter sobrenatural do mundo sagrado, de onde tinha saído. Mas não havia nada que não se fizesse para privá-lo das conseqüências de sua qualidade religiosa. O culto que sem dúvida não se deixou jamais de se lhe consagrar, sobrevivência daquele das divindades impuras, foi suprimido do mundo. A morte nas chamas era prometida a quem recusasse obedecer e tirasse do pecado o poder e o sentimento do sagrado. Nada podia fazer com que Satã deixasse de ser divino, mas essa verdade durável era negada com o rigor dos suplícios. Num culto que, sem dúvida, tinha conservado algumas características da religião, não se viu mais que a irrisão criminosa da religião, uma profanação, na mesma medida em que ele parecia sagrado.
O princípio da profanação é o uso profano do sagrado. A mácula podia, no seio do paganismo, resultar de um contato impuro. Mas é somente no cristianismo que a existência do mundo impuro tornou-se em si mesma uma profanação. Havia profanação no fato de que a mácula existia, mesmo que as coisas puras não estivessem maculadas. A oposição original entre o mundo profano e o sagrado passou, no cristianismo, para segundo plano.
Um lado do profano associou-se ao hemisfério puro, um outro ao hemisfério impuro do sagrado. O mal que há no mundo profano encontrou a parte diabólica do sagrado, e o bem encontrou a parte divina. O bem, qualquer que fosse o sentido de obra prática, captou a luz da santidade. A palavra santidade, primitivamente, designava o sagrado, mas esse caráter se ligou à vida consagrada ao bem, consagrada ao mesmo tempo ao bem e a Deus.
A profanação retomou o sentido original de contato profano que tinha no paganismo. Mas ela teve um outro alcance. Essencialmente, a profanação, no paganismo, era uma infelicidade, deplorada de todos os pontos de vista. Só a transgressão possuía, a despeito de seu caráter perigoso, o poder de abrir uma porta para o mundo sagrado. A profanação, no cristianismo, não foi nem a transgressão inicial, de que ela era vizinha, nem a profanação antiga. Ela estava sobretudo próxima da transgressão. De uma maneira paradoxal, a profanação cristã, sendo contato com o impuro, atingia o sagrado essencial, atingia o domínio interdito. Mas este sagrado em profundidade era para a Igreja ao mesmo tempo o profano e o diabólico. Apesar de tudo, formalmente, a atitude da Igreja tinha uma lógica. Limites precisos, formais, que se tornaram tradicionais, separavam o que ela própria considerava sagrado do mundo profano. O erótico, ou o impuro, ou o diabólico, não eram separados da mesma maneira do mundo profano: faltava-lhes um caráter formal, um limite fácil para a sua apreensão.
No campo da transgressão primeira, o impuro era ele próprio bem definido, com formas estáveis, mostrado através de ritos tradicionais. O que o paganismo considerava como tal, era ao mesmo tempo, formalmente, tido como sagrado. O que o paganismo condenado, ou o cristianismo, considerou impuro não foi mais, ou não se tornou, o objeto de uma atitude formal. O formalismo dos sabás, se houve, nunca teve a estabilidade definida que o teria criado. Expulso do formalismo sagrado, o impuro estava condenado a se tornar profano.
A mistura do sagrado impuro e do profano pareceu, por muito tempo, diferente do sentimento que a memória tinha conservado da natureza íntima do sagrado, mas a estrutura religiosa invertida do cristianismo exigia isto. Ela é perfeita na medida em que o sentimento do sagrado não deixa de se atenuar no interior de um formalismo que parece em parte antiquado. Um dos signos desse declínio é a pouca atenção dada em nossos dias à existência do diabo. Crê-se nele cada vez menos, eu ia dizer que não se crê mais: isto quer dizer que o sagrado negro, mais do que nunca sendo mal definido, não tem com ocorrer do tempo mais nenhum sentido. O domínio do sagrado reduz-se ao do Deus do Bem, cujo limite é a luz: não há nada mais nesse domínio que seja maldito.
Essa evolução teve repercussões no domínio da ciência (interessada no sagrado do ponto de vista profano da ciência; mas é preciso que eu diga de passagem que, pessoalmente, minha atitude não é a da ciência: sem entrar num formalismo, meu livro tem por objetivo o sagrado de um ponto de vista sagrado). A harmonia do bem e do sagrado aparece num trabalho, notável, diga-se de passagem, de um discípulo de Durkheim. Robert Hertz insiste com razão na diferença humanamente significativa dos "lados" direito e esquerdo.4 Uma crença geral associa o fasto ao lado direito, o nefasto ao esquerdo e, em conseqüência disso, o direito é associado ao puro, o esquerdo ao impuro. Apesar da morte prematura5 de seu autor, seu estudo ficou célebre: ele precedeu outros trabalhos numa questão que, até então, tinha sido raramente colocada. Hertz identificava o puro e o sagrado, o impuro e o profano. Seu trabalho era posterior ao que Henri Hubert e Marcel Mauss tinham dedicado à magia, onde já se ressaltava claramente a complexidade do domínio religioso, mas só bem mais tarde foi que se reconheceu a crescente coerência da "ambigüidade do sagrado".

(George Bataille - "O Erotismo")

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:01



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D