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É preciso, antes de tudo, evitar uma interpretação moderna da orgia: ela suporia a remissão do pudor, ou o pouco de pudor dos que a ela se entregavam. Esta maneira de ver é superficial, implica uma animalidade relativa dos homens de civilização arcaica. Em certos aspectos, com efeito, esses homens parecem freqüentemente mais próximos que nós do animal e é provado que alguns deles partilharam este sentimento. Mas nossos julgamentos estão ligados à idéia de que os modos de vida que nos são próprios mostram melhor a diferença entre o homem e o animal. Homens arcaicos não se opõem à animalidade da mesma maneira, mas, mesmo se eles vêem, nos animais irmãos, as reações que neles fundam a humanidade estão longe de ser menos religiosas que as nossas. Os animais que eles caçam viviam, é verdade, em condições materiais bastante próximas das deles, e, no entanto, eles atribuíam, por equívoco, sentimentos humanos aos animais. Em todo caso, o pudor primitivo (ou arcaico) nem sempre é menor que o nosso. Ele é muito diferente: é mais formalista, não entrou da mesma maneira num automatismo inconsciente; não deixa de ser menos forte, procedendo de crenças que se mantêm vivas graças a uma certa angústia. É por isso que, quando falamos da orgia, examinando-a de uma forma bem geral, não temos razão para ver nelas uma prática de relaxamento, mas, bem ao contrário, um momento de intensidade, de desordem, sem dúvida, mas ao mesmo tempo de fervor religioso. No mundo pelo avesso da festa, a orgia é o momento em que a verdade do avesso revela sua força subversiva. Essa verdade tem o sentido de uma fusão ilimitada. É a violência báquica que é a medida do erotismo nascente, cujo campo original é a religião.
Mas a verdade da orgia chegou-nos através do mundo cristão, onde os valores foram uma vez mais invertidos. Foi dos interditos que nasceu o sentimento de transgressão da religiosidade primitiva. Em sua essência, a religiosidade cristã opôs-se ao espírito de transgressão. A tendência a partir da qual um desenvolvimento religioso foi possível nos limites do cristianismo está ligada a essa oposição relativa.
É essencial determinar o papel dessa oposição. Se o cristianismo tivesse ignorado o movimento fundamental de onde partia o sentimento da transgressão, ele não teria, penso eu, mais nada de religioso. Ao contrário, no cristianismo, o espírito religioso reteve o essencial, percebendo-o inicialmente na continuidade. A continuidade nos é dada na experiência do sagrado. O divino é a essência da continuidade. A solução cristã, na força de seu movimento, deu toda atenção à continuidade, a ponto de negligenciar as vias que a ela conduziam, e que uma tradição minuciosa tinha estabelecido, descuidando-se de chamar a atenção para a sua origem. A nostalgia (o desejo) que abriu essas vias conseguiu, em parte, se perder nos detalhes — e nos cálculos em que freqüentemente a piedade tradicional se comprazia.
Mas houve no cristianismo um duplo movimento. Ele quis, em seu fundamento, abrir-se às possibilidades de um amor que não contava mais com nada. A continuidade perdida, reencontrada em Deus, reclamava, segundo ele, para além das violências pautadas por delírios rituais, o desvairado amor incalculável do fiel. Os homens, que a continuidade divina transfigurava, eram criados, em Deus, no amor de uns pelos outros. O cristianismo nunca abandonou a esperança de reduzir, no final, este mundo da descontinuidade egoísta no reino da continuidade inflamado pelo amor. O movimento inicial da transgressão foi assim desviado, no cristianismo, para a visão de uma superação da violência; transformada em seu contrário.
Houve alguma coisa de sublime e de fascinante nesse sonho.
Ele teve, entretanto, uma contrapartida: o amoldamento do mundo da descontinuidade, que subsistia, do mundo sagrado, do mundo da continuidade. O mundo divino teve de mergulhar num mundo de coisas. Este aspecto múltiplo é paradoxal. A vontade resoluta de confiar tudo à continuidade teve seu efeito, mas este primeiro efeito teve de compor com um efeito simultâneo no outro sentido. O Deus cristão é a mais bem acabada construção feita a partir do sentimento mais nocivo, o da continuidade. A continuidade é dada na superação dos limites. Mas organizar o que por essência é desordem é o efeito mais constante do movimento a que dei o nome de transgressão. Pelo fato de introduzir a superação num mundo organizado, a transgressão é o princípio de uma desordem organizada. Ela deve seu caráter ordenado à organização a que tinham chegado os seus praticantes. Essa organização, fundada no trabalho, é ao mesmo tempo fundada na descontinuidade do ser. O mundo organizado do trabalho e o mundo da descontinuidade são um só e mesmo mundo. Os instrumentos e os produtos do trabalho são coisas descontinuas. Aquele que se serve do instrumento e fabrica os objetos é também um ser descontínuo, e a consciência de sua descontinuidade se aprofunda no emprego ou na criação de objetos descontínuos. É em relação ao mundo descontínuo do trabalho que a morte se revela: para os seres cujo trabalho revelou a descontinuidade, a morte é o desastre elementar que põe em evidência a inanidade do ser descontínuo.
Diante da precária descontinuidade do ser pessoal, o espírito humano reage de duas maneiras que se unem no cristianismo. A primeira responde ao desejo de reencontrar essa descontinuidade que nos dá o irredutível sentimento de que ela é a essência do ser. Num segundo movimento, a humanidade tende a escapar ao limite da descontinuidade pessoal, que é a morte, imaginando então uma descontinuidade que a morte não atinge, a imortalidade de seres descontínuos.
Seu primeiro movimento confiava tudo à continuidade, mas num segundo movimento o cristianismo teve o poder de retomar o que sua generosidade desmedida tinha dado. Assim como a transgressão organizava a continuidade nascida da violência, o cristianismo fez entrar essa continuidade, a que ele se arrogava todo o direito, no quadro da descontinuidade. Ele não fez, é verdade, senão ir até o fim de uma tendência já forte.
Mas realizou o que antes dele só estava esboçado. Reduziu o sagrado, o divino, à pessoa descontinua de um Deus criador. Bem mais, ele fez, geralmente, do além desse mundo real o prolongamento de todas as almas descontinuas. Povoou o céu e o inferno de multidões condenadas junto com Deus à descontinuidade eterna de cada ser isolado. Eleitos e danados, anjos e demônios, tornaram-se os fragmentos imperecíveis, divididos para sempre, arbitrariamente distintos um dos outros, arbitrariamente desligados dessa totalidade do ser a que é preciso, entretanto, restituí-los.
A multidão dos criadores de acaso e o Criador individual negavam sua solidão no amor recíproco de Deus e dos eleitos — ou a afirmavam no ódio dos danados. Mas o amor mesmo reservava o isolamento definitivo. O que nessa totalidade atomizada se perdia era o caminho que leva do isolamento à fusão, do descontínuo ao contínuo, a via da violência que a transgressão tinha traçado. Uma busca de acordo, de conciliação, no amor e na submissão, substituía o momento de separação, de queda, mesmo enquanto durasse a lembrança da crueldade primeira.

(George Bataille - "O Erotismo")

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publicado às 19:17



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