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Do sacrifício religioso ao erotismo

por Thynus, em 09.05.13

 

 

O cristianismo é o desconhecimento da santidade da transgressão

Falei na Introdução da relação que os antigos faziam entre o ato de amor e o sacrifício. Os antigos tinham mais que nós o sentimento imediato do sacrifício. Estamos muito longe de sua prática. O sacrifício da missa é uma reminiscência disso, mas só raramente pode atingir a sensibilidade de uma maneira bem viva. Qualquer que seja a obsessão da imagem do Crucificado, a imagem do sacrifício sangrento e a missa não
coincidem facilmente.
A principal dificuldade está na aversão que o cristianismo tem geralmente à transgressão da lei. É verdade que o Evangelho encoraja a suspensão de interditos formais, praticados ao pé da letra, enquanto o sentido lhe escapa. Trata-se, nesse caso, de transgredir uma lei que, apesar de se ter consciência de seu valor, nega-o assim mesmo. O essencial é que, na idéia do sacrifício da Cruz, o caráter de transgressão é deformado. Esse sacrifício é bem um assassínio, ele é sangrento. É uma transgressão na medida em que essa imolação é bem um pecado: e, de todos os pecados, o mais grave. Mas na transgressão de que falei, se há pecado, se há expiação, o pecado e a expiação são a conseqüência de um ato consciente que não deixou mesmo de estar de acordo com a intenção. Esse acordo da vontade é o que torna em nossos dias a atitude arcaica incompreensível: é o escândalo do pensamento. Não podemos conceber sem mal-estar a transgressão consciente de uma lei que parece santa. Mas o pecado da crucificação é desagravado pelo sacerdote que celebra o sacrifício da missa. A falta está na cegueira de seus autores que nos levam a pensar que não a teriam cometido se tivessem sabido. Felix culpa! canta, é verdade, a Igreja: a bem-aventurada culpa! Existe, pois, um ponto de vista que revela a necessidade de se cometer tal erro. A ressonância da liturgia concorda com o pensamento profundo que animava a humanidade primeva. Mas ela atinge a lógica do sentimento cristão. O desconhecimento da santidade da transgressão é para o cristianismo um fundamento. Mesmo se, no grau supremo, os religiosos chegam aos paradoxos revoltantes que libertam, que excedem os limites.

A comparação antiga do sacrifício e a conjunção erótica

Esse desconhecimento da transgressão, de qualquer forma, sempre privou de sentido a analogia dos antigos. Se a transgressão não é fundamental, o sacrifício e o ato de amor não têm nada em comum. O sacrifício, se é uma transgressão consciente, é a ação deliberada cujo fim é a súbita transformação do ser que é a sua vítima. Esse ser é imolado. Antes de ser sacrificado, ele estava fechado na particularidade individual. Como disse na Introdução, sua existência é então descontínua. Mas esse ser, na morte, é reconduzido à continuidade do ser, à ausência de particularidade. Essa ação violenta — que priva a vítima de seu caráter limitado e lhe dá o ilimitado e o infinito que pertencem à esfera sagrada — é desejada em sua conseqüência maior. Ela é desejada como a ação daquele que desnuda a vítima que deseja e quer penetrar. O amante não desintegra menos a mulher amada que o sacrificador ao sangrar o homem ou o animal imolado. A mulher nas mãos daquele que a ataca é despossuida de seu ser. Ela perde, com seu pudor, esta firme barreira que separando-a do outro, tornava-a impenetrável: ela se abre bruscamente à violência do jogo sexual deflagrado nos órgãos da reprodução, à violência impessoal que, vinda de fora, a ultrapassa.
Não se pode dizer que os antigos tinham possibilidade de fazer detalhadamente uma análise que só uma imensa familiaridade com a dialética tornou possível. Seria preciso saber conjugar uma infinidade de temas para poder apreender com precisão as semelhanças de duas experiências profundas. Os aspectos mais profundos não apareciam e o todo escapava à consciência. Mas a experiência interior da piedade no sacrifício e o despertar do erotismo podiam, por sorte, ser dadas à mesma pessoa. Nesse caso, era possível chegar a descobrir uma certa semelhança, quando não uma aproximação precisa. Essa possibilidade desapareceu no cristianismo, onde a piedade se distanciou de uma vontade de chegar ao secreto do ser pela violência.

A carne no sacrifício e no amor

O que revelava a violência exterior do sacrifício era a violência interior do ser percebida à luz da efusão do sangue e da eclosão dos órgãos. O sangue, os órgãos cheios de vida não eram o que neles vê a anatomia: só uma experiência interior, não a ciência, poderia restituir o sentimento dos antigos. Podemos presumir que então aparecia a pletora dos órgãos cheios de sangue, a pletora impessoal da vida. Na morte do animal, seu ser individual, descontínuo, era sucedido pela continuidade orgânica da vida, que a refeição sagrada vincula à vida comunial da assistência. Um odor de bestialidade subsistia nessa deglutição ligada a uma explosão da vida carnal, e ao silêncio da morte. Não comemos mais que carnes preparadas, inanimadas, distantes do fervilhar orgânico original. O sacrifício ligava o fato de comer à verdade da vida revelada na morte.
É geralmente próprio do sacrifício harmonizar a vida e a morte, dar à morte o jorro da vida, à vida o peso, a vertigem e a abertura da morte. É a vida misturada à morte, mas, no sacrifício, a morte é ao mesmo tempo signo de vida, abertura ao ilimitado. Hoje o sacrifício sai do campo de nossa experiência: devemos substituir a prática pela imaginação. Mas se o próprio sacrifício e sua significação religiosa nos escapam, não podemos ignorar a reação ligada aos elementos do espetáculo que ele oferecia: a náusea. Devemos imaginar no sacrifício uma superação da náusea. Mas, sem a transfiguração sagrada, seus aspectos tomados separadamente podem, em última instância, provocar a náusea. A matança ou o esquartejamento do animal causam hoje, muito comumente, repugnância aos homens: nada deve lembrá-los nos pratos servidos à mesa. Assim é possível dizer da experiência contemporânea que ela inverte os comportamentos da piedade no sacrifício.
Essa inversão terá sentido se examinarmos agora a semelhança entre o ato de amor e do sacrifício. O que o ato de amor e o sacrifício revelam é a carne. O sacrifício substitui pela convulsão cega dos órgãos a vida ordenada do animal. O mesmo acontece com a convulsão erótica: ela libera órgãos pletóricos num jogo cego que suplanta a vontade ponderada dos amantes. A essa vontade ponderada sucedem os movimentos animais desses órgãos cheios de sangue. Uma violência que escapa ao controle da razão anima esses órgãos, distende-os até o limite máximo e, de repente, é a felicidade que se atinge ao ultrapassar essa desordem. O movimento da carne excede um limite na ausência da vontade. A carne é em nós esse excesso que se opõe à lei da decência. A carne é o inimigo que nasce dos que são possuídos pelo interdito cristão. Mas se, como eu creio, existe um interdito vago e global que se opõe à liberdade sexual sob formas dependentes dos tempos e lugares, a carne é a expressão de uma volta dessa liberdade ameaçadora.

A carne, a decência e o interdito da liberdade sexual

Falando inicialmente desse interdito global, esquivei-me ao não poder — ou não querer — defini-lo. A bem dizer, ele não é definível, de modo que nunca é fácil falar dele. A decência é aleatória e varia constantemente. Varia mesmo individualmente. De forma que naquela altura eu falei de interditos concretos, o do incesto ou do sangue menstrual, deixando para falar depois de uma maldição mais geral da sexualidade. Só mais adiante tratarei disto: abordarei as transgressões desse interdito vago antes mesmo de procurar defini-lo.
Gostaria inicialmente de voltar ao que disse mais acima.
Se há interdito, é, a meu ver, de alguma violência elementar. Essa violência é dada na carne: na carne que expõe o jogo dos órgãos reprodutores.
Tentarei chegar através da objetividade do jogo dos órgãos à expressão interior fundamental onde se dá a transcendência da carne.
Eu queria esclarecer, em sua origem, a experiência interior da pletora que, como eu disse, era revelada no animal morto na hora da imolação. Na base do erotismo, temos a experiência de uma eclosão, de uma violência que ocorre no momento da explosão.

(George Bataille - "O Erotismo")

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publicado às 23:34



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