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O erotismo, o Mal e a queda social

por Thynus, em 08.05.13
O fundamento social da baixa prostituição é o mesmo que o da moral e do cristianismo. Aparentemente, a desigualdade das classes e da miséria, que provocaram no Egito uma primeira revolução, acarretaram pelo século VI a.C., nas regiões civilizadas, um mal-estar a que é possível associar, entre outros movimentos, o profetismo judaico. Se encaramos as coisas do ponto de vista da prostituição degradada, cuja origem pode-se remontar aos tempos greco-romanos, a coincidência é paradoxal. A classe decaída não partilhou absolutamente uma tendência que aspirava à elevação dos humildes, à deposição dos poderoso: essa classe, no pé da escala, não aspirava a nada. Mesmo a moral não elevou os humildes senão para rebaixá-los mais. A maldição da Igreja it tu com mais peso sobre a humanidade rebaixada.

O aspecto sagrado do erotismo era muito importante para a Igreja, que viu nele a razão maior para sua repressão, queimando as bruxas e deixando vivas as baixas prostitutas. Mas afirmou a degradação da prostituição, servindo-se dela para acentuar o caráter do pecado.

A situação presente é o resultado da dupla atitude da Igreja, cujo corolário é a atitude dos espíritos. À identificação do sagrado e do Bem e à rejeição do erotismo sagrado respondeu a negação racionalista do Mal. Seguiu-se um mundo em que a transgressão condenada não teve mais sentido, onde a profanação não teve mais que uma fraca virtude. Restava o desvio do rebaixamento. A queda era para as suas vítimas um impasse, mas o aspecto decaído do erotismo teve um poder de incitação que o aspecto diabólico havia perdido. Ninguém acreditava mais no diabo, e mesmo a condenação do erotismo como tal não tinha mais força. A queda, pelo menos, não podia deixar de ter a significação do Mal. Não se tratava mais de um Mal denunciado por outros, cuja condenação permanecia duvidosa. Na origem da queda das prostitutas acha-se o acordo com sua condição miserável. Este acordo é talvez involuntário, mas ele é, na circunstância da linguagem de baixo calão, parti pris de recusa: a linguagem de baixo calão tem o sentido de uma recusa da dignidade humana. A vida humana sendo o Bem, há, na queda assumida, decisão de cuspir no Bem, de cuspir na vida humana.

Particularmente, os órgãos e os atos sexuais têm nomes que fazem sobressair a baixeza, cuja origem é a linguagem especial do mundo da queda. Esses órgãos e esses atos têm outros nomes, mas uns são científicos, e os outros, de uso mais raro, pouco durável, fazem parte da linguagem infantil e do pudor dos amantes. Os nomes sujos do amor não deixam de ser menos associados, de uma forma estreita e irremediável para nós, a essa vida secreta que levamos ao lado dos sentimentos mais elevados. É, em suma, através desses termos inomináveis que o horror geral se formula em nós, que sabemos não pertencer ao mundo degradado. Esses termos exprimem esse horror com violência. São eles mesmos violentamente rejeitados do mundo honesto. De um mundo ao outro, não há discussão concebível.

O mundo degradado não pode se servir do que ele próprio cria. A linguagem suja exprime o ódio. Mas dá aos amantes no mundo honesto um sentimento próximo àquele que antigamente deram a transgressão e, depois, a profanação. A mulher honesta dizendo ao homem que a abraça: "Gosto de tua..." poderia dizer depois de Baudelaire: "A volúpia única e suprema do amor está na certeza de se fazer o Mal". Mas ela já sabe do erotismo que ele não é o Mal em si mesmo. O Mal, ele não existe senão na medida em que leva à abjeção da escória humana ou da baixa prostituição. Essa mulher é estranha a esse mundo, odeia sua abjeção moral. Ela admite do órgão designado que ele não é em si mesmo abjeto. Mas toma emprestado daqueles que se mantêm hediondamente do lado do Mal a palavra que lhe revela enfim a verdade: que o órgão que ela ama é maldito, que é conhecido na medida em que o horror que ele inspira se lhe torna sensível, no momento mesmo em que ela ultrapassa esse horror. Ela se quer ao lado dos espíritos fortes, mas, antes de perder o sentido do interdito primeiro, sem o qual não há erotismo, ela recorre à violência dos que negam todo interdito, toda vergonha, e não podem manter essa negação a não ser na violência.

(George Bataille - "O Erotismo")

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publicado às 23:07


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