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Uma crença é um ato de fé que não exige provas e, aliás, não é, as mais das vezes, verificável por nenhuma. Se a fé se impusesse somente por argumentos racionais, poucas crenças se teriam podido formar no decurso dos séculos.
Os argumentos invocados pelos crentes se afiguram, muitas vezes, infantis para a razão. Esta não tem, entretanto, a faculdade de julgá-los, porquanto eles derivam de elementos místicos ou afetivos que escapam à sua ação. A sugestão e o contágio mental pelos quais se propagam as crenças, são independentes da razão.
Não entrando na gênese das crenças nenhum elemento racional, é infinita a credulidade do crente. Ele não imagina admitir as causas sem provas, porquanto sempre, ao contrário, as invoca; é pela natureza das provas com as quais ele se contenta, que a sua credulidade se revela profunda.
A leitura das obras relativas aos meios de descobrir os feiticeiros, descritos por doutos magistrados outrora qualificados de eminentes, é, nesse ponto de vista, extremamente instrutiva.
Os documentos dessa natureza, tanto quanto os livros dos teólogos, mostram o abismo que separa a prova exigida pelo sábio da que satisfaz o espírito encerrado no ciclo da crença.
É inútil dar aqui exemplos. Todos seriam análogos aos que foram revelados no processo que se intentou contra o escritor italiano d'Albano. Provouse claramente que havia aprendido "as sete artes liberais" com o auxílio de sete demônios, por se ter descoberto em sua casa uma garrafa que continha sete drogas diferentes, cada uma das quais representava um demônio. A despeito dos seus oitenta anos, ia ser queimado vivo, quando, protegido sem dúvida pelos sete demônios captados, morreu subitamente. Os juizes tiveram de limitar-se a desenterrá-lo e a queimar o cadáver numa praça pública.
No reinado de Luiz XIV, só excepcionalmente os feiticeiros foram queimados, mas ninguém duvidava do poder que eles possuíam. O processo da feiticeira Voisin revelou que as maiores personalidades da época, o marechal de Luxembourg, o bispo de Langres, primeiro capelão da rainha e outros, tinham recorrido à força mágica que lhe atribuíam. O bispo Simiane de Gorges se dirigira a ela, a fim de obter, por influência do diabo, a fita azul do Espírito-Santo!
Se as cartomantes e as pitonizas modernas referissem as visitas que recebem, ver-se-ia que a credulidade humana não tem diminuído. Eu poderia citar um ex-ministro, conhecido pelo seu rígido anti-clericalismo, que nunca sai sem ter no bolso o pedaço de uma corda de enforcado. Um dos nossos mais eminentesembaixadores imediatamente se levanta de uma mesa em que se acham treze convivas. É o fetichismo desses ilustres homens de Estado verdadeiramente superior às crenças religiosas que eles proscrevem com tanto vigor? Duvido um pouco.
Os crentes, por mais convencidos que sejam, têm sempre sentido a necessidade, pelo menos para converter os incrédulos, de achar na sua fé razões justificativas. As numerosas elucubrações dos teólogos provam com que perseverança essa tarefa é empregada.
O argumento de que eles mais se servem, afora os milagres e as asserções dos seus livros sacros, é o assentimento universal.
Homens como Bossuet não hesitaram em utilizar-se dessa prova. Considerando desdenháveis e perigosas as opiniões particulares, o ilustre prelado lhes opunha a consciência geral como sendo muito mais segura. Uma doutrina deve ser julgada verdadeira, dizia ele, desde que todos os homens assim pensam. No juízo de Bossuet, um único ente não poderia ter razão contra a totalidade dos outros. Foram necessários os progressos das ciências modernas para provar que muitas descobertas se realizaram, precisamente porque um único homem teve razão contra todos os outros.
Os teólogos tiveram, de fato, um trabalho muito inútil para combater uma incredulidade aplicada, em geral, a pontos acessórios de doutrina. A credulidade intensa é, ao contrário, um sentimento universal.


(Gustave Le Bon "As opiniões e as crenças")

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publicado às 22:58



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