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As certezas derivadas das crenças

por Thynus, em 06.05.13

 

Uma crença forte inspira certezas que nada abala. De tais certezas derivam-se a maior parte dos grandes acontecimentos históricos.
Maomé tinha certeza de que Deus lhe ordenava fundasse uma religião nova destinada a regenerar o mundo, e conseguiu perturbá-lo. Pedro o Eremita tinha certeza de que Deus queria retomar aos infiéis o túmulo de Cristo e, para reconquistá-lo, milhões de homens miseravelmente pereceram. Lutero tinha certeza de que o papa era o Anti-Cristo, que não existia purgatório e, em nome de verdades dessa ordem, a Europa foi posta a fogo e sangue, durante muitos séculos. Os padres da Inquisição tinham certeza de que Deus queria verqueimados os hereges, e eles despovoaram a Espanha com as suas fogueiras. Carlos IX e Luiz XIV tinham certeza de que o Criador dos mundos não podia tolerar a existência dos protestantes, e para os exterminar, o primeiro recorreu à matança de S. Bartolomeu e o segundo às dragonadas.
A Convenção tinha certeza de que era preciso cortar numerosas cabeças para estabelecer a felicidade do gênero humano, e, com conseqüência, provocou guerras e uma ditadura, que fizeram perecer na Europa, três milhões de homens.
Nos nossos dias, milhares de burgueses compenetrados da certeza de que o socialismo regeneraria omundo, derrubam furiosamente as últimas colunas que sustentam a sociedade de que vivem.
Um dos mais seguros efeitos da certeza derivada de uma crença é criar certos princípios de moral mais ou menos provisórios, porém muito pujantes, em torno dos quais se constitui uma consciência nova, geradora de uma nova conduta.
A história da Revolução está repleta de atos sanguinários cometidos por indivíduos outrora pacíficos, mas, que se julgavam obrigados a obedecer às impulsões da sua fé recente. Tais foram os matadores de setembro que, findas as matanças, reclamaram uma recompensa nacional. Tais foram ainda os bandos que devastaram a Vendéa.
As certezas físicas e sentimentais são sempre acompanhadas da necessidade de impô-las. O homem suporta dificilmente, e desde que é o mais forte jamais admite que outros não tenham também as suas certezas. Para impôlas, não recuara diante da mais furiosa tirania e de sanguinolentas hecatombes.
Os possuidores de certezas têm sempre devastado o mundo. É um grande mal para uma nação ser conduzida por eles, e entretanto, como disse justamente Ribot: "O governo de um povo, em certos momentos da sua história, está nas mãos de meio-loucos."
Se um homem poderoso tem a certeza, como manifestava o imperador de Alemanha num discurso célebre, de haver recebido da divindade o seu poder, facilmente se entrevê até aonde tal certeza o pode conduzir. Se ele imaginar que Deus lhe ordena que faça a guerra aos incrédulos para castigá-los, a Europa poderá ser grandemente perturbada. Ela o foi mais de uma vez sob a influência de convicções análogas.


(Gustave Le Bon "As opiniões e as crenças")

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publicado às 22:57



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