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Suicídio

por Thynus, em 28.04.13

 

 

A obra de Émile Durkheim (1897) continua sendo a mais completa, abrangente e influente das teorias sociais sobre o suicídio. Sustentou ele que a consistência das taxas de suicídio era um fato social, explicado pelo grau em que os indivíduos eram integrados e regulados pelas forças morais coagentes da vida coletiva. O suicídio egoísta e altruísta resultava, respectivamente, da subintegração e da superintegração do indivíduo pela sociedade, enquanto que a anomia e o suicídio fatalista eram causados pela sub-regulação e pela super-regulação. Durkheim usou correlações entre o suicídio e várias taxas de associação externa para demonstrar a validade dos seus conceitos fundamentais. Por exemplo, as populações católicas tinham taxas de suicídios inferiores às protestantes porque a sociedade católica vincula o indivíduo mais rigorosamente à coletividade. Segundo Durkheim, o egoísmo e a ANOMIA crescentes estavam causando as taxas de suicídio invariavelmente ascendentes das sociedades ocidentais. Entretanto, o egoísmo não é uma conseqüência necessária da sociedade industrial. Iga (1986) mostrou como a grande maioria dos suicídios no Japão moderno resulta da vergonha dos indivíduos por fracassarem na realização dos objetivos que o grupo impõe a seus membros.
Obras sociológicas pós-durkheimianas, embora aprovando os esforços pioneiros de Durkheim na definição da taxa de suicídios como objeto de investigação e correlacionando-a com uma gama de variáveis sociais, mostraram-se predominantemente céticas diante da sua tentativa de explicação de ambas em termos de forças morais “reais mas invisíveis” que inclinam os indivíduos ao suicídio. Para esses sociólogos de orientação empirista, a noção de Durkheim de uma ciência dos fenômenos morais era uma impossibilidade. Assim, a maior parte das obras sociológicas subseqüentes, embora parecendo apoiar as “descobertas” de Durkheim, limitaram-se à relação entre taxas de suicídios e fatores sociais externos. Dessa perspectiva, alguns dos estudos mais conhecidos ligaram positivamente o suicídio, por exemplo, à urbanização e ao isolamento (Halbwachs, 1933; Sainsbury, 1955; Cavari, 1965), à falta de integração de status (Gibbs e Martin, 1964), à falta de restrição externa (Henry e Short, 1954; Maris, 1969) e à limitação em decorrência da cobertura da mídia (Phillips e Carstensen, 1988).
Abordagens fenomenológicas ou subjetivas tendem a examinar o modo como indivíduos chegam a construir intenções “suicidas” para si mesmos ou para outros. Esse último interesse foi desenvolvido e convertido em uma crítica de dados oficiais que vai além do interesse tradicional pela “exatidão” das estatísticas. Douglas (1967) afirmou que as idéias alimentadas por diferentes culturas e subculturas a respeito de suicídios determinam o que as autoridades finalmente classificam como “suicídio”. Desenvolvendo as idéias de Douglas, Atkinson (1978) e Taylor (1982), mostraram que um veredicto de suicídio só será pronunciado se as autoridades puderem encontrar provas compatíveis com as idéias culturais aceitas sobre os motivos que levam as pessoas a se matar e o modo como tratam de fazer isso. Assim, tanto a regularidade das taxas de suicídios quanto a sua correlação sistemática com fatores tais como isolamento e perda podem ser funções do modo como se coletam os dados.
Os subjetivistas afirmam que as tentativas de compreender o suicídio devem basearse nos significados que os suicidas oferecem para justificar suas próprias ações (Douglas, 1967; Baechler, 1979). Douglas, por exemplo, ao rejeitar os dados estatísticos em favor dos etnográficos, refere-se a estes últimos como “concretos e observáveis”. Entretanto, ao pressupor alguma espécie de acesso direto ao mundo através da observação, ele aproximou-se muito da tradição positivista que está criticando.
A teoria psicanalítica sobre o suicídio, estimulada inicialmente por Wilhelm Stekel e Alfred Adler, concentrou-se na agressão deslocada como motivo inconsciente para esse ato. Freud (1917), comparando luto e melancolia, afirmou que, na segunda, a libido livre retira-se para o ego, que estabelece uma identificação com o objeto perdido. Se a animosidade para com a parte do ego com a qual o objeto perdido está identificado é bastante grande, o ego age no sentido de destruir essa identificação e, por conseguinte, destrói-se a si mesmo. A hipótese formulada mais tarde por Freud em Para além do princípio do prazer, a de que o suicídio representa uma vitória precoce do instinto de morte, tem sido menos influente, mesmo entre psicanalistas. Entretanto, a idéia foi desenvolvida em um célebre livro de Menninger (1938), que interpretou uma série de comportamentos prejudiciais e potencialmente prejudiciais como suicídios parciais ou crônicos. Para o suicídio total, o indivíduo tinha que ter não só o desejo de morrer, mas também o desejo de matar e ser morto.
As teorias durkheimianas e freudianas têm muito mais em comum do que freqüentemente se percebe. Umas e outras usam a análise teórica para tentar revelar as causas subjacentes da ação humana; umas e outras explicam o suicídio em termos do desenvolvimento normal dos indivíduos e sociedades; umas e outras exploram as tensões resultantes das precárias relações nas pessoas entre o “animal” e o “ser social”. Em contraste, a moderna “suicidologia” (agora uma disciplina nos Estados Unidos, com sua própria associação e revista) tende a ser informada por uma epistemologia empirista, com “teorias” sobre tendências particulares no suicídio “emergindo” dos dados.
As teorias psicológicas e biológicas do suicídio tendem a averiguar que “fatores” caracterizam o indivíduo propenso ao suicídio ou são mais salientes nele. A psicologia cognitiva, por exemplo, apontou que os suicidas são caracterizados por processos de pensamento mais polarizados, menos imaginativos e mais estreitos (Neuringer, 1976). Uma série de estudos de psicologia social identificou indivíduos suicidas por suas pontuações mais altas em escalas de, por exemplo, “desesperança”, “hostilidade” e baixa auto-estima. Entretanto a falta de consistência e as dificuldades para estabelecer comparações decorrem do fato de tais escalas não serem “medidas” em qualquer sentido objetivo.
Fatores biológicos e genéticos oferecem potencialmente indicadores mais objetivos. Por exemplo, numerosos estudos encontraram ligações entre o comportamento suicida e baixos níveis de ácido 5-hidróxi-indoleacético (5-HIAA) metabólito de serotonina no líquido cérebro-espinhal (Brown et al, 1982). Entretanto as tentativas de explicar essas relações, em vez de meramente documentá-las, defrontam-se com o problema de relacionar medidas biológicas cada vez mais refinadas com escalas psicométricas rudimentares. Korn et al. (1990) afirmam que, sem se melhorar a “medição” de funções psicológicas, “a revolução biológica em psiquiatria pode, na verdade, parecer caótica”.
Definir suicídio não tem sido geralmente visto como um problema. O suicídio é um autocídio intencional. Mas a pesquisa sobre a natureza de atos suicidas, fatais ou nãofatais, tem desafiado a noção convencional de que todas as mortes de suicidas “autênticos” têm por objetivo a morte e podem assim distinguir-se de uma variedade de atos de “falsos” suicidas, tais como os “gritos por socorro”, quando a intenção é viver.
Stengel foi um dos primeiros a mostrar que a maioria dos atos suicidas, incluindo a maior parte dos que terminam em morte, são manifestações de comportamento de aceitação de riscos, empreendidas com um intuito ambivalente e caracterizadas pela incerteza quanto ao desfecho (Stengel e Cook, 1958). Alguns pesquisadores têm usado o termo “parassuicídio” a fim de descrever o comportamento que, embora se situe aquém de uma tentativa real de suicídio, é mais, porém, do que um mero gesto manipulativo. Essas observações têm implicações para definir e teorizar acerca do suicídio. Stengel (1973) definiu o suicídio como “qualquer ato deliberado de dano cometido por uma pessoa contra si própria e no qual ela não pode estar certa de sobreviver”. Talvez a questão fundamental para a pesquisa corrente não seja por que as pessoas se matam, mas por que tantas mais (possivelmente 100 mil por ano na Inglaterra e no País de Gales) arriscam suas vidas no que Stengel comparou a um ordálio medieval.

A ética do suicídio tende a não continuar dirigindo o seu foco para a culpabilidade moral de quem atenta contra a própria vida. O pensamento do século XX tem compaixão pelo suicídio, mas fica intrigado com o mistério do que impele indivíduos a desejarem desligar-se da boa sociedade. No século XXI, com uma população envelhecendo e recursos em declínio, o ressurgimento do suicídio como responsabilidade social, até como dever, não pode ser desprezado.

(William Outhwaite & Tom Bottomore - "Dicionário do pensamento social do século XX") 

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