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Ideologia

por Thynus, em 27.04.13

 

 

Referindo-se literalmente a uma ciência (ou logos) de idéias, a palavra foi usada nesse sentido pelo filósofo francês Destut de Tracy em seu livro Eléments d’idéologie, publicado em 1801. As idéias derivam exclusivamente de percepções sensoriais, acreditava ele. A inteligência humana é um aspecto da vida animal e “ideologia” é, portanto, parte da zoologia. Tracy e seus colegas achavam que, através dessa análise reducionista, no sentido de atividades mentais serem atribuídas a causas fisiológicas subjacentes, haviam chegado à verdade científica; e exigiram que se fizessem reformas educacionais com base nessa nova ciência (ver ILUMINISMO). Quando Napoleão era general, aceitara com orgulho sua indicação para membro do Institut National, formado pelas sociedades cultas, e — como os idéologues — visitava o salão filosófico de Mme. Helvétius. Mas, uma vez no poder, Napoleão quis defender a religião contra seus detratores. Daí, denunciou Tracy e seu círculo como “metafísicos nebulosos” e sua ciência de idéias como uma ideologia perigosa: esses inimigos do povo francês queriam basear uma legislação nas “causas primeiras” que alegavam haver descoberto e, daí, abolir as leis do coração humano e as lições da história. Desde então a palavra “ideologia” tornou-se inseparável da implicação pejorativa de que idéias estariam sendo usadas para obscurecer a verdade e manipular as pessoas através do engano (ver também PROPAGANDA). Nesse episódio histórico, encontram-se reunidos todos os significados associados a “ideologia”: uma ciência de idéias, a noção de que as idéias se originam de alguma base fundamental, extraideacional (fisiologia, classe, luta pelo poder e assim por diante), a denúncia de idéias como visionárias e subversivas, e daí a associação de doutrinas ou mitos a algum grupo ou movimento inclinado a pôr em ação algum plano político ou cultural perigoso.
O significado pejorativo de ideologia tornou-se um recurso habitual nas lutas políticas durante o século XIX, quando a política dos notáveis deu lugar ao desenvolvimento de partidos políticos, com seus apelos às massas. As questões públicas eram até então preocupação de uns poucos privilegiados, que partiam do princípio de que sabiam o que era melhor para seus inferiores. A seus próprios olhos, o privilégio de sua posição social dispensava a necessidade de justificarem suas ações. Era típico que conservadores dessa facção acusassem seus oponentes de serem visionários ideológicos que subvertiam a ordem social através de maquinações abstratas, fora de contato com a realidade. Liberais e radicais, por outro lado, sustentavam que as questões públicas eram uma preocupação do povo e organizavam clubes ou partidos políticos para promoverem seus objetivos. Já por parte destes, era típico acusar os poucos privilegiados de explorarem o povo sob o falso pretexto da benevolência. No entanto liberais e radicais também se acusavam uns aos outros, pois cada grupo achava que seus oponentes escondiam objetivos sectários sob o disfarce de identificá-los com o bem público. A conseqüência foi que o uso pejorativo de ideologia se tornou universal, levando Thomas Carlyle a gracejar, dizendo que “ortodoxia é o meu credo, heterodoxia é o credo alheio”. Era o velho paradoxo do mentiroso: um homem diz que todos os homens usam idéias para enganar; ele é homem, logo sua própria afirmação também é enganosa.
Eis aí um motivo para a enorme atração do MARXISMO, que só agora está diminuindo. Marx e Engels denunciaram seus oponentes como “ideólogos” e além disso elaboraram uma teoria da “verdade histórica” que afirmava que seus próprios pontos de vista eram científicos. A história é uma história de lutas de classe, afirmaram, brotando da organização da produção e afetando todos os aspectos da consciência. Marx diferencia sucessivas estruturas sociais, tais como feudalismo e capitalismo, em termo das classes e da consciência a que elas dão origem. E identifica a VERDADE com o papel histórico da classe que, pelo fato de ter sido subjugada no passado, tem o futuro progressista em suas mãos. O domínio reacionário de uma classe (a aristocracia no feudalismo, a burguesia no capitalismo recente) leva a defesas ideológicas do status quo; o papel progressista de uma classe (a burguesia no feudalismo, o proletariado no capitalismo) é a fonte da verdade no sentido do acesso à compreensão correta de toda a presente alienação e da emancipação humana no futuro. No passado os filósofos apenas interpretaram o mundo e produziram reflexões ideológicas de relações de classe desumanizantes, por mais abstratamente que fosse.
No presente e no futuro trata-se de destruir de uma vez por todas as condições desumanizantes. Isso só pode ser feito por uma unidade de teoria e prática tal que, na crise final do capitalismo (e devido a essa crise), os que se identificam com a classe operária poderão e irão compreender “teoricamente o movimento histórico como um todo”. Na sociedade socialista do futuro, o véu místico da religião e todas as outras distorções ideológicas da real condição do homem irão finalmente desaparecer, porque “as relações práticas da vida cotidiana não oferecem ao homem senão relações perfeitamente inteligíveis e racionais com respeito a seus semelhantes e à natureza”. Essas referências (Teses sobre Feuerbach , 1845; O manifesto comunista, 1848; O capital, 1867) mostram que, ao longo de sua carreira, Marx colocou sua própria obra no centro de sua distinção histórico-mundial entre ideologia e verdade. A idéia de estar do “lado certo”, e portanto “científico”, da história do mundo distingue o marxismo de todas as outras teorias sociais e políticas. 


(William Outhwaite & Tom Bottomore - "Dicionário do pensamento social do século XX") 

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