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QUANDO EU ESTAVA NO ENSINO MÉDIO , nas poucas vezes em que reuni coragem para abordar uma garota, a experiência foi parecida com a de um teste de múltipla escolha em que ela só respondia “Nenhuma das alternativas acima”. Eu já estava mais ou menos resignado com o fato de que um garoto que passava o tempo livre lendo livros sobre geometria não euclidiana nunca seria exatamente o “grande cara do campus”. Um dia, quando estava na biblioteca procurando um livro de matemática, virei uma esquina errada e dei de cara com um volume que dizia algo do tipo Como conseguir uma namorada. Eu ainda não sabia que as pessoas escreviam livros de instruções sobre esse tema. Perguntas pulularam em minha cabeça. Será que o mero fato de estar interessado naquele livro não significava que ele jamais cumpriria a promessa do título? Será que um garoto que preferia falar da curvatura do espaço-tempo aos passes de beisebol poderia se dar bem? Será que havia mesmo truques que funcionavam?
O livro enfatizava que, se a garota não conhecer você muito bem – e isso se aplicava a todas as garotas da minha escola –, não se deve esperar que ela aceite um convite, nem se deve considerar a rejeição como algo pessoal. O melhor era ignorar o enorme número de garotas que o rejeitassem e continuar convidando, pois mesmo que as probabilidades fossem baixas, as leis da matemática dizem que afinal seu número será sorteado. Como as leis da matemática fazem o meu gênero, sempre acreditei que a persistência é uma boa filosofia de vida e aceitei o conselho.
Não posso dizer que os resultados foram estatisticamente significativos. Porém, décadas depois, fiquei chocado ao descobrir que um grupo de pesquisadores franceses repetiu, em essência, o exercício sugerido pelo livro. E fizeram isso de forma científica e controlada, chegando a resultados estatisticamente significativos. Além disso, para minha surpresa, eles revelaram a maneira pela qual eu poderia aprimorar minha possibilidade de sucesso.17
A cultura francesa é conhecida por inúmeros atributos, alguns dos quais não têm nada a ver com comida, vinho ou namoro. Porém, em relação a este último, os franceses são considerados excelentes especialistas. No experimento em questão, eles literalmente transformaram isso numa ciência. O cenário é um dia ensolarado de junho, numa zona para pedestres na cidade de Vannes, localidade de tamanho médio na costa do Atlântico, na Bretanha, oeste da França.
Ao longo desse dia, três atraentes rapazes franceses abordaram de forma aleatória 240 jovens que avistaram andando sozinhas e fizeram propostas a todas. Para cada uma eles diziam exatamente as mesmas palavras: “Olá. Meu nome é Antoine. Queria dizer que você é muito bonita. Eu preciso trabalhar esta tarde, mas será que você pode me dar seu telefone? Eu ligo mais tarde, e nós podemos tomar alguma coisa juntos em algum lugar.” Se a mulher recusasse, eles diriam: “Que pena, não é o meu dia de sorte. Tenha uma boa tarde.” E procuravam outra jovem para abordar. Se a mulher concordasse em dar o número do telefone, eles explicavam que a proposta era em nome da ciência, e nesse momento, de acordo com os cientistas, a maioria das mulheres achava graça. A chave para o experimento era a seguinte: em metade das mulheres que abordavam, os rapazes acrescentavam um leve toque, de um segundo de duração, no braço da jovem. A outra metade não recebia toque algum.
Os pesquisadores estavam interessados em saber se os homens seriam mais bem sucedidos quando tocassem as mulheres do que quando não tocassem. O quanto o toque é importante como insinuação social? No decorrer do dia, os jovens reuniram três dúzias de números telefônicos. Quando eles não tocavam nas mulheres, a percentagem de sucesso era de 10%; quando as tocavam, a taxa era de 20%. Esse leve toque de um segundo dobrava a popularidade. Por que as mulheres que recebiam o toque eram duas vezes mais receptivas ao convite? Será que pensavam: “Esse Antoine é bom de toque. Deve ser divertido tomar uma garrafa de Bordeaux com ele uma noite dessas, no Bar de l’Océan”? Provavelmente não. Mas, no inconsciente, o toque parece transmitir um sentido subliminar de afeto e ligação.
Ao contrário da geometria não euclidiana, a pesquisa relacionada ao toque tem muitas aplicações óbvias.18 Por exemplo, em um experimento envolvendo oito garçons e centenas de comensais, os garçons foram treinados para tocar de leve o braço de clientes selecionados aleatoriamente, no fim da refeição, enquanto perguntavam “Está tudo certo?”. Os garçons receberam uma média de 14,5% de gorjeta dos que eles não tocavam, e de 17,5% dos que tocavam. Outro estudo constatou o mesmo efeito nas gorjetas num bar. Em outro estudo feito num restaurante, cerca de 60% dos comensais aceitaram a sugestão do garçom de um prato especial depois que foram levemente tocados no braço, comparados aos 40% dos que não eram tocados.
Constatou-se que um toque aumenta: a percentagem de mulheres desacompanhadas num clube noturno que aceitam um convite para dançar; o número de pessoas que aceitam assinar uma petição; as probabilidades de um aluno de faculdade se arriscar ao constrangimento de se oferecer para ir ao quadro-negro numa aula de estatística; a proporção de atarefados transeuntes num shopping que param dez minutos para preencher um formulário de pesquisa; a percentagem de consumidores num supermercado que compram algum alimento que tenham experimentado; as probabilidades de que um cidadão que acabou de dar informações a alguém ajude essa pessoa a recolher um monte de disquetes de computador que derrubou no chão.
Você pode se mostrar cético em relação a isso. Afinal, algumas pessoas se retraem quando são tocadas por um desconhecido. É possível que alguns dos sujeitos dos estudos que citei não tenham se retraído, mas ações foram compensadas pelos que reagiram de forma positiva. Mas lembre-se de que eram sempre toques sutis, não apalpadelas. Aliás, nos estudos em que a pessoa tocada foi depois interrogada sobre a experiência, menos de 1/3 dos pesquisados chegou a perceber que houve toque.19
Quer dizer então que pessoas mais propensas ao toque se saem melhor ao fazer ascoisas? Não há dados de que chefes que distribuem um ocasional afago na cabeça sedeem melhor em suas atuações, mas um estudo feito em 2002 por um grupo depesquisadores em Berkeley descobriu um caso no qual o hábito de dar tapinhas de congratulações na cabeça foi associado a interações grupais bem-sucedidas.20 Os pesquisadores estudaram o basquete, que exige um intenso trabalho de equipe e é conhecido por sua elaborada linguagem de toques. Eles constataram que o número de “soquinhos, tapinhas, peitadas, palmadas, afagos na cabeça, agarrões na cabeça, abraços, ombradas etc.” se correlacionava de forma significativa ao grau de cooperação entre os companheiros de equipe, como passar a bola para os que não estavam marcados, ajudar os outros a evitar a pressão da defesa, fazendo o que eles chamam de “barreira”, e demonstrando confiança na equipe em detrimento do próprio desempenho individual. Os times que mais se tocavam cooperavam mais e eram os que venciam com mais frequência.
Parece que o toque é uma ferramenta tão importante para incrementar a cooperação e a afiliação social que nós desenvolvemos uma espécie de trajetória física pela qual esses sentimentos subliminares de conexão social viajam desde a pele até o cérebro. Isto é, os cientistas descobriram um tipo específico de fibra nervosa na pele das pessoas – em especial no rosto e nos braços – que parece ter se desenvolvido para transmitir o prazer de toques sociais. Essas fibras nervosas transmitem os sinais muito devagar para se tornarem úteis nas coisas que fazemos e que se associam em geral ao sentido do toque: determinar o que está tocando você e dizer com alguma precisão onde você está sendo tocado.21 “Eles não ajudam a distinguir uma pera de uma pedra, ou se o toque foi na bochecha ou no queixo”, diz o pioneiro neurocientista social Ralph Adolphs. “Mas estão ligados diretamente a áreas do cérebro como o córtex insular, que é associado à emoção.”22
Para os primatologistas, a importância do toque não é surpresa. Primatas não humanos se tocam muito enquanto se ajudam na limpeza do corpo. Ainda que esse comportamento esteja ostensivamente relacionado à higiene, seria necessário somente cerca de dez minutos desse processo por dia para um animal ficar limpo, mas algumas espécies passam horas fazendo isso.23 Por quê? Lembra-se dos grupos de cafuné? Entre os primatas não humanos, o cafuné social é importante para manter as relações sociais.24 O toque é o nosso sentido mais bem-desenvolvido quando nascemos; continua a ser um modo fundamental de comunicação durante o primeiro ano de vida do bebê e uma importante influência no decorrer de toda a vida.25

(Leonard Mlodinow – “Subliminar,Como o inconsciente influencia nossas vidas”)

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publicado às 23:43



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