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Comportamento social humano

por Thynus, em 25.04.13

 

 

EMBORA O COMPORTAMENTO SOCIAL HUMANO seja bem mais complexo que o comportamento social de outras espécies, há também surpreendentes pontos em comum em certas características fundamentais da maneira como todos os mamíferos se relacionam com outros de sua espécie. Um dos interessantes aspectos da maioria dos mamíferos não humanos é ter “cérebro pequeno”. Com isso os cientistas querem dizer que a parte do cérebro que, nos homens, é responsável pelo pensamento consciente é relativamente pequena nos mamíferos não humanos quando comparada à parte do cérebro envolvida nos processos inconscientes.19
Claro que ninguém sabe exatamente como surge o pensamento consciente, mas ele parece estar centrado sobretudo no lobo frontal do neocórtex, em particular numa região chamada córtex pré-frontal. Em outros animais, essas regiões do cérebro são muito menores ou nem sequer existem. Em outras palavras, os animais reagem mais e pensam menos, quando pensam. Por isso, a mente inconsciente pode soar um alarme ao ver o tio Matt esfaqueando o próprio braço com uma faca, mas depois usar a mente consciente humana para lembrar que o tio Matt acha engraçado fazer truques de mágica chocantes. Em comparação, seu coelho de estimação não se sentiria aliviado por essas considerações conscientes e racionais. A reação do coelho seria automática. Seguiria seus instintos primitivos e simplesmente fugiria do tio Matt e seu facão. Apesar de não conseguir entender uma piada, as regiões do cérebro responsáveis pelos processamentos inconscientes de um coelho não são diferentes das nossas.
Na verdade, a organização e a química do cérebro inconsciente são comuns entre os mamíferos, e muitos mecanismos neurais automáticos nos macacos, nos símios e até em mamíferos inferiores são semelhantes aos nossos, produzindo um comportamento surpreendentemente parecido com o dos seres humanos.20 Assim, ainda que outros animais não possam nos ensinar muito sobre a ToM (Teoria da Mente), eles podem fornecer insights a respeito de outros aspectos automáticos e inconscientes de nossas tendências sociais. É por essa razão que, enquanto algumas pessoas leem livros como Homens são de Marte e mulheres são de Vênus para aprender sobre os papéis sociais de homens e mulheres, eu prefiro fontes como “Mother-infant bonding and the evolution of mammalian social relationships” – que, de alguma forma, serve para minimizar as relações sociais mamíferas na minha vida.
Considere a seguinte passagem desse artigo:

O sucesso reprodutivo dos machos em geral é determinado pela competição com outros machos para se acasalar com o maior número possível de fêmeas. Portanto, raramente os machos formam laços sociais fortes, e as colisões entre machos costumam ser hierárquicas, mais com ênfase na agressividade que no comportamento associativo.21

Pode parecer algo que você já viu na porta de algum bar cheio de torcedores, mas os cientistas estão debatendo o comportamento de mamíferos não humanos. Talvez a diferença entre machos humanos e touros, gatos e cabritos não seja o fato de que mamíferos não humanos não têm bares de torcedores, mas que, no universo dos mamíferos não humanos, o mundo inteiro é um bar de torcedores. Sobre as fêmeas, os mesmos pesquisadores escrevem:

A estratégia reprodutiva da fêmea é investir na produção de uma quantidade relativamente pequena de crias, … e o sucesso é determinado pela qualidade do cuidado e pela capacidade de possibilitar a sobrevivência para além da idade do desmame. Por isso as fêmeas formam fortes laços sociais com seus filhotes; e as relações entre as fêmeas são também fortemente associativas.

Isso também soa familiar. Deve-se ter cuidado ao ler demais sobre comportamento de mamíferos “em geral”, porém, isso parece explicar por que é mais comum que as mulheres fiquem conversando até tarde na cama ou formem grupos de leitura; e por que, apesar de minhas promessas de ser mais associativo que agressivo, elas nunca me deixam participar dessas atividades. O fato de que, em algum nível, os mamíferos
humanos e não humanos pareçam se comportar de forma semelhante não implica que uma vaca aprecie jantar à luz de velas, que uma mamãe ovelha só queira ver seus filhotes crescerem felizes e bem-ajustados, ou que roedores tenham como aspiração se aposentar na Toscana acompanhados por suas almas gêmeas. Isso sugere que, embora o comportamento social humano seja muito mais complexo que o de outros animais, as raízes evolutivas dos nossos comportamentos podem ser encontradas nesses animais, e que é possível aprender alguma coisa sobre nós mesmos ao estudá-los.
O quanto o comportamento social dos mamíferos não humanos é programado? Vamos considerar o carneiro, por exemplo.22 Normalmente, a ovelha é antipática com seus cordeiros. Se um deles se aproxima querendo mamar, a ovelha vai balir num tom bem agudo, e talvez dar uma ou duas marradas. No entanto, o processo do parto transforma a mãe. Parece mágica, essa transformação de ranzinza para cuidadora. Mas não tem a ver com pensamentos conscientes e maternais de amor ao filho. É uma coisa química, não mágica.
O processo é instigado pelo alargamento do canal vaginal, que libera uma simples proteína chamada oxitocina no cérebro da ovelha. Isso abre um intervalo de mais ou menos duas horas de duração, no qual a ovelha fica pronta para se associar. Se um cordeiro se aproxima enquanto ela estiver nesse intervalo, a ovelha se associará a ele, seja seu filhote ou de uma vizinha, ou mesmo um filhote de uma fazenda afastada.
Quando a janela da oxitocina se fecha, a ovelha deixa de se ligar a novos cordeiros. Depois disso, se ela estiver relacionada a um cordeiro, continua a amamentá-lo e a falar com ele carinhosamente – o que na linguagem dos carneiros significa balidos em tons baixos. Mas voltará a ser antipática com os outros cordeiros, até com seus filhotes que não tiverem se aproximado durante o tempo de associação. Os cientistas, porém, podem abrir e fechar à vontade esse intervalo de aceitação, injetando oxitocina na ovelha ou inibindo a produção dessa substância em seu organismo. É o mesmo que ligar ou desligar um robô.
Outra famosa série de estudos em que cientistas conseguiram programar o comportamento de mamíferos por meio de manipulação química envolve o arganaz, um roedor parecido com o camundongo que abrange cerca de 150 diferentes espécies. Uma dessas espécies, o arganaz do campo, seria um cidadão-modelo numa sociedade humana. Ele se acasala para sempre, são leais – entre os arganazes do campo cujo parceiro desaparece, por exemplo, menos de 30% se juntam a outro.23 E são pais responsáveis – os pais ficam por perto para proteger o ninho e participam do cuidado das crias. Os cientistas estudam os arganazes do campo por apresentarem um fascinante contraste com duas espécies de arganazes correlatas, o arganaz da montanha e o arganaz do prado.
Ao contrário do arganaz do campo, os arganazes da montanha e do prado formam sociedades de promíscuos solitários.24 Em termos humanos, os machos dessa espécie  são indivíduos desclassificados. Acasalam-se com qualquer fêmea que estiver por perto, depois saem do pedaço e deixam que elas cuidem da cria, preferindo se entocar em algum canto isolado. (O arganaz do campo, por outro lado, costuma se reunir em pequenos grupos para conversar.)
O que impressiona nessas criaturas é que os cientistas conseguiram identificar a característica específica no cérebro responsável por essas diferenças de comportamento de uma espécie para outra. A substância química envolvida mais uma vez é a oxitocina. Para exercer um efeito nas células do cérebro, as moléculas de oxitocina primeiro precisam se ligar a receptores – moléculas específicas na membrana da superfície de uma célula. Os arganazes do campo monógamos têm muitos receptores para a oxitocina e um hormônio relacionado chamado vasopressina numa região específica do cérebro. Uma alta concentração semelhante de oxitocina e de receptores de vasopressina é também encontrada nessa região do cérebro de outros mamíferos monógamos. Mas, nos arganazes promíscuos, há uma carência desses receptores. Assim, por exemplo, quando os cientistas manipulam o cérebro de um arganaz do prado para aumentar o número de receptores, o arganaz solitário de repente se torna extrovertido e sociável como seu primo, o arganaz do campo.25
Se você não for um raticida, a essa altura já deve saber mais do que precisava a respeito de arganazes do campo; quanto ao que se refere a cordeiros, a maioria de nós nunca entra em contato com eles a não ser quando vêm acompanhados de molho de hortelã. Mas entrei em detalhes sobre a oxitocina e a vasopressina porque essas duas substâncias têm um importante papel na modulação do comportamento social e reprodutivo dos mamíferos, inclusive o nosso. Na verdade, compostos relacionados têm desempenhado uma função no organismo por pelo menos 700 milhões de anos, até em invertebrados como minhocas e insetos.26
O comportamento social humano é obviamente mais avançado e cheio de nuances que o do arganaz e dos carneiros. Ao contrário deles, nós temos ToM e somos muito mais capazes de superar impulsos inconscientes tomando decisões conscientes. Mas, nos seres humanos, a oxitocina e a vasopressina também regulam os vínculos com os semelhantes.27 Nas mães humanas, assim como nas ovelhas, a oxitocina é liberada durante o parto e o nascimento. Também é liberada na mulher quando seus mamilos ou o colo do útero são estimulados durante a relação sexual; e nos homens e nas mulheres quando eles chegam ao clímax sexual. Tanto nos homens quanto nas mulheres, a oxitocina e a vasopressina liberadas no cérebro depois do sexo produzem amor e atração. A oxitocina é liberada inclusive nos abraços, em especial pelas mulheres, razão pela qual um mero toque físico casual pode levar a sensações de proximidade emocional até na ausência de uma ligação consciente ou intelectual entre os participantes.
No ambiente social mais abrangente, a oxitocina pode também promover confiança, e é produzida quando as pessoas têm um contato social positivo umas com as outras.28 Num experimento, duas pessoas estranhas jogaram um jogo em que podiam cooperar para ganhar dinheiro. Mas as coisas eram feitas de modo que cada participante só pudesse ganhar em detrimento do outro. Por isso, a confiança era um dos temas presentes: à medida que o jogo progredia, os jogadores analisavam o caráter do outro. Cada um avaliava se o parceiro tendia a jogar limpo, caso em que os dois jogadores podiam se beneficiar igualmente, ou a jogar sujo, para desfrutar de mais benefícios em detrimento do outro.
Durante esse estudo, os pesquisadores monitoraram os níveis de oxitocina medindo a pressão sanguínea depois que os jogadores tomavam suas decisões. Descobriram que, quando o parceiro jogava de uma maneira que revelava confiança, o cérebro do jogador respondia a essa demonstração liberando oxitocina. Em outro estudo, no qual os participantes deviam investir dinheiro, os investidores que inalavam oxitocina tendiam a mostrar muito mais confiança em seus parceiros, que eram levados a aplicar mais dinheiro com eles. Quando se pediu que categorizassem os rostos baseados em suas expressões, os voluntários que inalaram oxitocina qualificaram os estranhos como mais confiáveis e atraentes que os sujeitos que não inalaram a substância. (Não surpreende que sprays de oxitocina já estejam disponíveis na internet, embora não sejam eficazes se não forem borrifados diretamente nas narinas da pessoa.)
Uma das provas mais contundentes de nossa natureza automática animal pode ser vista em um gene que regula os receptores de vasopressina no cérebro humano. Os cientistas descobriram que homens que têm duas cópias de uma determinada forma desse gene têm menos receptores de vasopressina, o que os torna semelhantes aos arganazes promíscuos. Aliás, eles mostram o mesmo tipo de comportamento. Homens com menos receptores de vasopressina apresentam duas vezes mais probabilidade de desenvolver problemas conjugais ou de se divorciar, e metade da probabilidade de se casar, que homens com mais receptores de vasopressina.29 Por isso, embora sejamos muito mais complexos em nosso comportamento que carneiros e arganazes, as pessoas também são programadas para desempenhar certos comportamentos sociais inconscientes, vestígio de nosso passado animal.

(Leonard Mlodinow – “Subliminar,Como o inconsciente influencia nossas vidas”)

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publicado às 20:29



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