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OS SERES HUMANOS SE COMUNICAM por intermédio de um rico sistema de linguagem cujo desenvolvimento representou um momento marcante na evolução da nossa espécie, uma inovação que reformulou o caráter da sociedade humana. É uma capacidade que parece única.12 Em outros animais, a comunicação se limita a mensagens simples, como se identificar ou emitir alertas; há pouca estrutura complexa. Se o cavalo Hans tivesse de responder com sentenças completas, por exemplo, o espetáculo estaria terminado. Mesmo entre primatas, nenhuma espécie adquire naturalmente mais que alguns poucos sinais, ou os combina de uma maneira não rudimentar. O ser humano médio, por outro lado, conhece dezenas de milhares de palavras e pode alinhá-las seguindo regras complexas, com pouco esforço consciente e sem uma educação formal.
Os cientistas ainda não entendem como a linguagem evoluiu. Muitos acreditam que as primeiras espécies humanas, como o Homo habilis e o Homo erectus, tinham algo semelhante à linguagem ou a sistemas de comunicação simbólicos. Mas o desenvolvimento da linguagem como a conhecemos só aconteceu quando os seres humanos modernos entraram em cena. Alguns dizem que a linguagem surgiu 100 mil anos atrás, outros afirmam que foi depois; mas a necessidade de uma comunicação sofisticada sem dúvida se tornou mais urgente com o desenvolvimento de seres humanos sociais “modernos em termos comportamentais”, 50 mil anos atrás. Já vimos o quanto as interações sociais são importantes para nossa espécie, e as interações sociais estão atreladas à necessidade de comunicação. Essa necessidade é tão poderosa que até bebês surdos desenvolvem sistemas de linguagem baseados em gestos e, se aprenderem a linguagem de sinais, vão balbuciar usando as mãos.13
Por que os homens desenvolvem a comunicação não verbal? Um dos primeiros a estudar seriamente esse assunto foi um inglês, motivado por seu interesse pela teoria da evolução. Segundo sua própria avaliação, ele não era um gênio. Não era “muito rápido ou sagaz para perceber as coisas”, nem tinha “o poder de seguir uma linha de pensamento longa e puramente abstrata”.14 Nas muitas ocasiões em que tenho a mesma sensação, sinto-me revigorado ao relembrar essas palavras, porque esse tal inglês se deu muito bem consigo mesmo – o nome dele era Charles Darwin. Treze anos depois da publicação de A origem das espécies, Darwin publicou outro texto radical, chamado A expressão das emoções no homem e nos animais. No livro, Darwin argumenta que as emoções – e as maneiras como são expressadas – proporcionam uma vantagem na sobrevivência, não são exclusivas dos seres humanos e ocorrem em muitas espécies. Indícios do papel das emoções podem ser encontrados examinando-se as semelhanças e as diferenças da expressão emocional não verbal em várias espécies.
Embora não se considerasse brilhante, Darwin acreditava dispor de uma grande força intelectual, que era seu poder de observação minuciosa e detalhada. De fato, embora não tenha sido o primeiro a sugerir a universalidade da emoção e sua expressão,15 ele passou muitas décadas estudando meticulosamente as manifestações físicas de estados mentais. Observava seus conterrâneos e prestava atenção aos estrangeiros também, procurando semelhanças e diferenças culturais. Chegou a estudar animais domésticos e os do zoológico de Londres. Em seu livro, Darwin categorizou inúmeras expressões humanas e gestos de emoção, e apresentou hipóteses sobre suas origens. Percebeu como animais inferiores também demonstram intenção e emoções por meio de expressões faciais, posturas e gestos. Darwin especulou que muito da nossa comunicação não verbal poderia ser um remanescente inato e automático de fases anteriores da evolução. Por exemplo, podemos dar mordidas afetivas, como fazem outros animais; e também expressar esgares como outros primatas, dilatando as narinas e mostrando os dentes.
O sorriso é outra expressão que partilhamos com primatas inferiores. Imagine-se em algum lugar público vendo alguém que olha para você. Se você retribuir o olhar e a outra pessoa sorrir, é provável que se sinta bem com o intercâmbio. Mas, se a outra pessoa continuar olhando sem esboçar um sorriso, o mais provável é você se sentir desconfortável. De onde vêm essas respostas instintivas? No comércio com a moeda corrente dos sorrisos, estamos partilhando um sentimento vivenciado por muitos de nossos primos primatas. Nas sociedades primatas, o olhar direto é um sinal agressivo. Em geral precede um ataque – e, portanto, pode precipitar um ataque. Dessa forma, se um macaco submisso, digamos, quer avaliar um dominante, vai mostrar os dentes como sinal de paz. Na linguagem dos macacos, dentes à mostra significam “Desculpe o meu olhar. É verdade que estou olhando, mas não pretendo atacar. Então, por favor, não me ataque antes.”
Entre os chimpanzés, o sorriso também pode ter outro sentido – um indivíduo dominante pode sorrir para um submisso dizendo, de forma análoga: “Não se preocupe, eu não vou atacar você.” Por isso, quando você passa por um estranho num corredor e ele abre um breve sorriso, você está vivenciando um intercâmbio com raízes profundas na nossa herança primata. Há inclusive evidências de que, com chimpanzés, assim como entre seres humanos, a troca de sorrisos pode ser um sinal de amizade.16
Talvez o sorriso seja um barômetro bem impreciso dos verdadeiros sentimentos, porque, afinal, qualquer um pode fingir um sorriso. É verdade que podemos conscientemente exibir um sorriso ou qualquer outra expressão usando os músculos do rosto de um jeito que estamos acostumados a fazer. Pense no que você faz quando tenta causar boa impressão numa festa, mesmo que esteja se sentindo infeliz. Mas nossas expressões faciais são também regidas, de forma subliminar, por músculos sobre os quais não temos controle consciente. Por isso, nossas verdadeiras expressões não podem ser fingidas. Claro, qualquer um pode criar um sorriso posado contraindo os principais músculos zigomáticos, que repuxam os cantos da boca em direção aos malares. Porém, um sorriso genuíno envolve a contração de um par de atores adicionais, os músculos orbitais dos olhos, que repuxam a pele ao redor dos olhos em direção ao globo ocular, provocando efeito semelhante a um pé de galinha que pode ser muito sutil. Isso foi indicado pela primeira vez por um neurologista francês do século XIX, chamado Duchenne de Boulogne, que influenciou Darwin e reuniu grande número de fotografias de pessoas sorrindo.
Há dois diferentes caminhos neurais para esses músculos sorridentes: um voluntário, para o zigomático maior, e um involuntário, para o orbicularis oculi.17 Por isso, o fotógrafo em busca de um sorriso pode nos implorar para dizer “uísque”, palavra que alavanca nossa boca para uma posição de sorriso, mas, se você não for do tipo que se delicia quando pedem para falar a palavra “uísque”, o sorriso não vai parecer autêntico.
Ao examinar fotos dos dois tipos de sorriso mostrados por Duchenne de Boulogne, Darwin observou que, embora as pessoas conseguissem sentir a diferença, era muito difícil apontar conscientemente qual era ela, e declarou: “É comum eu me surpreender com o fato curioso de que tantos matizes de expressão sejam instantaneamente reconhecidos sem qualquer processo consciente de análise da nossa parte.”18 Ninguém prestou muita atenção a essas questões até pouco tempo atrás, mas estudos modernos têm mostrado que, como Darwin observou, mesmo pessoas sem treinamento em análise de sorrisos sabem naturalmente distinguir entre um verdadeiro sorriso e um sorriso fingido quando conseguem observar o mesmo indivíduo produzindo ambos os tipos.19
Os sorrisos que reconhecemos intuitivamente como falsos são uma das razões pelas quais vendedores de carros usados, políticos e outros que sorriem sem sinceridade em geral sejam definidos como escorregadios. Os atores, na tradição do método dramático, tentam contornar isso se exercitando para realmente sentir a emoção que devem manifestar; muitos políticos de sucesso são talentosos e conseguem expressar sentimentos genuínos de amizade e empatia ao falar para um salão cheio de estranhos.
Darwin entendeu que, se nossa expressão evoluiu com nossa espécie, muitas das maneiras de expressar emoções básicas – felicidade, medo, raiva, repulsa, tristeza e surpresa – deveriam ser comuns em seres humanos de diferentes culturas. Por isso, em 1867, ele fez com que um questionário circulasse entre povos nativos dos cinco continentes, alguns dos quais com pouco contato com os europeus.20 A pesquisa fazia perguntas como: “O espanto é expressado por olhos e boca abertos e as sobrancelhas erguidas?” Com base nas respostas recebidas, Darwin concluiu que “o mesmo estado de espírito é expresso em todo o mundo com uma uniformidade notável”
O estudo de Darwin foi comprometido porque seu questionário fez perguntas já indicativas das respostas; como muitas outras contribuições à psicologia, a dele também foi atropelada – nesse caso, pela noção de que as expressões faciais são um comportamento aprendido, adquirido durante a infância, quando os bebês imitam as pessoas que cuidam deles e outras, no ambiente imediato. No entanto, nos últimos anos, um substancial corpus de pesquisa multicultural vem mostrando evidências de que afinal Darwin estava certo.21
Na primeira série de estudos que se tornaram famosos, o psicólogo Paul Ekman mostrou fotos de expressões de pessoas para voluntários no Chile, na Argentina, no Brasil, nos Estados Unidos e no Japão.22 Em alguns anos, ele e um colega tinham mostrado essas fotos para pessoas em 21 países. Suas descobertas foram as mesmas de Darwin, demonstrando que pessoas de diversas culturas têm um entendimento semelhante do significado emocional de uma gama de expressões faciais. Ainda assim, só esses estudos não significam necessariamente que essas expressões são inatas ou até universais.
Adeptos da teoria das “expressões adquiridas” argumentaram que os resultados de Ekman não formulavam uma verdade mais profunda que o fato de as pessoas das sociedades estudadas assistirem à série A ilha dos birutas ou a outros filmes e programas de televisão. Por essa razão, Ekman viajou até a Nova Guiné, onde uma cultura neolítica isolada havia sido descoberta recentemente.23 Os nativos não tinham uma linguagem escrita e ainda usavam utensílios de pedra. Muito poucos tinham visto uma fotografia, menos ainda filmes ou televisão. Ekman recrutou centenas desses nativos, que nunca haviam sido expostos a culturas de outras partes, e, por intermédio de um tradutor, apresentou fotografias de rostos americanos ilustrando as emoções básicas.
Os caçadores e coletores primitivos se mostraram tão rápidos quanto os habitantes de países letrados do século XXI no reconhecimento de felicidade, medo, raiva, repulsa, tristeza e surpresa no rosto de um americano. Os cientistas também inverteram o projeto da pesquisa. Fotografaram a reação dos nativos quando viam seus filhos morrendo ou encontravam um porco morto havia algum tempo e assim por diante. As expressões que Ekman registrou eram inequivocamente reconhecíveis.24
Essa capacidade universal de criar e reconhecer expressões faciais começa no nascimento ou pouco depois. Já se observaram bebês fazendo quase todos os movimentos musculares usados por adultos para expressar emoção. Os bebês podem também diferenciar as expressões faciais dos outros e, como os adultos, modificar seu comportamento com base no que veem.25 Dificilmente este será um comportamento adquirido. Na verdade, crianças cegas de nascença, que nunca viram uma carranca ou um sorriso, expressam uma gama de emoções faciais espontâneas quase idênticas às das crianças que conseguem enxergar.26 Nosso catálogo de expressões faciais parece um equipamento-padrão – vem com o modelo básico. Por ser uma parte inconsciente e inata do nosso ser, a comunicação dos nossos sentimentos acontece de forma natural; ocultá-los exige grande esforço.

(Leonard Mlodinow – “Subliminar,Como o inconsciente influencia nossas vidas”)

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publicado às 16:37



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