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O Papado, a suprema autoridade da Igreja Católica, é a mais antiga organização do Mundo e a única instituição que floresceu na Idade Média. Foi um actor privilegiado no Renascimento, foi um dos protagonistas da Reforma e da Contra-Reforma, da Revolução Francesa e da era industrial, da ascensão e queda do comunismo. Ao longo dos séculos, os papas, com base na sua famosa ”infalibilidade”, centralizaram o impacto social que os acontecimentos históricos produziam em todo o Mundo. O historiador Thomas Babington, no seu estudo sobre a história do protestantismo, afirmava que os papas souberam centralizar a Igreja, assim como souberam amortecer o seu impacto nos eventos históricos. Este autor acentuava mesmo a habilidade da Igreja para se apropriar ou se adaptar aos novos movimentos sociais que se formaram durante os séculos.
O imperador Napoleão Bonaparte considerava o Papado como ”um dos melhores ofícios do Mundo”, e Adolf Hitler dizia ser ”um dos mais perigosos e delicados da política mundial”. Napoleão comparava a força de um único papa com a força de um exército de duzentos mil homens. Na verdade, o Papado actuou sempre com duas caras ao longo de toda a História: a de cabeça da Igreja Católica em todo o Mundo e a de uma das maiores organizações políticas do planeta. Por um lado, os papas abençoavam os seus fiéis, por outro, recebiam embaixadores e chefes de Estado de diversos países e enviavam núncios e legados em missões especiais.

Este poder levou muita gente a encarar os papas mais como ”pais dos príncipes” do que como ”vigários de Cristo”. Os pontífices clamavam desde o século VIII a primazia e a jurisdição universal para os seus actos, até que, em 1931, com a criação da Rádio Vaticano, se tornou possível essa primazia e essa jurisdição ao estabelecer um permanente contacto com o Mundo. Ao longo da Reforma, Lutero atacava o Papado como um mal humano desnecessário. O historiador católico lorde Acton criticava a excessiva centralização do Papado e, após uma viagem a Roma, afirmava que ”o poder corrupto e o poder absoluto corrompem absolutamente”.
A história da Santa Aliança - o serviço de espionagem do Vaticano - não pode ser relatada sem se contar a história dos papas e a história dos papas não pode ser descrita sem se contar a história da Igreja Católica. O que está claro é que sem o catolicismo o papa não existiria e, como disse Paulo VI na sua encíclica Ecclesiam suam, ”sem o papa a Igreja Católica talvez não fosse católica”. O que é realmente verdade é que sem o poder real que os papas tiveram não existiria a Santa Aliança ou o Sodalitium Pianum, a contra-espionagem. Ambos fizeram parte dessa engrenagem que ajudaram a construir: a Santa Aliança desde a sua fundação em 1566 por ordem do papa Pio V e o Sodalitium Pianum (S. P.) desde a sua criação em 1913 por ordem do papa Pio X. 
Um outro historiador, Cario Castiglioni, autor de uma das melhores enciclopédias sobre os papas, chegou a escrever: ”A tripla tiara que os pontífices usam simboliza, sem dúvida, o poder destes no céu, na terra e no mundo terreno (underworld)”. É fácil explicar esta afirmação: no céu, o papa tem Deus, na terra, o papa basta-se a si mesmo e na clandestinidade (underworld) (1) o papa tem a Santa Aliança.

Apesar de a autoridade papal se ter alterado com as modernizações e renovações, tanto políticas como económicas, os interesses da Igreja foram sempre o motivo pelo qual se movimentaram os espiões do Vaticano. Os peritos vaticanistas asseguram que a Igreja e as estruturas papais nunca abandonaram a sua imagem de Império, ao mesmo tempo que observam que os aspectos de culto pela figura de um imperador foram simplesmente transferidos para a figura do papa.

Os quarenta papas que governaram, ou melhor, ”reinaram” desde a criação da Santa Aliança, desde Pio V até João Paulo II, tiveram de se confrontar com as descristianizações e cismas, revoluções e ditadores, colonizações e expulsões, perseguições e atentados, guerras civis e guerras mundiais, assassínios e sequestros. A política dos papas era um objectivo e a Santa Aliança apenas um poderoso instrumento para a levar a cabo. Do século XVI ao século XVIII, os inimigos com os quais o Papado e a Santa Aliança tiveram realmente de se debater foram os liberalismos, os constitucionalismos, as democracias, os republicanismos ou os socialismos. Mas nos séculos XIX e XX esses inimigos converteram-se em darwinismo, americanismo, modernismo, racismo, fascismo, comunismo, totalitarismo ou revolução sexual. No século XXI será a intromissão dos cientistas nas próprias questões religiosas, o bloco político único, a superpopulação, o feminismo ou o agnosticismo social.

Este facto vem demonstrar que, muitas vezes, a política vaticana e o seu serviço secreto andaram em paralelo, utilizando diferentes métodos com o único propósito de alcançar um mesmo objectivo. Por um lado, o papa negociava a paralisação de medidas contrárias a Roma e, por outro, a Santa Aliança e a ”Ordem Negra” intervinham na destruição dos seus inimigos.
 David Rizzio, Lamberto Macchi, Roberto Ridolfi, William Parry, James Fitzmaurice, Marco António Massia, Giulio Alberoni, Alexandre de Médicis, Giulio Guarnieri, Tebaldo Fieschi, Charles Tournon, John Bell ou Giovanni DaNicola foram alguns dos agentes da Santa Aliança que, através das suas operações, mudaram o curso da História desde meados do século XVI até ao século XXI.

Ludovico Ludovisi, Lorenzo Maggaloti, Olimpia Maidalchini, Sforza Pallavicino, Paluzzo Paluzzi, Bartolomeo Pacca, Giovanni Battista Caprara, Annibale Albani, Pietro Fumasoni Biondi ou Luigi Poggi foram alguns dos poderosos chefes da espionagem pontifícia que decidiram e realizaram, sempre em defesa da fé, várias operações encobertas, crimes políticos e de Estado ou meras ”liquidações” de figuras secundárias que interferiam na política do papa vigente e na de Deus no mundo.

Foram assassinados reis, envenenados diplomatas, apoiados grupos em conflito como norma da diplomacia pontifícia, fecharam-se os olhos a catástrofes e holocaustos, foram financiados grupos terroristas e ditadores sul-americanos, protegeram-se criminosos de guerra e lavou-se dinheiro da Máfia, manipularam-se mercados financeiros e falências bancárias, condenaram-se os conflitos enquanto se vendiam armas aos combatentes, e tudo isso em nome de Deus. A Santa Aliança e o Sodalitium Pianum foram os seus instrumentos.

Desde que o inquisidor Pio V, santificado anos depois, fundou a espionagem do Vaticano no século XVI com o único objectivo de acabar com a vida da herege Isabel I de Inglaterra e de apoiar a católica Maria Stuart, o Estado Vaticano nunca reconheceu a existência da Santa Aliança ou da contra-espionagem, o Sodalitium Pianum, embora se possa dizer que as suas operações foram um ”segredo público”. Simon Wiesenthal, o famoso caça-nazis, disse numa entrevista que ”o melhor e mais efectivo serviço de espionagem que eu conheço no Mundo é o do Vaticano”. O cardeal Luigi Poggi, que era conhecido como ”o espião do Papa” (João Paulo II), foi quem levou a cabo uma das maiores modernizações da Santa Aliança devido aos estreitos contactos com o Mossad israelita. Graças à sua importância, o serviço secreto israelita pôde desarticular um atentado contra a primeira-ministra Golda Meir na sua visita a Itália. Poggi seria também o responsável por utilizar os fundos do Vaticano necessários, através do IOR de Paul Marcinkus, para financiar o sindicato ”Solidariedade” dirigido por Lech Walesa, que seria uma operação conjunta entre a CIA de William Casey e a Santa Aliança.

Nos seus cinco séculos de história, a extensa sombra da Santa Aliança tornou-se visível nas lutas contra a rainha Isabel I de Inglaterra ou na carnificina na noite de São Bartolomeu; na aventura da Armada Invencível, no assassínio de Guilherme de Orange e do rei Henrique IV de França; na Guerra de Sucessão espanhola ou na crise com a França dos cardeais Richelieu e Mazarino; no atentado contra o rei dom José I de Portugal; na Revolução Francesa e em Austerlitz; na ascensão e queda de Napoleão, na guerra de Cuba e na de Secessão americana; nas relações secretas com o kaiser Guilherme II durante a Primeira Guerra Mundial ou com Adolf Hitler na Segunda Guerra Mundial; com o ”Oiro da Croácia” e com a organização ”Odessa”; na luta contra o grupo terrorista ”Setembro Negro”, Carlos o Chacal ou o comunismo; nas obscuras finanças do IOR e nas muito mais obscuras relações com a Maçonaria, a Máfia e o tráfico de armas; na criação de empresas financeiras em paraísos fiscais ou no financiamento de ditadores de direita como Anastasio Somoza ou Jorge Videla.

Durante os últimos cinco séculos da sua existência, as sociedades secretas dependentes da Santa Aliança, como o ”Circulo Octogonus” ou a ”Ordem Negra”, realizaram várias operações encobertas para serviços de espionagem de outros países, como o Mossad israelita ou a CIA norte-americana. Enquanto lutavam contra um inimigo claro, o terrorismo árabe ou o ”maléfico” comunismo, a Santa Aliança adaptou-se aos tempos e às situações que marcaram os Sumos Pontífices, porque, como disse um dia o todo-poderoso cardeal Paluzzo Paluzzi, chefe da Santa Aliança em meados do século XVII, ”se o Papa ordena liquidar alguém na defesa da fé, faz-se isso sem fazer perguntas. Ele é a voz de Deus e nós [a Santa Aliança] somos a sua mão executora”.

Este livro é apenas um breve ”trajecto”, feito durante cinco séculos de história, através das operações encobertas do poderoso serviço de espionagem do Estado da Cidade do Vaticano. Os sacerdotes-agentes do serviço de espionagem papal, a Santa Aliança, e da contra-espionagem, o Sodalitium Pianum, mataram, roubaram, conspiraram e atraiçoaram em nome de Deus e da fé católica às ordens do Sumo Pontífice. Os espiões do papa foram o símbolo perfeito da simbiose sob cujo lema actuaram: ”Pela Cruz e pela Espada”. Todos os factos que nestas páginas se relatam são reais, tal como o são todas as personagens que nelas se referem.

(1) - A palavra inglesa underworld significa também, para lá do mundo terreno ou clandestino, inferno, gente de má vida, mundo do vício ou de baixa moral.


(Eric Frattini -  "A santa aliança, cinco séculos de espionagem do Vaticano)

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publicado às 15:39


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