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Identidade e morte

por Thynus, em 16.04.13

 

 

Para os gregos, o que caracteriza a morte é a perda da identidade. Os mortos são, antes de mais nada, “sem-nome” ou mesmo “sem-rosto”. Todos que deixam a vida se tornam “anônimos”, perdem a individualidade, deixam de ser pessoas. Ulisses, durante a sua viagem (direi mais adiante em quais circunstâncias), ao ser obrigado a descer aos infernos, onde estão aqueles que não têm mais vida, é tomado por surda e terrível angústia. Contempla horrorizado todo aquele povo no Hades. O que mais o preocupa é a indistinta massa de sombras que nada mais identifica. Aterroriza-o o barulho que fazem: um barulho confuso, um burburinho, uma espécie de rumor surdo dentro do qual não se pode reconhecer voz alguma e menos ainda qualquer palavra que faça sentido. É essa despersonalização que caracteriza a morte aos olhos dos gregos, e a vida boa deve ser, tanto quanto possível e pelo tempo que se puder, o contrário absoluto desse tom acinzentado infernal.
Pois a identidade de uma pessoa passa por três pontos cruciais, sendo o primeiro a sua inclusão em uma comunidade harmoniosa — um cosmos. Uma vez mais, o homem só é de fato homem entre os homens e, em exílio, ele nada é — por isso, aliás, o banimento da cidade, para os gregos, corresponde a uma condenação à morte, o castigo supremo que se inflige aos criminosos. Mas há uma segunda condição: a memória, as lembranças, sem as quais uma pessoa não sabe quem ela é. É preciso saber de onde viemos para saber quem somos e para onde devemos ir. O esquecimento se revela, com relação a isso, a pior forma de despersonalização que se possa conhecer em vida. É uma pequena morte em plena existência, e o amnésico é o ser mais infeliz da terra. Por último, deve-se aceitar a condição humana,(1) isto é, apesar de tudo, a finitude. O mortal que não aceita a morte vive em hybris, em descomedimento e com uma forma de orgulho que beira a loucura. Ele se imagina o que não é, um deus, um Imortal, como um louco se imagina César ou Napoleão.

(Luc Ferry - "A sabedoria dos mitos gregos")

(1) - "A exemplo de Ulisses, deve-se preferir a condição de mortal, em conformidade com a ordem cósmica, em vez da vida de imortal, entregue ao que os gregos chamam hybris, o descomedimento que nos afasta da reconciliação com o mundo. Deve-se viver com lucidez, aceitar a morte, viver de acordo com o que se é; na realidade, da mesma maneira com o que está fora de nós, em harmonia tanto com os seus próximos como com o universo. Isso é bem melhor do que ser imortal num lugar vazio, sem sentido, mesmo que paradisíaco, com uma mulher que não se ama, mesmo que seja sublime, longe dos seus e de seu “lar”, naquele isolamento simbolizao não apenas pela ilha, mas pela tentação da divinização e da eternidade que nos afastam do que somos e ainda do que nos envolve... 
 Inestimável lição de sabedoria para um mundo leigo como o nosso de hoje em dia, lição de vida em ruptura com o discurso religioso dos monoteísmos passados e futuros. É essa a mensagem que a filosofia terá também de traduzir como razão, para elaborar à sua maneira — não menos admiráveis doutrinas de salvação sem Deus, de vida boa para os simples mortais que somos —, que certamente não será a mesma da mitologia." ((Luc Ferry - "A sabedoria dos mitos gregos")

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