Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Ideologia

por Thynus, em 16.04.13

 


Há vários significados para o termo. Um dos mais abrangentes apresenta a ideologia como um sistema de “ideias” ou, mais exatamente, de crenças mais ou menos coerente. Considera ainda que as ideologias são formas de se entender o mundo e de se posicionar nele. Essa definição, porém, não é a única. Para muitos intérpretes, a ideologia, ao invés de esclarecer a realidade concreta, prejudica o seu entendimento. De qualquer modo, existe o consenso de que nenhuma sociedade é desprovida de crenças ou valores e a ideologia é parte desse sistema de valores mais amplos.

Em uma dada sociedade, não há uma “verdadeira” ideologia, mas várias. Os estudos culturais consideram que, mesmo na indústria cultural, os meios de comunicação de massa não expressam um único universo ideológico, mas sim uma pluralidade de ideologias e discursos. Muitos estudiosos defendem que não apenas classes sociais diferentes possuem ideologias específicas, mas que também frações de classe, etnias, grupos profissionais são portadores de ideologias particulares. Não negam a existência de uma ideologia dominante ou hegemônica, mas cada vez acreditam que, se não há ideologias que se opõem à ideologia hegemônica, existem pelo menos formas adaptativas e criativas elaboradas pelos diferentes grupos sociais para interpretar e se relacionar com tal ideologia dominante.

A noção de ideologia surgiu no final do século xviii, mas foi só no século xix que se desenvolveu em um número enorme de doutrinas sociais. Nesse momento começaram a se definir o liberalismo, o anarquismo, o Socialismo, o marxismo, o libertarianismo, o igualitarismo, entre outras ideologias que orientaram atitudes individuais e coletivas de explicação e intervenção na realidade. Ao longo do século xix, entretanto, o termo ideologia ganhou conotações pejorativas, em particular na visão marxista. Para Marx, a classe social economicamente dominante em uma época é também dominante em termos de ideologia, ou seja, domina a produção de ideias que permeiam o tecido social, justificando sua dominação. Assim sendo, na época de predomínio da nobreza dominava a ideologia aristocrática, e na época do domínio da burguesia capitalista, a ideologia dominante era a burguesa. Como resultado do domínio econômico da burguesia, e ajudando a consolidá-lo, surgiram novas formas de se pensar o Estado, a família, o trabalho, a liberdade, a democracia, a ciência, a técnica, a história etc. Marx, e muitos de seus seguidores, defendiam que o discurso burguês era ideológico, apenas aparentemente verdadeiro, mas que de fato ocultava a real exploração e os reais interesses dos grupos dominantes. Nesse sentido, o conceito marxista de ideologia tende a vê-la como forma de ocultamento da realidade, como algo que permite a exploração de classe e facilita a alienação das classes exploradas. E para escapar da ideologia dominante, seria necessário um uso combinado e revolucionário de teoria e prática. Sintetizando, Marx compreendeu a ideologia não como um conjunto solto de ideias, resultante unicamente do pensamento abstrato, mas como um instrumento da dominação de classe e como uma forma de luta de classes, que só poderia ser compreendida e criticada a partir do terreno histórico e econômico que lhe dá origem.

Adotando o conceito marxista de ideologia, Marilena Chaui apresenta pontos fundamentais dessa definição: a ideologia é um sistema ordenado de ideias ou representações, normas e regras, que aparece como algo separado e independente das condições materiais. Mas aí está o engano promovido pela ideologia, pois nenhuma ideia existe de fato sem relação com as condições materiais de existência. Ou seja, as ideias de alguém são ideias localizadas em determinada classe social, em determinada condição econômica e social. Assim, a ideologia aparece intimamente relacionada à alienação, no sentido de que os homens, iludidos pelas ideias dominantes, deixam de se reconhecer como agentes históricos. Chaui acredita, como Engels e Marx, que não basta tão só que haja uma mudança subjetiva na consciência dos homens para que se mude a realidade objetiva, a mudança deve partir da realidade objetiva, da ação não alienada que transforme as relações sociais reais. E nessa ação, a crítica à ideologia deve ter lugar, sendo relacionada com a prática política.

A autora demonstra assim a necessidade de “desmascarar” a ideologia burguesa, pois primeiro tal ideologia afirma que a educação é um direito de todos, mas, na realidade, as contradições do Capitalismo não permitem a realização dessa “ideia” ao separar o trabalho intelectual do manual. Segundo, a ideia burguesa afirma que o Estado é um consenso da comunidade, da sociedade civil para garantir unidade e harmonia entre as classes sociais, enquanto se oculta que ele é um instrumento de uma classe em particular (a dominante), uma forma de manutenção da divisão e das contradições de classe. A terceira ideia burguesa de trabalho afirma que este dignifica o homem, escondendo que as condições reais de trabalho, na sociedade capitalista, desumanizam, brutalizam, entorpecem o homem. Além disso, a ideia de que os homens são livres por natureza para escolher entre coisas ou situações dadas também é um engodo, pois as “condições dadas” não permitem que as pessoas escolham livremente, mas sob pressão da pobreza e miséria em que vivem. Por último, faz parte da ideologia burguesa a apologia do progresso, do avanço técnico e da “evolução” histórica que ele traz de modo contínuo, ocultando-se que progresso é apenas a realização do burguês enriquecido e nem sempre é “positivo” por si mesmo. Haveria ainda numerosas outras “máscaras” (a democracia, por exemplo) a encobrir a realidade, e seria necessário desmantelar a ideologia por uma prática política nascida dos próprios explorados. E em uma prática desse tipo seria fundamental a crítica da ideologia, preenchendo os silêncios e as lacunas do discurso ideológico.

No século xix, quando o sentido pejorativo do termo predominou, a ideologia era tida como uma forma de enganar, e muitas vezes uma ideologia atribuía a uma outra a alcunha de “ideológica”, esquecendo-se do paradoxo de que essa afirmação também é ideológica. Ao longo do século xx, entretanto, alguns pontos positivos também foram percebidos no conceito. A concepção marxista de ideologia foi cedendo lugar a outras concepções, mas o pressuposto marxista básico, de que se deve tomar cuidado com as aparências de uma ideia, e sempre perguntar quais são as “forças” que estão por trás dela, não foi abandonado. O que se questionou em Marx foi a separação que ele fez, excessivamente esquemática, entre o plano econômico/material (a base ou estrutura) e o plano das ideias políticas, jurídicas etc. (a superestrutura), considerando esta última determinada pela primeira.

Os estudos culturais, a partir da década de 1970, têm mostrado que uma mesma sociedade possui numerosos discursos e ideologias que se embatem, embora os meios de comunicação tendam a reproduzir a ideologia hegemônica. Esses mesmos estudos consideram ainda que a emissão de mensagens com conteúdos ideológicos pela mídia não garante uma única interpretação, podendo haver uma “autonomia relativa” por parte dos consumidores. Inspirados em autores como Antonio Gramsci, estudiosos estão definindo o sujeito não como alienado, mas como portador de experiências que lhe permitem, senão adotar uma ideologia própria, ao menos interpretar a seu modo a ideologia hegemônica. Dessa forma, rejeitando o marxismo, quando este afirma que as estruturas econômicas determinam a forma de pensar de uma dada sociedade, os autores culturalistas afirmam que na sociedade existem várias forças determinantes (inclusive a cultura) bem como que o ideológico não é mero reflexo das condições econômicas. Buscam demonstrar ainda os aspectos “positivos” da ideologia, como o fato de que ela assegura a coesão entre os membros de uma classe ou de uma Nação. Esclarecem também que a maioria dos textos de Marx trata das ideologias das classes dominantes, sem enveredar pelas ideologias dos grupos populares.

É relevante lembrar que foram autores de tradição marxista como Gramsci e Althusser que contribuíram para muitas das concepções dos estudos culturais, à medida que valorizaram mais os aspectos culturais e ideológicos das sociedades. Para Gramsci, além da dominação e reprodução social, a ideologia é um campo também de resistências, em que não necessariamente os dominados aderem à ideologia hegemônica, pois também entram no jogo do dominador a partir de seus próprios interesses. Já Althusser, compreendeu a cultura na sua “autonomia relativa” diante dos demais aspectos da sociedade, dando a entender que não havia uma única e decisiva “força determinante” na sociedade. Tanto no marxismo quanto nos Estudos Culturais há uma relação inevitável entre ideologia e poder.

A acusação de ser ideológico, frequente no século xix e século xx, dá a entender que certos movimentos sociais e políticos não têm uma fundamentação real e teoricamente sólida. Acusar o feminismo, por exemplo, de ser ideológico foi uma forma comum de diminuir sua influência na emancipação das mulheres, desacreditando, inclusive, os estudos e as pesquisas que muitas mulheres desenvolveram para mostrar a opressão feminina e as formas de superação. Durante muito tempo, as instituições universitárias opuseram rigidamente a “sua ciência” ao universo “ideológico” (portanto, político) do feminismo, fechando as portas às obras produzidas pelo feminismo. A oposição entre ciência e ideologia, entretanto, é só aparente: uma feminista da década de 1960 também poderia, com razão, acusar as universidades de serem um instrumento ideológico da dominação masculina, uma vez que o adjetivo ideológico se presta a muitos usos. Podemos nos questionar se a História, a Sociologia, a Antropologia e demais ciências sociais são formas neutras de compreensão da realidade e se os pesquisadores também não são ideológicos mesmo que digam que não o são. O próprio marxismo se tornou mais do que uma teoria explicativa da realidade, transformando-se em uma ideologia em vários sentidos.

Quando o papa faz um discurso fundamentado na religião condenando o aborto, e uma pesquisadora de formação feminista afirma que o aborto deve ser um direito de todas as mulheres, quem está sendo ideológico e quem não está? Esse é só um exemplo de como é difícil não ser ideológico quando os temas discutidos dizem respeito à política, à religião, à sexualidade, à economia etc. Falar em fim das ideologias, desse modo, soa também como ideológico. O professor de História deve compreender os sentidos do termo na cultura, por meio dos discursos e das representações sociais em quadros, fotografias, textos jornalísticos, programas de tv, propagandas etc. Tendo a ideologia sentidos positivos e negativos, podemos discutir frases cotidianas como “aquele político não tem ideologia” ou “esta é uma greve política”, usando esses elementos como ponto de partida simples para a compreensão de um conceito difícil como é o caso de ideologia.

(Kalina Vanderlei Silva, Maciel Henrique Silva - "Dicionário de conceitos históricos") 
 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:25



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D