Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Modernidade

por Thynus, em 15.04.13

 



A ideia de modernidade surge, segundo Jacques Le Goff, quando há um sentimento de ruptura com o passado. Nesse sentido, um dos primeiros pensadores a utilizar a ideia de modernidade foi Charles Baudelaire, escritor francês da segunda metade do século xix, autor de As flores do mal, que pensava a modernidade como as mudanças que iam se operando em seu presente, utilizando a palavra sobretudo para a observação dos costumes, da arte e da moda. Etimologicamente, entretanto, Andrew Edgar apresenta a modernidade como um termo derivado do latim modernus (significando recentemente), que desde o século v, com os escritos de Santo Agostinho, passou a ter diversos significados. Na origem, opunha-se ao passado pagão; a partir do século xvi, todavia, quando os eruditos revalorizaram a cultura pagã, ser moderno era se opor ao medieval e não ao antigo ou à Antiguidade. Os homens do século xvi julgavam estar vivendo em um mundo novo (moderno), embora o passado greco-romano devesse ser respeitado na construção desse novo mundo e do novo homem, liberto do “obscurantismo” medieval. Nesse sentido, a Era Moderna é de fato moderna, ao menos para os que nela viveram. Mas não se pode esquecer que o termo modernidade (modernitas) propriamente dito já aparece no século xii, referindo-se aos últimos cem anos então vividos e ainda presentes na memória dos contemporâneos. Apesar disso, modernidade é um conceito histórico que difere do sentido original da palavra e surgido com o Iluminismo, tendo seu ápice nos séculos xix e xx.
Podemos definir a modernidade como um conjunto amplo de modificações nas estruturas sociais do Ocidente, a partir de um processo longo de racionalização da vida. Nesse sentido, como afirma Jacques Le Goff, modernidade é um conceito estritamente vinculado ao pensamento ocidental, sendo um processo de racionalização que atinge as esferas da economia, da política e da cultura. Segundo Sergio Paulo Rouanet, a racionalização econômica levou o Ocidente a dissolver as formas feudais e pré-capitalistas de produção e a elaborar uma mentalidade empresarial fundamentada no cálculo, na previsão, nas técnicas racionais de contabilidade e de administração e na forma de trabalho livre assalariado. Enfim, a racionalização econômica se materializa no Capitalismo, desde o século xviii até nossos dias.
A racionalização política, por sua vez, apareceu com a substituição da autoridade descentralizada medieval pelo Estado moderno, com o sistema tributário centralizado, as forças militares permanentes, o monopólio da violência e da legislação pelo Estado e a administração burocrática racional. Com a passagem para o Estado liberal burguês, no século xviii, a dominação política deixou de estar vinculada ao carisma, ao Direito Divino, ao costume, à tradição, e passou a ser legitimada em fundamentos racionais, em um contrato, em regras estabelecidas pelos cidadãos. No plano cultural, aos poucos ocorreu o desencantamento do mundo: o mundo moderno só poderia ser entendido pela razão, sem necessitar recorrer a mitos, a lendas, ao temor, à superstição. Ou seja, a ciência ganhou um poder de compreensão do mundo que deveria permitir ao homem escapar de visões mágicas (fantasmas, bruxas, seres imaginários), derrubando os altares e instalando o reino da Razão.
Outra mudança que caracterizou a modernidade foi a separação e a autonomia entre a ciência, a moral e a arte. Antes, essas esferas de valor estavam embutidas na religião. Mas a partir da Idade Moderna, e principalmente com a contemporaneidade, a ciência deixou de precisar do respaldo (e dos limites) da religião; o comportamento moral também foi separado da religião, e o Ocidente começou desde então a acreditar que uma pessoa, para ser boa, não precisaria necessariamente ser religiosa. Ela poderia ser racionalmente boa e instituir para si mesmo normas de conduta que norteariam sua relação com o mundo e com as outras pessoas. Por outro lado, um homem muito religioso (fanático e dogmático) poderia fazer mal em nome de sua fé. Por fim, a arte se desvinculou da religião e encontrou formas autônomas de criação e divulgação, primeiro com o mecenato e posteriormente com a formação do mercado consumidor de arte, permitindo que o artista possa viver de modo independente de sua relação com a religião e com o mecenas.
Reconhece-se, em geral, a Ilustração como o fenômeno responsável pelo início da modernidade. A Reforma Protestante iniciou o processo de secularização do mundo Ocidental, mas foram os pensadores do século xviii que o laicizaram de vez. Na Reforma havia ainda o dogma do pecado original, os pavores e as incertezas da predestinação. O Iluminismo julgou não precisar mais da religião revelada, nem de Deus, para se portar no mundo. Esse projeto iluminista de modernização do mundo tinha duas vertentes, depois herdadas pelo liberalismo e pelo Socialismo: o aumento da eficácia e o aumento de autonomia. A primeira dimensão pregava a racionalização das ações dos homens e da relação entre estes e a natureza, que permitisse maior eficiência científica nas esferas de produção de bens e de administração política, o que seria possível com a técnica e a tecnologia. Em suma, essa dimensão instrumental e funcional garantiria um controle ilimitado do homem sobre a natureza e sobre outros homens. No entanto, a eficácia degenerou em dominação, e é atualmente muito criticada por ser responsável pelos estragos ecológicos que o planeta enfrenta, pela desumanização das relações sociais, pela violência e belicosidade entre as Nações, pelo tecnicismo frio da vida moderna, por ter colocado em risco de aniquilamento atômico toda a humanidade. Quando se fala em crise da modernidade, fala-se, sobretudo, na crise desse modelo da eficácia que foi, de fato, o projeto de modernidade que mais se efetivou desde o século xviii até nossos dias, defendendo uma ciência e uma técnica que são, elas mesmas, dominação.
Sobre a dimensão da autonomia, a modernidade defendia, e continua a defender, acima de tudo, a libertação do Homem, sem distinção de sexo, cor, raça, credo ou opinião. Pregava que a razão devia emancipar a humanidade, que a sociedade civil devia ser livre e atuar sobre uma sólida opinião pública que geraria tanto o dissenso como o consenso. Essa seria a modernidade ideal proposta pelo Iluminismo. No entanto, a modernidade realmente posta em prática pelo Ocidente desde o século xix, a chamada modernidade real gerada pelo liberalismo e pelo Socialismo, não foi capaz de emancipar o homem.
Os pensadores que defendem, como Sergio Paulo Rouanet, que o projeto iluminista de modernidade ainda não foi totalmente realizado, acreditam que a dimensão da eficácia conduziu a humanidade a um grande desenvolvimento material, ao passo que a dimensão da autonomia ficou no meio do caminho. Ou seja, o progresso material não foi acompanhado de maior liberdade, nem da emancipação do homem. E, aos poucos, como notou Edgar Morin, muito do que a modernidade iluminista projetou virou mito: a cultura de massa promoveu incontáveis imagens nas quais o amor, a felicidade, o bem-estar, o descanso, o lazer parecem possível a todos. A modernidade, assim, se tornou cultura de massas.
No âmbito da América Latina, as oligarquias agroexportadoras durante muito tempo construíram obstáculos ao processo de modernização em razão de seus interesses internos de dominação dos demais grupos sociais, apesar de ter sido essa mesma oligarquia que, no final do século xix, se propôs a modernizar as cidades, os transportes, o urbanismo latino-americano. Apesar disso, a educação formal, considerada uma das principais ferramentas para a modernização de uma sociedade, permaneceu como privilégio de minorias. Néstor Canclini chega mesmo a sugerir que o continente só se modernizou no limiar da década de 1990. Seja como for, nem mesmo a modernidade instrumental, baseada na eficácia, se realizou plenamente em todos os países. Fora da América Latina, outras regiões têm problemas semelhantes: até podemos falar de um Egito “moderno”, mas reconhecendo que muitos traços da cultura tradicional dos países muçulmanos resistiram ao avanço da modernização que lhes parecia, não sem razão, uma ocidentalização que serviria aos interesses dos países ocidentais. Já no Japão, a modernização, segundo Le Goff, foi equilibrada, com a adoção de técnicas ocidentais e a manutenção de valores próprios, ao passo que nos países muçulmanos ela foi conflitual, ou seja, atingiu apenas parte da população e gerou tensões com as tradições antigas, com a identidade cultural dessas Nações. Na África negra, por sua vez, o que existiu foi uma modernização tateante, com fracas e inadequadas tentativas de modernização promovidas pelas elites.
Falar em modernidade é pisar em um terreno de contradições, pois esse conceito é muitas vezes posto em oposição ao de tradição, que pode ser considerada de um ponto de vista saudosista ou como algo retrógrado. Por um lado, em determinadas circunstâncias, o discurso modernizador, em particular em sua vertente da eficácia, do progresso, torna-se apenas uma ilusão para muitas pessoas, ou aparece como algo destrutivo e opressor (o progresso técnico pode ser antiecológico e promover a desigualdade social). Mas, por outro, a tradição também pode conter elementos muito conservadores das relações de dominação entre pais e filhos, homens e mulheres, grupos dominantes e dominados etc., enquanto a modernidade, em sua vertente da autonomia, propõe a igualdade e a liberdade.
Assim, o professor de História tem em mãos um tema polêmico, atual e abrangente, que toca em nossas vidas diretamente. O desafio é como associar temas como cidadania, ética, ciência, política, democracia, felicidade, liberdade em sua relação com a modernidade entendida como um momento histórico que, para alguns autores ainda não acabou, mas também como um projeto universalista de libertação da humanidade. Podemos trabalhar com os alunos a modernidade real, presente nas instituições políticas que nos regem, na nossa vida pessoal, nos valores que defendemos, nas utopias que ainda pairam no ar, no ceticismo de muitos, no bombardeio de informações dos meios de comunicação de massa etc. Além disso, para discutir a modernidade há um leque bastante amplo de possibilidades de pesquisa: podemos trabalhar a ética, a ecologia, a industrialização, as tradições populares e a resistência cultural e o choque de culturas.
(Kalina Vanderlei Silva, Maciel Henrique Silva - "Dicionário de conceitos históricos")

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 23:30



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D