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Os ritos da beleza feminina

por Thynus, em 09.04.13

 

 

As revistas transmitem o mito da beleza como um evangelho de uma nova religião. Ao lê-las, as mulheres participam na recriação de um sistema de crenças tão poderoso quanto o de qualquer das igrejas cuja influência sobre elas se desfez tão rapidamente.
A Igreja da Beleza é, como a Donzela de Ferro, um símbolo duplo. As mulheres a abraçaram com entusiasmo como um meio de preencher o vazio espiritual que se abriu quando sua tradicional relação com a autoridade religiosa se esgarçou. Com entusiasmo proporcional, a ordem social a impõe para suplantar a autoridade religiosa como uma força de controle sobre as vidas das mulheres.
Os Ritos da Beleza combatem a recente liberdade das mulheres, opondo-se ao seu ingresso no mundo secular com superstição medieval, mantendo as desigualdades de poder mais intactas do que poderiam estar se não fosse por eles. À medida que as mulheres entram em luta com um mundo que está chegando a um novo milênio, elas são cada vez mais oprimidas por um poderoso sistema de crenças que mantém parte de sua consciência presa a uma forma de pensar que o mundo masculino abandonou na Idade Média. Se uma consciência está centrada num sistema medieval de crenças e uma outra inteiramente moderna, o mundo contemporâneo e seu poder pertencerão a esta última. Os Ritos são arcaicos e primitivos para que o cerne da consciência feminina possa se manter arcaico e primitivo.
Também os homens respeitam essa religião das mulheres. O sistema de castas baseado na "beleza" é defendido como se tivesse origem em alguma verdade eterna. Isso é presumido por pessoas que não encaram o mundo com esse tipo de fé categórica em mais nada. Neste século, a maioria dos campos do pensamento foi transformada pela compreensão de que as verdades são relativas e as percepções, subjetivas. No entanto, a correção e a permanência do sistema de castas da "beleza" não são questionadas por pessoas que estudam física quântica, etnologia, direitos civis; por ateus, por quem tem atitude cética para com os telejornais e não acredita que a Terra foi criada em sete dias. Acredita-se no sistema sem questioná-lo, como um artigo de fé.
O ceticismo da época moderna desaparece quando o assunto é a beleza feminina. Ela ainda é descrita — na verdade mais do que nunca antes — como se não fosse determinada por seres mortais, moldada pela política, pela história e pelo mercado, mas, sim, como se houvesse uma autoridade divina lá em cima que emitisse um mandamento imortal sobre o que faz uma mulher ser agradável de se ver.
Essa "verdade" é vista como Deus costumava ser visto — no alto de uma hierarquia, com sua autoridade o ligando a seus representantes na terra: jurados de concurso de beleza, fotógrafos e, em último lugar, o homem comum. Mesmo ele, o último elo, tem uma parte dessa autoridade divina sobre as mulheres, como o Adão de Milton tinha sobre Eva: "ele por Deus, e ela por Deus nele". O direito de um homem de julgar a beleza de qualquer mulher, enquanto ele próprio não é julgado, não é questionado porque é considerado divino. Tornou-se de tamanha importância que a cultura masculina o exerça porque ele é o último direito não contestado a permanecer intacto dentre a antiga lista dos privilégios masculinos: aqueles que se acreditava terem sido concedidos por Deus, pela natureza ou alguma outra autoridade absoluta para que todos os homens exercessem sobre todas as mulheres. Dessa forma, esse direito é exercido diariamente com severidade muito maior para compensar os outros direitos sobre as mulheres e as outras formas de controlá-las, hoje perdidos para sempre.
Muitos escritores perceberam as semelhanças metafísicas entre os rituais da beleza e os rituais religiosos. A historiadora Joan Jacobs Brumberg observa que o estilo mesmo dos primeiros livros de regimes "ressoava com referências aos conceitos religiosos de tentação e pecado'' e "repetia lutas calvinistas"; Susan Bordo fala de "a esbeltez e a alma"; a historiadora Roberta Pollack Seid pesquisa a influência sobre a "cruzada para perda de peso" do evangelismo cristão no "aumento espetacular de grupos e livros para perda de peso, de inspiração evangélica". (O Sistema de Jesus para Controle do Peso, A resposta de Deus à gordura — Perca-a, Reze e o peso desaparece, Mais de Jesus e menos de mim, e Ajude-me, Senhor — o Diabo me quer gorda!).' 'Nossa nova religião'', escreve ela a respeito da histeria do controle do peso, "... não oferece a salvação, somente um ciclo interminável de pecado e redenção precária."
O que ainda não foi reconhecido é que essa comparação não deveria ser nenhuma metáfora. Os rituais da reação do sistema contra o feminismo não imitam simplesmenteos cultos e religiões tradicionais, mas os suplantam sob o aspecto funcional. Eles estão literalmente reconstituindo uma nova fé a partir de antigas crenças, estão literalmente recorrendo a técnicas tradicionais de mistificação e controle do pensamento para transformar as mentes das mulheres de forma tão radical quanto qualquer onda evangélica do passado.
Os Ritos da Beleza são uma inteligente combinação de vários cultos e religiões. No tocante às religiões, esta é mais vigorosa e mais sensível às mudanças nas necessidades espirituais dos fiéis do que a maioria delas. Nela está amalgamada uma miscelânea de itens de diversas crenças, que são abandonados quando não mais cumprem sua função. Como o mito maior, a estrutura dessa religião se transforma com flexibilidade para se contrapor aos vários desafios que lhe impõe a autonomia feminina.
Suas imagens e seu método são uma imitação grosseira do catolicismo medieval. A ascendência que ela alega ter sobre as vidas das mulheres é papal em seu absolutismo. Sua influência sobre as mulheres modernas, como a da igreja medieval sobre toda a cristandade, vai muito além da alma do indivíduo para moldar a filosofia, a política, a sexualidade e a economia dos nossos tempos. A igreja deu forma e conteúdo não só à vida religiosa, mas a todos os eventos da comunidade, não tolerando nenhuma divisão entre o secular e o religioso; os Ritos permeiam os dias da mulher moderna de forma igualmente rigorosa. À semelhança da igreja medieval, acredita-se que os Ritos sejam baseados num credo tão palpável quanto a Pedra do Vaticano: que existe essa coisa chamada beleza, que ela é sagrada e que as mulheres deveriam procurar alcançá-la. As duas instituições são ricas, vivendo de dízimos. Nenhuma das duas perdoa os hereges e os pecadores impenitentes. Os membros das duas igrejas aprendem o catecismo desde o berço. As duas precisam de uma fé incondicional por parte de seus seguidores a fim de se manterem.
Por sobre essa raiz de catolicismo falsamente medieval, os Ritos da Beleza foram acumulando alguns novos elementos: um luteranismo em que as modelos de moda são as Eleitas, e as restantes de nós as Amaldiçoadas; uma adaptação episcopal às exigências do consumismo, na qual as mulheres podem aspirar ao paraíso através de boas obras (lucrativas); um judaísmo ortodoxo de compulsões à pureza, na exegese minuciosa e trabalhosa de centenas de leis com seus comentários sobre o que comer, o que vestir, o que fazer ao corpo e em que momento; e um núcleo baseado nos mistérios elêusicos na cerimônia da morte e do renascimento. Por cima de tudo isso, foram fielmente adaptadas as técnicas de doutrinação das seitas modernas. Suas grosseiras manipulações psicológicas ajudam a conquistar adeptos numa era refratária a profissões de fé espontâneas.
Os Ritos da Beleza conseguem isolar as mulheres tão bem porque ainda não é publicamente reconhecido que as devotas estão presas a algo mais sério do que uma moda e de maior penetração social do que uma deformação pessoal da própria imagem. Os Ritos ainda não são descritos em termos do que realmente representam: um novo fundamentalismo que transforma o Ocidente secular, tão repressor e dogmático quanto qualquer réplica sua no Oriente. À medida que as mulheres vão lidando com uma hipermodernidade à qual só recentemente foram admitidas, uma força que é de fato uma hipnose de massa lança sobre elas seu peso total para forçá-las a uma visão de mundo medieval. Enquanto isso, a enorme catedral em cuja sombra elas vivem nem chega a ser mencionada. Quando outras mulheres se referem a ela — em tom de desculpas, num sussurro — elas o fazem apenas como se estivessem descrevendo uma alucinação que todas as mulheres podem ver, e não uma realidade concreta cuja existência ninguém reconhece.
Os Ritos conquistaram as mentes femininas na esteira do movimento das mulheres porque a opressão detesta o vácuo. Eles devolveram às mulheres o que elas haviam perdido quando Deus morreu no Ocidente. Na última geração, a transformação dos costumes sexuais liberou as restrições religiosas sobre o comportamento sexual da mulher. O declínio no comparecimento à igreja a partir do pós-guerra e o colapso da família tradicional reduziram a capacidade da religião de ditar um código moral para as mulheres. Na perigosa ausência momentânea da autoridade religiosa, ficou implícito o risco de que as mulheres poderiam aplicar a autoridade na tradição conciliatória e comunitária que Carol Gilligan pesquisou em sua obra In a Different Voice. Essa reivindicação de autoridade moral bem poderia levar as mulheres a promover duradouras mudanças sociais de acordo com seus princípios e a ter a fé para chamar essas mudanças de vontade divina. A compaixão poderia substituir a hierarquia; um respeito tradicionalmente feminino pela vida humana poderia prejudicar seriamente uma economia baseada no militarismo e um mercado de trabalho baseado no uso de pessoas como recursos descartáveis. As mulheres poderiam reformular a sexualidade humana como prova da natureza sagrada do corpo em lugar da sua natureza pecaminosa, e a crença antiga e persistente que equipara a feminilidade à profanação poderia se tornar obsoleta. Para evitar tudo isso, os Ritos da Beleza recentemente assumiram a tarefa que a tradicional autoridade religiosa não conseguia mais cumprir com convicção. Ao instilar nas mulheres uma força policial interior, a nova religião muitas vezes se sai melhor no controle das mulheres do que as religiões mais antigas.
A nova religião teve rápida expansão, tirando proveito da momentânea sensação de perda de objetivo moral, ao recriar para as mulheres em termos físicos os antigos papéis sociais nos quais as "boas mulheres" eram valorizadas: mães, filhas e esposas castas e abnegadas. Funções mais antigas de defesa da decência — do que é "adequado" — e da distinção entre o que é decente e indecente foram recriadas sob forma ritual. Nos últimos vinte e cinco anos, à medida que a sociedade em geral se libertava das restrições da tradicional moralidade religiosa, o antigo código moral — de abrangência reduzida, mais contraído do que nunca, mas com suas funções inalteradas — cingiu ainda mais os corpos femininos.
De sua parte, muitas mulheres acolheram bem essa prisão reconfortante em diversos níveis. Novas religiões se disseminam com o caos social, e as mulheres estão criando normas num mundo que destruiu as antigas verdades. Essa religião lhes devolveu o sentido de importância social, os vínculos entre as mulheres e a confortável estrutura moral perdida com a antiga religião. A competição no mundo externo premia a amoralidade, e as mulheres precisam se adaptar para ter sucesso. Os Ritos da Beleza, porém, proporcionam à mulher que trabalha uma forma de levar uma ordem moral particular e inócua a um papel no qual um excesso de escrúpulos antiquados pode sabotar sua carreira. As mulheres, enquanto profissionais no mundo secular, ficam muitas vezes isoladas. Já no papel de seguidoras de uma religião elas compartilham um vínculo confortável.
A sociedade em geral já não atribui importância religiosa à virgindade de uma mulher ou à sua castidade conjugal. Ela não lhes pede que confessem seus pecados ou que mantenham uma cozinha meticulosamente kosher. Nesse ínterim, depois da destruição do pedestal da "boa" mulher, mas antes que ela tivesse acesso ao verdadeiro poder e autoridade, ela foi destituída do antigo contexto no qual lhe eram atribuídos os louros da importância e do elogio. As mulheres devotas haviam sido de fato chamadas de "boas" (muito embora só fossem "boas" desde que continuassem sendo devotas). No entanto, na época secular que acompanhou paralelamente o movimento das mulheres, embora elas não mais ouvissem todos os domingos que eram amaldiçoadas, também raramente ouviam que eram "santas". Enquanto Maria havia sido "bendita... entre as mulheres", e a mulher forte do judaísmo ouvia que "seu valor excedia o dos rubis", tudo que a mulher moderna pode esperar ouvir é que ela está divina.
Os Ritos da Beleza também seduzem as mulheres por atenderem à sua atual avidez por poesia e cor. À medida que elas abrem caminho em meio a um espaço público masculino, que é muitas vezes prosaico e emocionalmente estagnado, os sacramentos da beleza brilham com maior intensidade do que nunca. Como seu tempo é invadido por exigências de todos os tipos, os produtos rituais lhes fornecem um álibi para reservar algum tempo para si mesmas. O que oferecem de melhor é um sabor de mistério e sensualidade que compensa as mulheres pelos dias passados sob a luz árida do local de trabalho.
As mulheres foram preparadas para receber os Ritos pelo seu relacionamento histórico com a igreja. Desde a Revolução Industrial, a "esfera separada" à qual as mulheres eram relegadas atribuía a religiosidade especificamente à feminilidade. Isso, por sua vez, justificava o isolamento das mulheres de classe média da vida pública. Já que as mulheres eram classificadas como o "sexo puro", elas podiam ser obrigadas a ficar fora da batalha diária, preocupadas apenas com a manutenção dessa pureza. Da mesma forma, as mulheres hoje em dia são classificadas como o "belo sexo", o que as relega a uma preocupação de utilidade semelhante com a proteção da sua "beleza".
A feminilização pós-industrial da religião não dava, porém, às mulheres a autoridade religiosa. "Os Puritanos... adoravam um deus patriarcal, mas... nas igrejas da Nova Inglaterra havia mais mulheres do que homens", escreve a historiadora Nancy Cott em The Bonds of Womanhood, observando que enquanto a maioria feminina cresceu durante todo o século XIX, a hierarquia da igreja permaneceu "estritamente masculina". A feminilização da religião se intensificou paralelamente à secularização do mundo masculino. "Qualquer que tenha sido a expansão vivida pelo sistema religioso protestante nos Estados Unidos após a Guerra de Secessão, ela foi estimulada pelas mulheres e não pelos homens", afirma Joan Jacobs Brumberg. Até a geração atual, as mulheres não eram aceitas para a função de ministro ou de rabino. Até recentemente, elas eram instruídas a aceitar sem questionamento as interpretações religiosas masculinas sobre o que Deus quer que elas façam. Desde a Revolução Industrial, seus papéis envolveram não apenas a obediência religiosa, como também o humilde apoio às atividades da igreja, que incluía, segundo Ann Douglas em sua obra The Feminization of American Culture, a manutenção de cultos à personalidade do padre ou ministro local. Em suma, as mulheres têm uma curtíssima tradição de participação na autoridade religiosa, e uma longuíssima tradição de submissão a essa autoridade. Embora raramente controlassem os lucros, elas muitas vezes colaboraram com o pouco que tinham, sem questionamentos.
A religiosidade da mulher vitoriana servia à mesma intenção dupla dos Ritos. Do ponto de vista de uma sociedade dominada pelos homens, essa religiosidade mantinha as energias de mulheres instruídas e ociosas da classe média afastadas da rebeldia, de forma inócua e até mesmo útil. Do ponto de vista daquelas mulheres, a religiosidade emprestava significado a vidas improdutivas sob o aspecto econômico. A economista britânica Harriet Martineau observou a respeito das mulheres americanas de classe média que elas seguiam "a religião como uma ocupação" por serem impedidas de exercer todo o seu potencial de forças morais, intelectuais e físicas de outra forma. Nancy Cott escreve que "a morfologia da conversão religiosa sintonizava com a submissão e resignação esperadas das mulheres, enquanto oferecia uma confiança extremamente satisfatória às convertidas". Essa mesma saída sedutora funciona de maneira idêntica nos nossos dias.
A predisposição contrária às mulheres na tradição judaico-cristã deixou um terreno fértil para o surgimento da nova religião. Sua misoginia fazia com que as mulheres, muito mais do que os homens, tivessem de abolir o pensamento crítico se quisessem ser fiéis. Ao recompensar a humildade intelectual da mulher, ao acusá-las de pecado e culpa sexual e ao lhes oferecer a redenção apenas através da submissão a um mediador masculino, ela entregou à religião em surgimento um legado de credulidade feminina.

(Naomi Wolf - "O mito da beleza - como as imagens de beleza são usadas contra as mulheres")

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publicado às 17:28



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