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Pergunta: Tenho só 21 anos. Preciso usar o Niôsome Système contra o envelhecimento?
Resposta: Claro que sim. As causas do envelhecimento já começaram, mesmo que os sinais ainda não estejam visíveis.
Pergunta: Tenho mais de 45 anos. Já não é tarde demais para usar o Niôsome Système contra o envelhecimento?
Resposta: Nunca é tarde demais.

 

 

Os Ritos da Beleza redefinem o pecado original, não mais por se nascer mortal, mas por se nascer mulher. Antes da reação do sistema, as meninas e as velhas eram dispensadas de participar na adoração, ficando, portanto, fora das fileiras de consumidoras em potencial. Os Ritos, no entanto, reformularam o pecado original de modo que nenhuma jovem pudesse achar ser cedo demais para se preocupar com as marcas da feiúra feminina — envelhecimento ou gordura — invisíveis em seu interior desde o nascimento, esperando o momento de se revelarem. Nem pode a mulher mais velha considerar os Ritos coisa do seu passado. Os cremes para a pele e os livros de regimes recorrem à linguagem da parábola do filho pródigo para extrair sua moral. Apesar da vida desregrada da pecadora, ela nunca é abandonada, e nunca é tarde demais para que se arrependa. Se nunca é cedo demais nem tarde demais para ignorar os Ritos, não existe nenhum ponto na vida de uma mulher em que ela possa viver sem culpa, pronta para contaminar outras mulheres com seu comportamento relaxado.
Um exemplo desse ardil teológico está na tabela "científica" da Clinique, que relaciona as seguintes categorias sob o título "Rugas": Muitas, Algumas, Poucas, Muito Poucas. Não existe uma categoria para Nenhuma. É inconcebível a idéia de que alguma jovem possa estar ilesa. O fato de existir como mulher, mesmo como menina adolescente, significa estar em deterioração.
O efeito de'vendas dessa condição eqüivale ao da doutrina cristã. Só se pode contar com as contribuições de um devoto para sustentar uma igreja se ele se sentir culpado. Não se pode confiar que uma mulher vá gastar dinheiro com "consertos" se ela não se sentir deteriorada. O pecado original é a fonte da culpa. A culpa e o sacrifício que lhe é conseqüente formam o eixo central também desse novo sistema religioso. Os anúncios direcionados aos homens são eficazes por adularem seu amorpróprio, enquanto os anúncios desses produtos rituais funcionam, como o fazem os anúncios dirigidos para as mulheres em geral, fazendo com que as mulheres se sintam tão culpadas quanto possível. Dizem eles que a única responsabilidade moral pelo seu envelhecimento ou pela sua silhueta está nas suas próprias mãos. "Mesmo as expressões mais inocentes — incluindo apertar os olhos, piscar e sorrir — têm seu preço" (Clarins). "Desde 1956, não há mais desculpas para a pele seca" (Revlon). "Você ri, chora, franze a testa, se preocupa, fala? (Clarins). "Não está óbvio o que você deveria fazer pela sua pele agora?" (Terme di Saturnia). "Pare de maltratar a sua pele" (Elizabeth Arden). "Um busto melhor depende de você" (Clarins). "Assuma o controle da sua silhueta" (Clarins).
Outros escritores também mencionaram a seguinte comparação. Kim Chernin em The Obsession faz a pergunta, "É então possível que nós nos nossos dias nos preocupemos com a alimentação e o peso da forma que nossas avós e seus médicos se preocupavam com a sexualidade feminina?" O que ainda não foi investigado, porém, é a elevada fonte dessas ansiedades e sua verdadeira função. A cultura moderna reprime o apetite oral da mulher da mesma forma que a cultura vitoriana, através dos médicos, reprimia o apetite sexual feminino: do alto da estrutura do poder para baixo, com um objetivo político. Quando a atividade sexual feminina perdeu seus valiosos castigos, os Ritos tomaram o lugar do medo, da culpa e da vergonha que as mulheres sabiam que deveriam sempre acompanhar o prazer.
O pecado original nos deixou a culpa de natureza sexual. Quando a revolução sexual se uniu ao consumismo para criar a nova geração de mulheres sexualmente disponíveis, tornou-se necessária uma imediata relocalização física da culpa feminina. Os Ritos da Beleza suplantam praticamente todas as proibições judaico-cristãs com relação ao apetite sexual através de um tabu equivalente com relação ao apetite oral. Todo o drama do desejo, da tentação, da capitulação, do pavor de que "apareça", dos esforços desesperados de eliminar as "provas" do corpo e em última análise de ódio a si mesma pode ser imaginado quase sem alterações como a realidade sexual da maioria das moças solteiras até a legalização do aborto e da prática anticoncepcional bem como a perda do estigma do sexo pré-conjugal; ou seja, até há uma geração antes desta.
Na igreja, muito embora os homens sofressem a tentação do desejo sexual, as mulheres eram descritas como sua perversa encarnação. Da mesma forma, embora os homens tenham apetite e engordem, o apetite oral da mulher é a concretização social da vergonha.
"Os tabus relacionados à menstruação", escreve Rosalind Miles. "... significavam que durante um quarto de suas vidas adultas, uma semana a cada quatro, as mulheres dos tempos antigos eram regularmente estigmatizadas e isoladas, consideradas incapazes e barradas da vida na sua sociedade." O período menstrual definia as mulheres como impuras, repugnantes sob o aspecto sexual durante "aqueles dias", irracionais e inadequadas para cargos públicos. As mulheres hoje em dia se sentem diminuídas e excluídas pelos "dias gordos" do seu ciclo do peso, o que serve ao mesmo objetivo por caracterizar as mulheres mesmo para si mesmas como seres sem força de vontade, depravadas e sem atração sexual. Enquanto os tabus relacionados à menstruação mantinham as mulheres fora da vida pública, hoje em dia elas se escondem. No judaísmo ortodoxo, uma mulher em niddah, impureza menstrual, é proibida de fazer as refeições com a sua família. A impureza da gordura funciona de forma idêntica.
As leis de impureza sexual em geral cederam lugar a tabus quanto a impureza oral. As mulheres se mantinham genitalmente castas para Deus; agora elas se mantêm oralmente castas para o Deus da Beleza. O sexo dentro do casamento para a procriação era aceitável, enquanto o sexo pelo prazer era pecaminoso. As mulheres hoje fazem a mesma distinção entre comer para sobreviver e comer por prazer. Os dois pesos, duas medidas, que permitiam ao homem maior liberdade sexual do que às mulheres se transformou num critério em que os homens têm maior liberdade oral. Uma moça sexualmente impura era uma "caída"; hoje as mulheres têm uma "recaída" de seus regimes. As mulheres "enganavam" os maridos; agora "trapaceiam" nas suas dietas. Uma mulher que come algo "proibido" está "se comportando mal". Ela poderá dizer "É só por essa noite". A expressão "Pequei no meu coração" se transforma em "É só eu olhar para um". "Eu simplesmente não sei dizer não", declara a modelo no anúncio de gelatina Jell-O, o que "faz com que eu me sinta bem dizendo sim." Com as bolachas Wheat Thin, "Você não precisa se detestar pela manhã". O rosário se transformou num contador de calorias. As mulheres costumam dizer, "Tenho estrias para mostrar que pequei". Enquanto antigamente ela podia comungar se cumprisse uma penitência sincera e completa, agora uma mulher pode fazer alguma coisa "desde que tenha sinceramente se esforçado no regime e na ginástica". O estado da sua gordura, como no passado o estado do seu hímen, é uma preocupação da comunidade. "Oremos por nossa irmã" se transformou em "Nós todos vamos incentivá-la a perder esse excesso de peso".

(Naomi Wolf - "O mito da beleza - como as imagens de beleza são usadas contra as mulheres")

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publicado às 14:13


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