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Examinada sumariamente, a idade moderna parece ter transposto todas as escalas de valor. Na realidade, modificou principalmente os seus nomes. Os fiéis dos velhos cultos lamentam a diminuta fé das novas gerações. Nunca, entretanto as multidões tenham manifestado uma necessidade de crer mais profunda do que em nossa época. Tornando-se fé política, a fé religiosa mudou muito pouco. A crença no milagre, a mística adoração de forças sobrenaturais permaneceu idêntica. A providência estatista herdou da antiga providência divina.
Uma crença ordinária é um ato de fé. Aplicado a um ente superior ou a uma divindade, ele se complica com a necessidade de submissão e de adoração. Crer e adorar são, muitas vezes, sinônimos.
O crente tende sempre a divinizar o objeto da sua adoração. Marat, cujo cadáver devia ser lançado pouco tempo depois ao esgoto, foi deificado logo após a sua morte e litanias piedosas foram compostas em sua honra. Napoleão representava para os seus soldados um deus invencível. As relíquias das vitimas das repressões anarquistas são adoradas pelos seus fieis.
Uma crença só se torna verdadeiramente popular quando é concretizada sob a forma de seres ou objetos que se devem venerar. Foi o que claramente se observou durante a Revolução. Uma das suas primeiras preocupações constituiu em achar uma divindade que substituísse as antigas. A deusa Razão, primeiramente escolhida, teve o seu culto em Notre-Dame, com cerimônias muito semelhantes às que desde séculos aí se celebravam.
Essa época - nunca o repetiríamos demasiado - só será compreendida, se percebermos bem o papel desempenhado, então, pelo misticismo do povo e dos seus agitadores. Robespierre, encarnação típica da estreita mentalidade religiosa do seu tempo, julgava-se um apóstolo, que recebera do céu a missão de estabelecer o reino da virtude. Muito deísta, muito conservador e grão-sacerdote infalível de uma nova teocracia, supunha um dever sagrado imolar implacavelmente "os inimigos da virtude" e, como outrora os pontífices da Inquisição, não excluía ninguém. Os seus discursos faziam incessantemente apelo ao Ente Supremo. O seu agente Couthon invocava também a cada instante o Altíssimo.
Os tribunais revolucionários apresentaram estreita semelhança com os da Inquisição. Não adoravam inteiramente os mesmos deuses, mas nutriam os mesmos ódios e visavam o mesmo objetivo: a supressão dos infiéis.
Mostrei suficientemente em precedentes obras a evolução do socialismo para uma forma religiosa; é inútil insistir aqui nesse ponto. Se o socialismo possuísse alguma divindade precisa que cumprisse adorar, o seu êxito seria muito mais rápido.
Os seus apóstolos reconhecem instintivamente essa necessidade, mas, não ousando oferecer à adoração popular a cabeça do principal teórico da doutrina, o judeu Karl Marx, eles se voltaram para a deusa Razão. Reproduzi na minha Psicologia Política, um trecho do jornal socialista l'Humanité, a qual nos oferece que, na sessão com que se inaugurou uma escola socialista, o jovem professor da Sorbonne encarregado da primeira lição "dirigiu, como convinha, uma invocação à deusa Razão".
Infelizmente, as divindades abstratas nunca seduziram as multidões, e é por isso que a religião socialista possui dogmas, mas ainda espera o seu deus.
Ele não se fará esperar muito tempo. Os deuses surgem, quando se tornam necessários.
A força da nova crença é sobretudo devida, já o disse várias vezes, à circunstância de ser herdeira das concepções cristãs. Os dogmas socialistas receberam dos primeiros cristãos, com o seu misticismo, a necessidade de igualdade, o altruísmo e o ódio das riquezas. O parentesco entre as duas doutrinas é tal que, na Bélgica, o catolicismo se tornou o resoluto aliado do socialismo. Ele favorece abertamente as paredes operárias e anima a luta das classes.
Os apóstolos da fé socialista têm, igualmente, o tom ardente e profético dos primeiros defensores do cristianismo. Não me refiro apenas às publicações de vulgares sectários, mas às de homens instruídos. Tive ensejo de citar, no meu último livro, fragmentos característicos de um escrito dessa natureza, publicado por um professor do Colégio de França, convertido, como outrora Polyeucte, à fé nova e desejo de destruir os falsos deuses. A sua leitura mostra bem o que o próprio sábio não pode penetrar no ciclo da crença, sem que veja dissipar-se a sua moderação e o seu espírito crítico. Tendo descido de muitos graus na escala mental, ele perde a justa impressão das realidades. Absurdos, violências, impossibilidade não o poderiam impressionar, penosamente, porque ele cessa de vê-los.
É inútil recriminar. A crença é uma dominadora irresistível e sua atração se exerce desde que o homem se aproxima da sua esfera de ação.
Tenazes ou transitórias, as crenças representaram sempre, repito-o ainda, os grandes fatores da vida das nações. Não se governa um povo com idéias verdadeiras, mas com crenças tidas como verdadeiras. Pilatos, hoje, já não formularia sem dúvida a pergunta, à qual nenhum filósofo jamais respondeu definitivamente. Ele diria que, sendo a verdade o que se crê, toda a crença estabelecida constitui uma verdade. Verdade provisória, sem dúvida, mas é com verdades dessa ordem que o mundo tem sido sempre conduzido.

(Gustave Le Bon - "Opiniões e crenças")

 

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