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O medo é um sentimento universal: todos sentem, e diversos estudos demonstram ser uma emoção primária (inata) do ser humano, necessária para proteção e perpetuação da espécie. Está incrustada em nosso DNA e faz parte da nossa existência. Sua abrangência vai desde a decisão de lutar ou fugir até o acúmulo traiçoeiro que deságua no estresse e na ansiedade, levando ao esgotamento físico e mental. Como visto, um estímulo que desperte o medo é capaz de, em frações de segundos, munir o corpo inteiro de adrenalina e prepará-lo para uma rápida reação física.
As respostas físicas e mentais ao medo eram tão essenciais para a sobrevivência de nossos antepassados primitivos que permanecem de forma intensa e muito poderosa até os dias atuais. Infelizmente a manutenção dessa resposta adaptativa, com tamanha intensidade, quase sempre se torna inapropriada no mundo moderno. Afinal, ao evoluirmos, como espécie e civilização, deveríamos ter deixado para trás a necessidade de uma reação tão excessiva. No entanto, nossa reação ao medo continua a se manifestar de forma quase idêntica àquela vivenciada pelos nossos ancestrais mais longínquos.
Ao reagirmos, frequentemente de forma exacerbada, aos contratempos e às dificuldades do dia a dia, acabamos por adoecer, uma vez que o excesso de hormônios de estresse (cortisol e adrenalina) pode ocasionar aumento da pressão arterial, doenças cardíacas, enxaquecas, alergias, úlceras, pânico, fobias, entre outros. O que, nos tempos primitivos, era um supersistema de proteção, essencial para o homem da época, transformou-se em uma poderosa arma, cuja potência o homem moderno tem de aprender a desativar ou, pelo menos, a reduzir seu poder de fogo. Sendo assim, existem casos nos quais essa reação perde sua função protetora e ganha força e status de uma situação definitivamente ameaçadora dentro da mente.
Se observarmos as pessoas, de modo geral, podemos perceber que o nível de ansiedade é um traço que caracteriza a personalidade de cada um. Desta forma, vemos pessoas com atitudes mais tranquilas diante de situações de perigo ou ameaçadoras. Em contrapartida, percebemos, em outras, atitudes exacerbadas diante das mesmas situações ou, no mínimo, bastante similares. O momento exato em que manifestamos ansiedade (o chamado estado de ansiedade) pode ser considerado um momento de ruptura ou quebra em relação à nossa condição emocional básica. Esta quebra nos faz cair em uma espécie de abismo, no qual experimentamos desconforto emocional intenso.
É possível estabelecer a velha dialética entre o ser e o estar. Ser ansioso é possuir sensação de tensão, apreensão e inquietação, dominando todos os demais aspectos de nossa personalidade. Estar ansioso é tudo isso acompanhado por manifestações orgânicas tais como palpitações (taquicardia), suor intenso (sudorese), tonturas, náuseas, dificuldade respiratória, extremidades frias etc.
Assim, os transtornos de ansiedade correspondem aos estados de ansiedade (estar ansioso) em indivíduos que possuem uma personalidade ansiosa de fundo ou base (ser ansioso). Logo, fisiologicamente pensando, quando o ser se une ao estar em uma personalidade já ansiosa, estados severos de desconforto e sofrimento são gerados.
Os transtornos de ansiedade são os rebentos, não desejados, de um casamento que sempre terá de evoluir para um divórcio, às vezes doloroso, mas sempre libertador. Eles podem assumir múltiplas formas, porém todos possuem uma matriz comum, que é a personalidade ansiosa. Esta constatação que, à primeira vista, parece relativamente óbvia só teve seu reconhecimento pela ciência médica há muito pouco tempo, quando se criou o termo espectro da ansiedade, que agrupou os diferentes transtornos sob um mesmo teto.
Segundo a Associação de Psiquiatria Americana (APA), os transtornos de ansiedade são vários, e a principal característica deles, além da presença de ansiedade, é o comportamento de esquiva, ou seja, a pessoa tende a evitar determinadas situações nas quais a ansiedade exacerbada pode deflagrar. Dentro desse leque, o medo patológico pode se manifestar de diversas formas e em graus de intensidade diferentes, tais como:

• Súbitos ataques de pânico, que podem evoluir para o transtorno do pânico.
• Fobia social ou timidez patológica, na qual as pessoas percebem ameaças potenciais em situações sociais e em exposição em público.
• Medos diversos ou fobias simples, cuja ameaça provém de estímulos bem específicos (animais, lugares fechados, chuvas, avião etc.).
• Transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), quando vivemos experiências traumáticas significativas (sequestros, perdas de entes queridos, acidentes etc.).
• Transtorno de ansiedade generalizada (TAG), que se caracteriza por um estado permanente de ansiedade, sem qualquer associação direta com situações ou objetos específicos.
• Transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), no qual a mente é invadida por pensamentos intrusivos e sempre de conteúdo ruim (obsessões), que desencadeiam rituais repetitivos e exaustivos (compulsões), na tentativa de exorcizar tais ideias.

Todos eles têm em comum a presença de sintomas físicos (taquicardia, sudorese, tontura, cólica, náusea, falta de ar) e sintomas psíquicos (inquietação, irritabilidade, sobressalto, insegurança, insônia, dificuldade de concentração, sensação de estranheza).
Além dos transtornos anteriormente citados, outras patologias também são descritas em manuais específicos de classificação de doenças mentais e fazem parte dos transtornos de ansiedade. Contudo, não serão objetos deste livro, uma vez que me propus a desvendar ao leitor somente aqueles com os quais me deparo com mais frequência na prática clínica e que considero de maior relevância.
Os transtornos de ansiedade ocorrem com uma frequência muito alta na população em geral. Recentes estudos norte-americanos, de abrangência significativa, revelaram que 25% das pessoas apresentam algum tipo de transtorno de ansiedade ao longo de suas vidas. A primeira reação diante dessa estatística é assustadora; afinal, trocando em miúdos, o que eles evidenciaram é que um quarto da população mundial sofre ou sofrerá algum tipo de transtorno ansioso durante toda a sua existência. Mas, infelizmente, esses dados refletem e atestam a mais absoluta realidade.
O que pode deixar as pessoas com a “pulga atrás da orelha” em relação a um percentual tão grande assim é o fato de que grande parte dos indivíduos que apresentam transtorno de ansiedade não procura tratamento, além de tentar esconder seus sintomas das outras pessoas. Isso não é muito difícil de explicar, uma vez que os transtornos de ansiedade mais comuns são as fobias simples, também chamadas de específicas (medo de insetos, animais etc.) e a fobia social (medo de falar e de se expor em público). Se considerarmos que muitos eventos sociais e o contato com animais podem ser evitados, é provável que um número razoável de pessoas que sofram de tais transtornos jamais procurará tratamento. Somente quando o medo anormal (patológico) passa a interferir de forma acentuada no cotidiano do indivíduo, com prejuízos concretos nos setores social, afetivo e profissional, é que ele sente a necessidade de procurar ajuda especializada.

(Ana Beatriz Barbosa Silva - "Mentes ansiosas")

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publicado às 04:00



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