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Cotidiano

por Thynus, em 07.04.13

 



É comum o cotidiano ser entendido como o dia a dia, como algo que envolve monotonia e repetição. Entretanto, cotidiano é mais do que o dia a dia e, além disso, ele pode também ser o lugar da mudança.
Há pouco consenso na definição de cotidiano. Para Certeau, por exemplo, o cotidiano se compõe de numerosas práticas ordinárias e inventivas e não seguem necessariamente padrões impostos por autoridades políticas ou institucionais. Já para Agnes Heller, a vida cotidiana é a vida de todo homem, e todos já nascem inseridos na sua cotidianidade, na qual participam com toda sua personalidade: com todos os sentidos, capacidades intelectuais, habilidades manipulativas, sentimentos, paixões, ideias, ideologias. Heller identifica e delimita as partes que constituiriam a vida cotidiana como a organização do trabalho e da vida privada, os lazeres e o descanso, a atividade social sistematizada, o intercâmbio e a purificação.
Durante o século xix e as primeiras décadas do xx, os historiadores entenderam como legítimos apenas os estudos de História Política e Econômica. O cotidiano não era então uma preocupação. Mas no decorrer do século xx, as renovações conceituais e metodológicas da História propiciaram abertura para os estudos do cotidiano, que começaram a ganhar espaço com a corrente historiográfica chamada Nova História. Daí em diante, intensificaram-se os estudos de temas como a família, o papel da disciplina, as mulheres e os significados dos gestos cotidianos. Para Maria Izilda Santos de Matos, a historiografia começou, então, a estudar o poder em outros espaços, não apenas nas instituições públicas e no Estado, mas também na esfera do privado e do cotidiano.
Os historiadores começaram também a redefinir os espaços políticos, não mais pensados apenas como “política institucional”, mas valorizando a esfera do cotidiano como um espaço igualmente politizado. Se antes as preocupações dos historiadores se restringiam ao estudo da macropolítica, as resistências miúdas e quase invisíveis do cotidiano passaram, com a Nova História, a ser objeto legítimo de pesquisa, e muitos personagens antes ocultos – porque não participavam diretamente dos aspectos da vida pública – passaram a ter suas vozes e gestos reconstituídos. Mulheres, prisioneiros, loucos, marginais e muitos outros “esquecidos” podiam enfim ter sua história contada.
Apesar de hoje contarmos no Brasil com excelentes estudos relativos à dimensão da cotidianidade, tais esforços não foram seguidos pelo desenvolvimento de uma reflexão teórica acerca do tema, como afirma Silvia Regina Ferraz Petersen. Para a autora, o termo cotidiano não está sendo definido pelos autores que o empregam. Ocorre que cada autor recorta a realidade social a seu modo, fragmentando o cotidiano para sua investigação particular.
Mas então, de que se compõe o cotidiano? Como separá-lo – se isso é possível ou mesmo desejável – de outras esferas, como a política e a economia? Há alguma organização na vida cotidiana que nos permita criar um método que a compreenda? Para definir cotidiano, temos de pensar essas questões, mas sempre considerando, como Maria Odila Dias, que qualquer método que suponha estabilidade, equilíbrio e funcionalidade no cotidiano talvez seja muito rígido para explicá-lo. Apesar disso, muitos estudiosos se esforçam para entender as “regras” do cotidiano.
Michel de Certeau, por exemplo, pensa o cotidiano como o lugar da invenção. Para ele, as pessoas comuns, em seu anonimato, em sua invisibilidade, possuem imensa criatividade para elaborar práticas cotidianas que as fazem interpretar o mundo a seu modo e forjar microrresistências e microliberdades que se opõem às estruturas de dominação dos poderes e das instituições. Para Certeau, o cotidiano só pode ser pensado como um lugar prenhe de interpretações, de desvios que transformam os sentidos reais em sentidos figurados. Dessa forma, as pessoas comuns podem, no cotidiano, subverter a racionalidade do poder, agindo de forma sub-reptícia e engenhosa. Se, para muitos estudiosos, o cotidiano é o lugar da opressão e do controle social, em que criaturas submissas se comportam uniformemente a partir de imposições sociais, para Certeau, no entanto, os indivíduos encontram brechas no cotidiano para driblar a opressão com táticas sutis e silenciosas. Para o autor, devemos ver não só opressão e disciplina por todo lado, mas também o cotidiano como o espaço de surpresas interessantes, de resistências miúdas quase imperceptíveis, de antidisciplinas que são formas criativas de sobreviver e de inteligências acionadas nas mais diversas situações.
Já para Agnes Heller, a vida cotidiana está no centro do acontecer histórico, e ela seria a própria substância da história. Até as grandes ações não cotidianas – a proclamação da República brasileira, por exemplo – partiriam da vida cotidiana e a ela retornariam. A façanha histórica, afirma a autora, só pode ser considerada como tal devido a seu posterior efeito na cotidianidade. Podemos notar, assim, que tanto em Heller como em Certeau, apesar das diferenças, o conceito de cotidiano não é entendido isoladamente. Para esses estudiosos, aspectos cotidianos e não cotidianos se interpenetram na realidade social. Se Certeau se preocupa com a relação entre práticas cotidianas ordinárias que ressignificam os valores e as normas de instituições e autoridades, Heller, por sua vez, percebe que em nenhuma esfera da atividade humana se pode separar com rigidez o comportamento cotidiano do não cotidiano. Do mesmo modo, se Certeau identifica o caráter múltiplo e inventivo das práticas cotidianas, Heller afirma que a vida cotidiana é mesmo cheia de alternativas e supõe escolhas feitas muitas vezes de forma improvisada. E enquanto Heller postula a ideia de que há um “pensamento” próprio no cotidiano – nunca atingindo o nível da teoria, mas fundamentado basicamente no pragmatismo –, Certeau, por sua vez, imagina o cotidiano como o lugar de uma cultura peculiar, uma linguagem própria. Por fim, para Agnes Heller, algumas das características básicas da vida cotidiana seriam o pragmatismo, a espontaneidade e a imitação – pois reproduzimos muitos dos atos pelo costume. Já Certeau enfatiza a inventividade, ou seja, a resistência feita no cotidiano, com base em leituras inteligentes da vida e do mundo.
Do exposto até aqui, percebemos que ainda não existe um conceito definitivo de cotidiano. Mas é possível realizarmos algumas distinções entre o cotidiano e outras esferas da vida humana. Nele, práticas de trabalho, lazer, resistência, religiosidade, visões sobre a vida e sobre a morte, modos de morar, falar – só para mencionar alguns dos seus múltiplos aspectos – compõem um quadro rico em que a reflexão do professor/pesquisador pode ser ativada. E embora existam muitas dificuldades, pensar o cotidiano nos níveis Fundamental e Médio pode ser uma forma atraente de fazer os estudantes sentirem uma história mais humana, mais próxima de sua realidade concreta. E, para isso, as estratégias de ensino-aprendizagem são infinitas com a inventividade de cada professor e com a realidade de cada escola. Mas há algumas abordagens da História do Cotidiano que estão ao alcance de quase todos os professores: o trabalho com fontes históricas diversas que retratem o cotidiano de períodos passados, desde textos de cronistas, gravuras e fotografias até registros da cultura material expostos em museus, como móveis, roupas, utensílios domésticos etc. Todavia, não devemos estudar o cotidiano de forma isolada ou enfatizando o lado “pitoresco” do passado. É preciso abordá-lo em sua íntima relação com as questões culturais, sociais, econômicas e políticas de cada época e sociedade.

(Kalina Vanderlei Silva, Maciel Henrique Silva - "Dicionário de conceitos históricos") 
 

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publicado às 16:22



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