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Na parede da memória
essa lembrança é o quadro
que dói mais

(BELCHIOR — Como nossos pais)


No trajeto de nossa jornada, todos nós vivenciamos, de uma forma ou de outra, experiências difíceis ou traumáticas. No entanto, por mais doloroso que tenha sido o momento vivenciado, nem sempre esse trauma é capaz de desencadear uma doença, mesmo que a sua recordação seja inevitável. De forma diversa, os pacientes que sofrem de transtorno de estresse póstraumático (TEPT) são capazes não somente de recordar as imagens do ocorrido, como também reviver e remoer, de forma intensa, persistente e sofrível, toda a dor que os abateu. É o flashback do tormento!
Os portadores do TEPT são pessoas que passaram por eventos de natureza excepcionalmente ameaçadora ou catastrófica; testemunharam a morte de perto; correram risco de vida; vivenciaram momentos de violência ou fatos violentos como assaltos, sequestros, acidentes de carro, desastres naturais, guerras, torturas psicológicas e/ou físicas, abusos sexuais etc., corroborados por sentimentos de impotência, medo e horror. São fatos que os marcaram profundamente e que desencadearam uma série de sintomas físicos e psíquicos, sinalizando que o trauma não foi superado. A ferida ainda está aberta e sangrando!
Para melhor entender como isso ocorre, imagine a nossa memória como se fosse uma estrutura lisa e plana. Em suas camadas mais profundas estão armazenados todos os fatos que aprendemos, vivenciamos, vimos, ouvimos e sentimos. Enfim, sensações e acontecimentos que estão ali registrados e que podemos “buscar”, quando necessitamos ou somos induzidos a encontrá-los. Já na superfície dessa estrutura lisa e plana, encontra-se tudo aquilo que usamos no dia a dia e que se processa de maneira automática e espontânea. Quando dirigimos um carro, por exemplo, não precisamos nos lembrar de como se passa a marcha, como se pisa no freio ou no acelerador. Quem já está acostumado com o ato de dirigir sabe que tudo se processa automaticamente. Andamos, comemos, bebemos, lidamos com os utensílios domésticos e tantas outras coisas cotidianas através do mesmo processo: de forma automática.
Com esse mesmo mecanismo, associamos nossos sentidos (paladar, olfato, tato, audição e visão) às diversas possibilidades de reação que podemos ter em nossas vidas, de acordo com a ocasião. Ninguém precisa sair “catando” lembranças na memória feito um louco e desvairado para entender que o jantar está pronto quando sente o cheiro gostoso da comidinha no fogão. Tampouco é necessário algum tipo de raciocínio consciente para retirarmos rapidamente a mão quando a encostamos em uma panela quente.
Contudo, quando somos vítimas de um trauma severo, forma-se uma espécie de “calo” naquela superfície lisa, que incomoda e nos faz lembrar o tempo todo que ele existe. Quem consegue se esquecer de um calo no dedãodo pé, que dói a todo instante, ainda com sapato apertado? É praticamente impossível não se lembrar do calo, como também do próprio pé.
Essa analogia serve para compreendermos o que acontece no transtorno de estresse pós-traumático. É natural que as pessoas que vivenciaram situações traumáticas necessitem de um tempo de adaptação para que as experiências “paralisantes” e dolorosas possam ser processadas, diluídas e cicatrizadas, o que, em média, dura menos de um mês. Mas, para quem sofre do transtorno em si, aquela saliência na superfície da memória plana (que usamos de forma automática) frequentemente traz à tona todas as lembranças do ocorrido. O agente estressor (evento traumático) perpetua-se de forma intensa, provocando sequelas psíquicas em suas vítimas e mostrando sinais evidentes de que ele continua vivo na memória e com o dedo no gatilho.
Estar cara a cara com o perigo e sob o risco de exposição a eventos traumáticos faz parte da nossa condição humana desde o início da evolução da nossa espécie. Quem poderá afirmar que os nossos parentes mais longínquos (homens pré-históricos) também não foram vítimas do TEPT? Afinal, eles necessitavam da caça para a sobrevivência e se deparavam com os mais terríveis predadores e seus inesperados ataques. Porém, não é preciso ir muito longe para entender o que o trauma pode representar na vida de alguém, uma vez que nas últimas décadas tivemos um aumento considerável na prevalência do transtorno de estresse pós-traumático na população como um todo.
A mídia está aí o tempo todo anunciando as guerras, os conflitos, os massacres, os sequestros, os franco-atiradores – quase de forma trivial e corriqueira. No entanto, a banalização da violência não impede que muitos de nós reflitamos sobre o real sofrimento de cada sobrevivente ou parente e sobre os prejuízos morais que dizem respeito à existência humana. Como será que esses trágicos destinos marcarão e conduzirão a vida de cada um deles dali para frente? Sonhos que escorrem pelas mãos, adaptação às novas mudanças. São os perversos reflexos da “força bruta” dos tempos modernos, que não distinguem credo, raça, sexo e idade, mas que infelizmente estão cada vez mais em alta. Como nos disse muito bem Vinicius de Moraes, ao se referir às consequências da bomba atômica sobre o Japão: “Pensem nas crianças, mudas telepáticas. Pensem nas meninas, cegas inexatas. Pensem nas mulheres, rotas alteradas.”
É de se esperar que, quanto maior a gravidade do evento, maior a chance de a vítima desenvolver o TEPT. Felizmente, a maior parte das vítimas de uma experiência traumática não desenvolve o transtorno. A predisposição para que o transtorno se instale varia de indivíduo para indivíduo e está muito relacionada à sensibilidade emocional de cada um, bem como ao tipo de atividade que exerce ou aos grupos de risco em que esteja inserido (determinadas profissões, militares, policiais etc.).
Uma pessoa emocionalmente mais sensível, depressiva ou com problemas de ansiedade prévios, por exemplo, pode desenvolver o TEPT mesmo que o estímulo traumático tenha sido pouco severo. Em contrapartida, determinadas pessoas que vivenciam experiências traumáticas de grande monta superam-nas de forma relativamente rápida e seguem o curso normal de suas vidas, sem prejuízos significativos. São as predisposições pessoais e a capacidade individual de lidar com situações adversas que determinam quem cairá ou não nas “redes” implacáveis do transtorno.
Embora o TEPT só tenha sido reconhecido oficialmente como doença pela Associação de Psiquiatria Americana em 1980, diversos cientistas já percebiam seus sintomas ainda no século XIX, tanto que, desde então, recebeu diversas denominações. Os sintomas característicos do TEPT foram exaustivamente estudados em ex-combatentes das grandes guerras, sobreviventes dos campos de concentração nazistas, Guerra do Vietnã, entre tantos outros conflitos. Em função disso, por muito tempo foi batizado de “neurose traumática ou de guerra”.
O reconhecimento como enfermidade distinta pelas entidades internacionais foi determinante para compreendermos que a perturbação psíquica decorrente de uma experiência difícil não é, em absoluto, uma simples fraqueza do indivíduo. Existe, de fato, um agente externo, que é deflagrador do TEPT e, portanto, a ajuda especializada, envolvendo medicações, psicoterapia e intervenções sociais, é fundamental.
O depoimento de Cristina, 35 anos, executiva, vítima de um sequestrorelâmpago há alguns anos, retrata bem as consequências de um trauma na vida de uma pessoa:

O que deveria levar somente alguns minutos demorou aproximadamente 16 horas de extremo sofrimento. Voltando de uma reunião de negócios, por volta das 19 horas, fui abordada em uma autoestrada por um carro com três homens armados até os dentes, obrigando-me a parar no acostamento. Quanta ousadia! No meio de uma estrada movimentada, é simplesmente inacreditável! É pura ficção de cinema!
Rapidamente dois deles invadiram meu carro e eu já estava no banco de trás, abaixada e com uma arma na cabeça. Saíram em alta velocidade e senti que estávamos fora da estrada. Era o mato, o breu, e meu carro era o próprio cativeiro. Levaram minha bolsa, todos os meus pertences, e limparam minha conta bancária. Foi a noite mais longa da minha vida. Falavam alto, ameaçavam me matar, discutiam sobre o que fazer com o dinheiro, esperavam os “chefões” chegarem, ouviam músicas alto e repetidas, incendiaram meu carro. Por volta das 11 horas fui libertada e não sei como tive essa sorte. Corri o mais que pude e, sem nada no bolso ou nas mãos, estava indo sem destino. Recebi, no caminho, ajuda de um senhor que percebeu meu sofrimento.
No dia seguinte, estava estampado nos jornais o ocorrido. Enquanto eu era refém, minha família, amigos e colegas de trabalho se movimentaram o tempo todo. Sabiam que algo estranho havia acontecido.
Minha vida de lá pra cá virou um inferno! Felizmente meu desempenho profissional não caiu. Mas as cenas não me saem da cabeça, tenho pesadelos constantes, vivo sobressaltada, parei de dirigir, não consigo mais ouvir música e nunca mais voltei àquela estrada. Meus prazeres sumiram e não me divirto mais, não sorrio mais. Tudo perdeu a graça e afastei-me dos meus amigos. Só procurei ajuda depois de muita insistência do meu marido. Meu casamento está desmoronando.

Histórias parecidas com o relato acima, em maior ou menor grau, infelizmente, são cada vez mais comuns. Podemos dizer que atualmente o TEPT é diagnosticado com relativa frequência nos consultórios de psiquiatria do mundo todo e está tomando força expressiva, a exemplo do que ocorreu com a depressão e o pânico.

(Ana Barbosa Silva - "Mentes ansiosas")

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publicado às 14:21



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