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Confiança e Identidade Pessoal

por Thynus, em 02.04.13

Com o desenvolvimento dos sistemas abstratos, a confiança em princípios impessoais, bem como em outros anônimos, torna-se indispensável à existência social. A confiança impessoalizada deste tipo é discrepante da confiança básica. Há uma forte necessidade psicológica de achar outros em quem confiar, mas as conexões pessoais institucionalmente organizadas estão faltando em relação às situações sociais prémodernas. A questão aqui não é primordialmente a de que muitas características sociais que faziam parte anteriormente da vida cotidiana ou do "mundo da vida" foram retiradas e incorporadas a sistemas abstratos. Pelo contrário, o tecido e a forma da vida cotidiana foram remodelados em conjunção com outras grandes mudanças sociais. As rotinas que são estruturadas por sistemas abstratos têm um caráter vazio, amoralizado — isto vale também para a idéia de que o impessoal submerge cada vez mais o pessoal. Mas não se trata simplesmente de uma diminuição da vida pessoal em prol de sistemas impessoalmente organizados — mas de uma transformação genuína da própria natureza do pessoal. Relações pessoais cujo principal objetivo é a sociabilidade, informadas pela lealdade e autenticidade, tornam-se uma parte das situações sociais de modernidade da mesma forma que as instituições abrangentes de distanciamento tempo-espaço.

 

É bastante errôneo, contudo, realçar a impessoalidade dos sistemas abstratos contra as intimidados da vida pessoal como a maior parte das explicações sociológicas correntes tendem a fazer. A vida pessoal e os laços sociais que ela envolve estão profundamente entrelaçados com os sistemas abstratos de mais longo alcance. Tem sido há muito o caso, por exemplo, de as dietas ocidentais refletirem intercâmbios econômicos globais: "cada xícara de café contém em si toda a história do imperialismo ocidental". Com a globalização acelerada dos últimos cinqüenta anos mais ou menos, as conexões entre vida pessoal do tipo mais íntimo e mecanismos de desencaixe se intensificaram. Como observou Ulrich Beck: "O que há de mais íntimo — digamos, amamentar uma criança — e de mais distante, mais geral — um acidente nuclear na Ucrânia, política energética — estão agora, de súbito, diretamente conectados" (UIrich Beck, "The Anthropological Shock: Chernobyl and the Contours of the Risck Society," Berkeley Journal of Sociology 32 (1987).

 

O que significa isto em termos de confiança pessoal? A resposta a esta questão é fundamental para a transformação da intimidade no século XX. A confiança em pessoas não é enfocada por conexões personalizadas no interior da comunidade local e das redes de parentesco. A confiança pessoal torna-se um projeto, a ser "trabalhado" pelas partes envolvidas, e requer a abertura do indivíduo para o outro. Onde ela não pode ser controlada por códigos normativos fixos, a confiança tem que ser ganha, e o meio de fazê-lo consiste em abertura e cordialidade demonstráveis. Nossa preocupação peculiar com "relacionamentos", no sentido em que a palavra é agora tomada, é expressiva deste fenômeno. Relacionamentos são laços baseados em confiança, onde a confiança não é pré-dada mas trabalhada, e onde o trabalho envolvido significa um processo mútuo de auto-revelação.
Dada a força das emoções associadas à sexualidade, dificilmente chega a surpreender que os envolvimentos eróticos tornem-se um ponto focal para esta autorevelação. A transição para as formas modernas de relações eróticas é tida geralmente como associada à formação de um ethos de amor romântico, ou ao que Lawrence Stone chama de "individualismo afetivo". O ideal do amor romântico é descrito com competência por Stone como se segue:

 

a noção de que há apenas uma pessoa no mundo com a qual pode-se unir em todos os níveis; a personalidade dessa pessoa é tão idealizada que as falhas e tolices da natureza humana desaparecem de vista; o amor é como um relâmpago e atinge à primeira vista: o amor é a coisa mais importante no mundo, em relação a qual todas as outras considerações, particularmente as materiais, devem ser sacrificadas; e por último, entregar as rédeas a emoções pessoais é admirável, não importa o quão exagerada e absurda a conduta resultante possa parecer aos outros (Lawrence Stone, The Family, Sex and Marriage in England 1500-1800).

 

Assim caracterizado, o amor romântico incorpora um feixe de valores dificilmente imaginável em sua totalidade. Ao invés de ser um ethos associado de maneira contínua à ascensão das instituições modernas, ele parece essencialmente ter sido um fenômeno de transição, vinculado a uma fase relativamente inicial na dissolução das formas mais antigas de casamento arranjado. Aspectos do "complexo de amor romântico", como descritos por Stone, têm demonstrado ser bastante duráveis, mas cada vez mais emaranhados com as dinâmicas de confiança pessoal acima descritas. As relações eróticas envolvem um percurso progressivo de descoberta mútua, em que um processo de auto-realização de quem ama é tanto uma parte da experiência quanto a intimidade crescente com quem é amado. A confiança pessoal, por conseguinte, tem que ser estabelecida através do processo de autoquestionamento: a descoberta de si tornar-se um projeto diretamente envolvido com a reflexividade da modernidade.

 

Interpretações da busca da auto-identidade tendem a divergir da mesma forma que as concepções do declínio da comunidade, às quais estão freqüentemente vinculadas. Alguns vêem a preocupação com o autodesenvolvimento como uma ramificação do fato de que as velhas ordens comunais foram rompidas, produzindo uma preocupação narcisista, hedonista, com o ego. Outros chegam à mesma conclusão, mas relacionam este fim a formas de manipulação social. A exclusão da maioria das arenas onde as políticas de maior conseqüência são elaboradas e as decisões tomadas força uma concentração sobre o eu; este é um resultado da falta de poder que a maioria das pessoas sente. Nas palavras de Christopher Lasch:

 

Conforme o mundo vai assumindo um aspecto cada vez mais ameaçador, a vida torna-se uma interminável busca de saúde e bem-estar através de exercícios, dietas, drogas, regimes espirituais de vários tipos, auto-ajuda psíquica e psiquiatria. Para aqueles que perderam o interesse pelo mundo exterior, exceto na medida em que ele permanece uma fonte de gratificação e frustração, o estado de sua própria saúde torna-se uma preocupação totalmente absorvente (Christopher Lasch, Haven in a Heartless World (New York: Basic, 1977).

 

É a busca da auto-identidade uma forma algo patética de narcisismo, ou ela é, ao menos em parte, uma força subversiva quanto às instituições modernas? A maior parte do debate sobre o tema tem se concentrado nesta questão, e devo voltar a ela no final deste estudo. Mas por enquanto devemos notar que há algo errôneo na afirmação de Lasch. Uma "busca de saúde e bem-estar" dificilmente soa compatível com "perderam o interesse pelo mundo exterior". Os benefícios do exercício ou da dieta não são descobertas pessoais mas vêm da recepção por parte do leigo, do conhecimento perito, como ocorre no apelo da terapia ou da psiquiatria. Os regimes espirituais em questão podem ser um conjunto eclético, mas incluem religiões e cultos de várias partes do mundo. O mundo exterior não apenas entra aqui; ele é um mundo exterior vastamente mais extensivo em função daquilo com o que qualquer um possa ter tido contato na era pré-moderna.

 

Sumariando tudo isto, a transformação da intimidade envolve o seguinte:

 

1. Uma relação intrínseca entre as tendências globalizantes da modernidade e eventos localizados na vida cotidiana —uma conexão dialética, complicada, entre o "extensional" e o "intensional".

 

2. A construção do eu como um projeto reflexivo, uma parte elementar da reflexividade da modernidade; um indivíduo deve achar sua identidade entre as estratégias e opções fornecidas pêlos sistemas abstratos.

 

3. Um impulso para a auto-realização, fundamentado na confiança básica, que em contextos personalizados só pode ser estabelecida por uma "abertura" do eu para o outro.

 

4. A formação de laços pessoais e eróticos como "relacionamentos", orientados pela mutualidade de auto-revelação.


5. Uma preocupação com a auto-satisfação, que não é apenas uma defesa narcisista contra um mundo externo ameaçador, sobre os quais os indivíduos têm pouco controle, mas também em parte uma apropriação positiva de circunstâncias nas quais as influências globalizadas invadem a vida cotidiana.

(Anthony Giddens - "Modernidade e Identidade") 

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publicado às 14:09


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