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Os sistemas abstratos propiciaram uma boa dose de segurança na vida cotidiana que estava ausente nas ordens pré-modernas. Uma pessoa pode entrar a bordo de um avião em Londres e chegar a Los Angeles umas dez horas depois estando razoavelmente certa de que não só a viagem será feita em segurança, mas também de que o avião chegará bem próximo de um horário predeterminado. O passageiro pode talvez ter apenas uma vaga idéia de onde fica Los Angeles, em termos de um mapa global. Para se fazer a viagem é necessário apenas um mínimo de preparação (obtenção do passaporte, do visto, da passagem e dinheiro) — nenhum conhecimento da trajetória real é  necessário. Uma grande quantidade de conhecimento do "ambiente" é requerida para embarcar no avião, e este é um conhecimento que foi filtrado dos sistemas peritos para o discurso e a ação de leigos, É preciso saber o que é um aeroporto, uma passagem aérea e muitas outras coisas. Mas a própria segurança na viagem não depende do domínio da parafernália técnica que a torna possível.

Compare-se isto com a tarefa de um aventureiro que fazia a mesma viagem há não mais de três ou quatro séculos atrás. Embora o "perito" fosse ele, poderia ter uma idéia muito vaga de para onde estava viajando — e a própria noção de "viagem" soa peculiarmente inaplicável. O percurso seria cheio de perigos, e o risco de desastre ou morte bastante considerável. Ninguém poderia participar de uma tal expedição sem ser fisicamente resistente, duro e possuidor de habilidades relevantes para a conduta da viagem.

A cada vez que alguém saca dinheiro do banco ou faz um depósito, acende casualmente a luz ou abre uma torneira, envia uma carta ou passa um telefonema, está implicitamente reconhecendo as grandes áreas de ações e eventos seguros e coordenados que tornam possível a vida social moderna. É claro, todo tipo de pane e obstáculo pode surgir, dando origem a atitudes de ceticismo ou antagonismo que fazem com que os indivíduos se desliguem de um ou mais destes sistemas. Mas a maior parte do tempo, a maneira dada como segura com que as ações cotidianas são engrenadas em sistemas abstratos presta testemunho da eficácia com que estes operam (dentro dos contextos do que se espera deles, pois eles também produzem muitos tipos de conseqüências indesejáveis).
A confiança em sistemas abstratos é a condição do distanciamento tempo-espaço e das grandes áreas de segurança na vida cotidiana que as instituições modernas oferecem em comparação com o mundo tradicional. As rotinas que estão integradas aos sistemas abstratos são centrais à segurança ontológica em condições de modernidade. Contudo, esta situação cria também novas formas de vulnerabilidade psicológica, e a confiança em sistemas abstratos não é psicologicamente gratificante como a confiança em pessoas o é. Devo me deter aqui no segundo destes aspectos, voltando mais tarde ao primeiro. Para começar, quero adiantar os seguintes teoremas: que há uma conexão direta (embora dialética) entre as tendências globalizantes da modernidade e o que devo chamar de transformação da intimidade nos contextos da vida cotidiana; que a transformação da intimidade pode ser analisada em termos da adição de mecanismos de confiança; e que as relações de confiança pessoal, nestas circunstâncias, estão intimamente relacionadas à situação na qual a construção do eu se torna um projeto reflexivo.

(Anthony Giddens - "Modernidade e Identidade") 

 

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publicado às 13:25



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