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Evolução

por Thynus, em 02.04.13

Para definirmos evolução, precisamos inevitavelmente definir também outro conceito influente na História: progresso. Uma vez que evolução significa mudança ao longo do tempo, progresso é o direcionamento para essas mudanças, considerando que elas são sempre qualitativas, ou seja, são sempre para melhor.

 

É muito comum associarmos os dois conceitos. Para o imaginário ocidental, herdeiro da influência dupla do Iluminismo e da Revolução Industrial, o tempo é linear, e toda evolução é necessariamente um progresso. Tal perspectiva, muitas vezes chamada de “evolucionista”, originou-se da visão de mundo judaico-cristã, pela qual o mundo foi criado em determinado momento da história e deverá chegar a um fim também determinado no tempo. Tal processo considera que a história se desenvolve visando esse final, que seria a chegada da humanidade ao Paraíso. O Iluminismo adaptou esse imaginário à ciência, tirando-lhe o caráter religioso. Mas foi no século xix que a abordagem evolucionista teve seu auge no pensamento científico, com o surgimento do positivismo e do evolucionismo. E, ainda hoje, autores como Celso Piedemonte defendem que o sentido mais amplo do termo evolução é desenvolvimento e progresso.

 

Os principais responsáveis pela difusão inicial da noção de evolução cultural associada ao conceito de progresso foram iluministas como Turgot e Condorcet, no século xvii. Para eles, a história da humanidade poderia ser descrita em termos de melhoria contínua, desde o início, entre os “primitivos”, até nossa “civilização complexa”. Nesse sentido, a história poderia ser classificada em estágios culturais pelos quais todas as sociedades deveriam passar, desde caçadores-coletores até a civilização moderna. Foi Condorcet quem levou a ideia de progresso a sua formulação final: o progresso seria o desenvolvimento contínuo e necessário, que atingiria seu apogeu quando toda a espécie humana, dirigida pelas mesmas leis, alcançasse a felicidade. Nessa crença, o progresso social, responsável por igualdade e liberdade, seria atingido somente com progresso no campo do conhecimento, da ciência e da Razão.

 

Mas a palavra evolução ganhou destaque ainda no século xviii, com o naturalista francês Lamarck, popularizando-se com Charles Darwin e sua teoria da seleção natural, na segunda metade do século xix. Nesse contexto, o conceito de evolução esteve, desde sua origem, intrinsecamente associado às ciências biológicas e à teoria evolucionista. Para essa teoria, toda a matéria do Universo está ligada por uma origem comum e sofre mudanças ao longo do tempo. Desde o início, a teoria da evolução esteve em constante conflito com as interpretações religiosas, sobretudo com a interpretação cristã fundamentalista, defensora ferrenha do criacionismo, que explica o surgimento do mundo a partir de uma interpretação literal do livro do Gênesis. Apesar disso, a partir do século xvii, com a chamada Revolução Científica, promovida por figuras como Newton e Descartes, os cientistas começaram a se preocupar com as origens físicas do universo, ainda tentando conciliar explicações científicas e religiosas. No século xviii, surgiu a primeira versão da teoria da evolução, elaborada por Lamarck, que teve o grande mérito de perceber que os organismos vivos mudam ao longo do tempo e se adaptam ao meio ambiente. Apesar disso, nem ele nem os outros naturalistas do século xviii entenderam quais eram os mecanismos dessas mudanças. Esse mérito coube a Charles Darwin, que, com sua obra A origem das espécies, deu forma final à teoria da evolução, elaborando a teoria da seleção natural, na qual afirmou que o meio ambiente seleciona os indivíduos mais aptos a sobreviver. Nessa teoria, a evolução acontece quando uma mutação – que parece ser obra do puro acaso – torna um indivíduo mais apto ao meio ambiente do que os outros. Essa mutação não apenas faz que ele sobreviva, como também é transmitida hereditariamente, o que termina por criar uma nova espécie ao longo do tempo. Mas essas mutações são aleatórias, nem sempre são benéficas e, além de tudo, não podem ser controladas. Assim, a teoria da seleção natural de Darwin não se encaixa necessariamente à ideia de progresso.

 

Muitos, no entanto, foram os que associaram ambas as noções, interpretando a teoria da evolução de Darwin como progressista, dando surgimento assim ao chamado evolucionismo cultural, que passou a dominar a Antropologia e as demais ciências sociais de então. Foi Herbert Spencer que, em 1857, criou o darwinismo social, teoria progressista que pregava a superioridade de algumas raças humanas sobre outras, que estariam fadadas a fracassar socialmente. Para essa abordagem racista, a evolução era um progresso tanto biológico quanto social. A Antropologia, no entanto, a partir de Franz Boas e da criação do relativismo cultural no século xx, começou a contestar essa teoria e o próprio conceito de progresso. Como a ideia de evolução estava então associada a esse conceito, também começou a cair em descrédito. 
 
Hoje, o neodarwinista Robert Foley critica o fato de as ciências sociais terem abandonado o conceito de evolução, associado à definição de Spencer, e por associarem também o darwinismo social à teoria da evolução de Darwin. Para ele, a teoria evolucionista atual tem muito pouco em comum com a de antes de 1850, e hoje está muito mais envolvida com ecologia, desenvolvimento e comportamento. Foley é o responsável por nos trazer talvez o melhor e mais simples conceito de evolução aplicável às ciências sociais: a ideia de que a evolução é a mudança no decorrer do tempo, rejeitando totalmente a noção de progresso na evolução. Tratando dos primeiros seres humanos, ele argumenta que cada espécie de hominídeos teve sua existência própria, que não pode ser reduzida simplesmente a um degrau na escala evolutiva para o Homo sapiens atual. Além disso, o progresso é descartado pelo fato de que não existiu uma única linhagem de hominídeos desde o Australopitecus até nós, mas várias espécies surgiram, coexistiram e muitas desapareceram sem levar a um progresso evolutivo. Os hominídeos se ramificaram e divergiram para numerosas espécies, não evoluindo progressivamente em linha direta até o homem atual. Assim, não é porque uma espécie substitui a outra no tempo, como os mamíferos em relação aos dinossauros, que uma é resultado do progresso da outra. Na verdade, o mais comum durante o processo evolutivo é que muitas espécies apareçam e desapareçam sem deixar descendentes aperfeiçoados.

 

Se a biologia contemporânea não aceita mais a ideia de progresso, também a historiografia, que defendia essa ideia abertamente (caso de autores como Gordon Childe), parece ter desaparecido. No entanto, muitos continuam a reproduzir implicitamente essa noção, por exemplo, quando falam de superioridade de culturas, de “altas culturas” e de culturas atrasadas. O fato de ainda reproduzirmos de maneira implícita esse conceito, apesar das críticas constantes, se explica porque tal noção está na base do pensamento ocidental.

 

A ideologia do progresso teve seu apogeu no século xix, em decorrência da ascensão da economia industrial do Ocidente. Nesse período, o contexto social da Revolução Industrial ajudou o desenvolvimento das ideias de progresso como algo necessário, inevitável e benéfico para a sociedade, e da civilização europeia como o auge da civilização mundial. O progresso esteve, assim, associado à ideologia política do liberalismo e ao imperialismo, dando sustentação à política de “civilizar” as regiões “atrasadas” do mundo levada a cabo por uma Europa que se autoproclamava “mais adiantada”. A crise do liberalismo, primeiro com a quebra da bolsa de Nova York em 1929 e a seguir com a Segunda Guerra Mundial, levou a uma crise da noção de progresso. Esta, no entanto, renasceu na teoria desenvolvimentista, que defendia o pretenso crescimento econômico do Terceiro Mundo. Nessa teoria, a Europa (mas agora também os Estados Unidos) era o modelo a ser seguido, e os países não industrializados deveriam se sentir “atrasados” diante do estágio alcançado pelo Capitalismo norte-americano e europeu.

 

Após a Segunda Guerra Mundial, com a chamada crise da modernidade, muitos pensadores começaram a questionar os valores advindos do Iluminismo e do cientificismo dos séculos xviii e xix. Termos como razão, progresso e evolução passaram a ser discutidos amplamente. Mais recentemente, emergiram as teses pós-modernas também criticando esses conceitos, que, segundo Jacques Le Goff, são absolutamente ocidentais.

 

Com base nessas observações, podemos perceber que a principal crítica a ser dirigida não é contra a ideia de evolução, mas contra a de progresso. Pois, se aceitarmos que a evolução é a mudança no transcurso do tempo, não existe história sem evolução. Hoje, a crítica ao progresso está presente em todas as ciências sociais e humanas, apesar de, como já dissemos, muitas vezes não corresponder à prática. Mas da mesma forma que Foley revitalizou a ideia de evolução, o historiador francês Jacques Le Goff tenta revitalizar a de progresso. Para ele, o progresso pelos direitos humanos deveria ser uma ideia defendida por todos em nossos dias, entendendo essa forma de progresso como a melhoria das condições de vida da humanidade em todas as sociedades. Além disso, ele lembra Lévi-Strauss, que acreditava que o progresso existe em uma diversidade de processos diferentes. Para Lévi-Strauss, a história não é um processo linear de acumulação de conquistas, e nela diversas formas de civilização podem coexistir, representando cada uma um processo diferente de progresso. Em sala de aula, evolução e progresso são discussões importantes e cabem nos programas curriculares, principalmente no trabalho com a Pré-história, a Revolução Industrial e o Imperialismo. Além disso, são temas que podem ser bastante enriquecidos se pensados em conjunto com os conceitos de etnocentrismo e civilização.



(Kalina Vanderlei Silva, Maciel Henrique Silva - "Dicionário de conceitos históricos") 

 

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publicado às 02:30



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