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Mitos

por Thynus, em 31.03.13

Os mitos de civilizações antigas exercem grande fascínio sobre o imaginário dos historiadores e do público leigo, o que leva a mitologia a ser uma temática bastante popular dentro e fora da academia, como demonstram as variadas publicações de coletâneas de mitos cujo alvo é o grande público. Coleções mais tradicionais de mitos egípcios, mesopotâmicos e em especial gregos são facilmente encontradas no mercado editorial brasileiro, ao lado hoje de coleções menos comuns como os mitos iorubás, vikings e mesmo maias. Um conjunto de mitos de determinada cultura é uma mitologia: assim podemos falar em mitologia grega, mitologia asteca etc. Mas, no entanto, mitologia também significa a disciplina específica que tem como objeto de estudo os mitos, sua natureza e significado. Nessa disciplina, encontramos nomes de grande importância para as ciências humanas, como Mircéa Eliade e Joseph Campbell. Mas apesar de pertencer a um campo tão prezado por historiadores e amantes da História, o conceito de mito é pouco conhecido e, na verdade, menos fácil de definir. O antropólogo Everardo Rocha chega mesmo a afirmar que não é possível definir mito.

Alguns historiadores tradicionais, como é o caso do estudioso da cultura clássica P. Commelin, afirmam que o mito é uma mentira. Outros, mais moderados, como Page, medievalista estudioso da mitologia viking, afirmam que os mitos são fábulas, narrativas puramente fictícias, em cuja base encontramos o sobrenatural, os fenômenos da natureza ou os acontecimentos históricos alterados. Nesse caso, a mitologia é não mais do que uma compilação de contos, muito aproximada da literatura e da ficção. Mas os mitos são abordados de forma diferente por outras ciências humanas, como a Antropologia e a Psicanálise. Os historiadores que têm se preocupado em estudar os mitos de forma mais profunda que a simples coletânea de contos têm se voltado para essas disciplinas, assim como para o trabalho de mitólogos como Eliade. Um desses casos é o do medievalista Jeffrey Russel.

Em seu trabalho O diabo: as percepções do mal da Antiguidade ao cristianismo primitivo, Russel construiu uma interpretação do diabo como figura mitológica do Cristianismo. Baseado na Psicanálise, o autor defende que os mitos são produtos do inconsciente alterados pelo consciente, que raramente sabe o que se passa no inconsciente. A mitologia, assim, não é racional, é mais do que isso. Nessa abordagem, influenciada pelo antropólogo Lévi-Strauss, mito se diferencia totalmente de lenda e de fábula, não sendo considerado nem fantasia, nem ficção, mas um “disfarce” para o pensamento abstrato e a expressão de uma consciência humana mais profunda.

O grande impulso na pesquisa sobre o valor dos mitos foi dado pela obra de Freud, no início do século xx, e pela descoberta do inconsciente coletivo. A Psicanálise utilizou o mito como base para o estudo da mente humana. Já a Antropologia se voltou para o mito como fonte do conhecimento social. Para os antropólogos, o mito é uma narrativa, uma reflexão alegórica sobre a existência, e carrega uma mensagem implícita capaz de revelar o pensamento de uma sociedade.

Ao longo do tempo, várias linhas de interpretação dos mitos foram sendo esboçadas a partir da sua riqueza e multiplicidade de significados. Entre elas, as principais são: a naturalista, que considera os mitos uma tradução das forças da natureza; a historicista, que considera que o mito é uma representação de episódios verdadeiros do passado; a funcionalista, criada por Malinowski nos anos 1920, que afirma que o mito tem uma função social específica, religiosa, moral, ou de busca de conhecimento; a psicanalítica, que usa o mito como fonte de conhecimento da mente humana; e a estruturalista, de Lévi-Strauss, que busca no mito dados sobre as estruturas sociais. As linhas interpretativas psicanalíticas são tão influentes no estudo dos mitos quanto as antropológicas. Mas enquanto os antropólogos querem entender as estruturas sociais por trás dos mitos, os psicanalistas usam os mitos para estudar o inconsciente humano.

Os dois grandes nomes na interpretação psicanalítica dos mitos são Freud e Jung, não por coincidência também dois dos maiores pensadores da Psicanálise. Tanto os estudos dos sonhos de Freud quanto a teoria dos arquétipos de Jung admitem a natureza  imutável e constante do inconsciente, o que permite a continuidade dos mitos. Os mitos, como os sonhos, seriam expressos pelo inconsciente: para Freud, pelo inconsciente individual, e para Jung, pelo inconsciente coletivo. Para Freud, o mito ajuda a exprimir as vivências humanas e a representar a influência do inconsciente na formação do consciente em cada indivíduo. Os mitos, como o clássico mito de Édipo, foram utilizados por Freud para compreender o desenvolvimento de cada indivíduo. Para ele, o mito exprime fases da vida pelas quais cada pessoa passa. Enquanto Freud estudava o inconsciente pessoal, Jung estudava o inconsciente coletivo, região da mente onde estão guardadas todas as experiências comuns da humanidade, o repositório de experiências humanas compartilhadas, segundo ele, por todos. Os mitos, para Jung, são uma das provas de que o inconsciente coletivo existe, pois muitos mitos e símbolos se repetem em diversas culturas sem nenhuma ligação. Um dos grandes exemplos de uma figura que se repete na mente humana ao longo do tempo, em diferentes sociedades sem influência mútua, é o culto ao Sol: presente no Egito e no Império Inca, entre outras antigas civilizações, ele continua existindo hoje, por exemplo, na frequência dos brasileiros às praias em busca de diversão e socialização. Para antropólogos como Everardo Rocha, essa frequência é quase um “culto”, com significados sociais profundos.

Adentrando a Antropologia, deparamos com Malinowski e Lévi-Strauss. O primeiro via o mito de forma funcionalista, ou seja, afirmando que todo mito tem uma função na sociedade, uma finalidade. Assim, por exemplo, o mito poderia funcionar como forma de repassar os valores morais da sociedade. Já para o estruturalista Lévi-Strauss, o mito tem estreita relação com a linguagem e não pode ser lido como um texto comum, pois não mostra seu significado básico por meio de uma sequência de acontecimentos. Pelo contrário, muitas vezes a série de acontecimentos ao qual está vinculado o significado do mito está afastada de seu enredo. E para seu entendimento é preciso compreender a sociedade que o gerou assim como os outros mitos da mesma sociedade.

Na Antropologia, o campo clássico de estudo dos mitos são as chamadas “sociedades primitivas”, ou seja, sociedades tribais contemporâneas da nossa sociedade industrial/pós-industrial. Normalmente sociedades indígenas na Oceania, África ou América. Já para a Psicanálise, os mitos mais estudados são os greco-latinos, os mitos clássicos como Édipo e Electra. Na História, por sua vez, a mitologia como compilação de mitos religiosos é encontrada no estudo das mais diferentes culturas, dos vikings aos astecas.

A universalidade do mito e sua grande importância para o pensamento humano é algo palpável no fato de que todas as sociedades elaboram mitos, quer sejam representações do inconsciente coletivo, das estruturas sociais, quer tenham função prática na sociedade. Intelectuais do fim do século xx, de ciências que tradicionalmente não se interessavam por tal tema, têm dado especial atenção aos chamados mitos contemporâneos. Um dos mais importantes desses pensadores é Umberto Eco, que estuda os mitos da sociedade ocidental na propaganda e no cinema, em personagens como James Bond.

Não podemos esquecer a importância dos mitos para a Filosofia. Segundo Auguste Comte, a Filosofia inclusive teria substituído a mitologia na explicação do mundo e do universo. A visão evolucionista de Comte acreditava que a mitologia era a forma mais primitiva de explicar o mundo, depois evoluindo para a Filosofia e para a ciência à medida que a própria civilização fosse evoluindo. Também os filósofos críticos da modernidade, como os frankfurtianos Adorno e Horkheimer, em meados do século xx, comentaram a relação entre mito e Filosofia. Esses pensadores acreditavam que o Iluminismo pretendeu livrar o homem da superstição e do medo, dissolvendo o mito, mas que, ao desenfeitiçar o mundo, teria incinerado sua própria consciência. Para eles, a explicação científica do Iluminismo teria dado fim à explicação mitológica, perdendo-se muito da natureza humana nesse processo.

O grande fascínio que a mitologia exerce sobre nossas mentes talvez seja uma prova de que a humanidade realmente precisa deles. O professor de História pode explorar esse fascínio em sala de aula, trabalhando com as mais diversas mitologias como forma de refletir sobre a diversidade cultural da humanidade. É bastante fácil encontrar coletâneas de mitos de diferentes povos no mercado editorial brasileiro. Um bom exercício talvez seja justamente trabalhar mitos de diferentes culturas de forma comparada. Mas lembrando que muitas dessas coletâneas encaram os mitos como fábulas. Além disso, já estamos constantemente trabalhando com mitos em sala de aula: Tiradentes, Zumbi etc. Esses “heróis históricos”, relacionados com a própria construção da identidade brasileira, podem também ser interpretados como mitos. Essa situação é uma razão a mais para que o educador se aprofunde nas muitas formas de interpretação dos mitos antes de passá-los para os alunos.

(Kalina Vanderlei Silva, Maciel Henrique Silva - "Dicionário de conceitos históricos") 
 

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publicado às 12:37



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