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TERRORISMO

por Thynus, em 30.03.13

Tema pungente nos dias atuais, o terrorismo não pode deixar de ser discutido no meio escolar, sob pena mesmo de deixarmos à imprensa e à sua banalização do mal a tarefa ambígua de “demonstrar” às pessoas o que é o terrorismo e o que ele significa na contemporaneidade. A relação do terror com a imprensa, a ação repressiva que recai sobre os que praticam o terror, a organização dos grupos terroristas e suas motivações, entre outros, são temas complexos que carecem de um mínimo de senso crítico para se alcançar o entendimento da História Contemporânea.

O terrorismo é a ação armada contra civis; é a violência usada para fins políticos, não contra as forças repressivas de um Estado, mas contra seus cidadãos. Uma classificação atual distingue o terrorismo em pelo menos quatro categorias: terrorismo revolucionário; terrorismo nacionalista; terrorismo de Estado; e terrorismo de organizações criminosas. O terrorismo de cunho revolucionário pode englobar grupos como as Brigadas Vermelhas e o Ordine Nuovo, que atuaram na Itália durante o século xx; a Fração Exército Vermelho, da Alemanha; Ação Direta, na França; o Sendero Luminoso, no Peru. Esses grupos pregam o uso da ação terrorista como ferramenta para a instalação de uma revolução. Já o terrorismo nacionalista é aquele praticado por grupos que pretendem fundar um Estado-nação com a separação de uma região de um Estado preexistente, como o Setembro Negro palestino, o grupo basco Eta e o irlandês ira, entre outros. O terrorismo de Estado, por sua vez, como o próprio nome diz, é aquele praticado por Estados nacionais, como o promovido pela Líbia na segunda metade do século xx. Por fim, o terrorismo criminoso se refere a grupos criminosos, como a Máfia, a Camorra, o Cartel de Medellín, entre outros.

Muitos estudiosos remontam o terrorismo ao século i d.C., quando, entre os zelotes, judeus contrários ao domínio romano na Palestina, surgiu um grupo radical denominado sicários ou “homens com punhal”, que atacava cidadãos, judeus ou não, tidos como simpatizantes da causa romana. A História registra ainda a existência de uma seita muçulmana que, no final do século xi d.C, dedicava-se a exterminar seus opositores no Oriente Médio, seita inclusive da qual teria se originado a palavra assassino. Ambos esses grupos, no entanto, pertencem a contextos históricos diferenciados e pouco têm a ver com o terror contemporâneo.

As raízes do terrorismo moderno se encontram mesmo no século xix europeu, quando grupos anarquistas e niilistas hostilizavam o Estado, alguns iniciando luta armada contra essa instituição, na tentativa de constituir uma sociedade sem Estado. A ação revolucionária anarquista, quando seguia a trilha da violência armada, visava a atingir sobretudo líderes de Estado, e não cidadãos comuns. O terrorismo desenvolvido por alguns grupos anarquistas tinha, portanto, caráter revolucionário e estratégico na luta contra a ordem vigente. A liberdade era uma das bandeiras de luta. Em sua luta contra os elementos conservadores da sociedade russa, por exemplo, os niilistas justificavam a violência acreditando que a eliminação da ignorância e da opressão asseguraria a liberdade humana. O governo russo de Alexandre ii reprimiu severamente os revolucionários, que se vingaram assassinando o imperador em 1881.

Mas o czar russo foi apenas uma das vítimas do terrorismo oitocentista, que teve seu auge nas quatro décadas anteriores à Primeira Guerra Mundial. Em 1878 houve dois atentados à vida do kaiser alemão; em 1893, explosivos foram jogados na Câmara dos Deputados da França e, em 1894, o presidente francês foi esfaqueado e morreu por causa dos ferimentos; em 1898, a imperatriz Elizabeth (Sissi) da Áustria foi assassinada e três anos depois foi a vez do presidente norte-americano Mckinley. Apenas no ano de 1892, houve mais de mil ataques de explosivos na Europa e quase quinhentos nos eua.

Entretanto, foi o século xx que conheceu a grande expansão do número de grupos que optaram pelo terrorismo como arma de luta: guerrilheiros urbanos marxistas, maoístas, trotskistas, castristas em toda a América Latina; separatistas bascos na Espanha; tâmis no Sri Lanka; corsos na França; quebequenses no Canadá; curdos na Turquia e no Iraque; sikhs no norte da Índia; muçulmanos na Caxemira, na Chechênia, na Palestina e nas Filipinas; a Supremacia Branca nos Estados Unidos, grupo de organizações paramilitares racistas de extrema direita. Um dos seguidores dessa organização é Timothy James McVeigh, responsável pelo atentado de Oklahoma na década de 1990, no qual morreram 168 pessoas.

No século xx, o terrorismo não se expandiu apenas quanto ao número de grupos, mas também em termos de raio de atuação. Conexões internacionais sofisticadas, uso de tecnologia bélica de alto poder destrutivo, redes de comunicação como a internet, tudo isso mostra o quanto o terror tomou uma face que dialoga cada vez mais com a tecnologia de ponta. Seus fins podem ser “antigos”, a mídia pode até taxar alguns grupos, como a Al-Qaeda, de fundamentalistas retrógrados, mas é inegável que a modernidade técnica é instrumentalizada por eles com eficiência cada vez mais letal. Antes, com poucas exceções, os grupos extremistas conduziam suas campanhas de violência em seus próprios territórios e contra inimigos declarados. Mas desde a segunda metade do século xx já não há mais fronteiras para atingir as metas políticas, e os países mais vulneráveis são, em geral, aqueles onde tradicionalmente todos que chegavam tinham liberdade de movimento. Os terroristas, agora, são os moradores típicos do que o teórico Marshall MacLuhan designou “aldeia global”.

Para a maior visualização do terrorismo mundial, a mídia exerce um papel fundamental. Mas é evidente que também cria um sensacionalismo em torno dos terroristas. Há até quem acredite que a atenção exacerbada dada pela mídia aos atentados auxilia os grupos radicais na propaganda do terror. Por sua vez, o sensacionalismo se torna uma arma também na propaganda antiterror, veiculada por grupos e Estados atingidos pelo terrorismo. Dessa forma, a mídia ajuda a justificar a legalidade e a necessidade de ações antiterroristas que, muitas vezes, levam adiante banhos de sangue e violações aos direitos humanos que atingem mais a população civil do que os próprios terroristas.

O poder da mídia, entretanto, não gera o terror. Muitas campanhas terroristas têm raízes históricas profundas e são inspiradas em situações reais de dominação imperialista. É o caso, por exemplo, do terrorismo contra a colonização europeia. No Quênia, a rebelião Mau Mau, iniciada em 1952, durou três anos e foi responsável por ações violentas contra europeus e africanos considerados desleais. E, embora sua derrota tenha culminado na morte de 11 mil rebeldes, a ação do grupo impulsionou a independência do Quênia. Cem europeus foram mortos nessa rebelião. A independência do Chipre perante a Grã-Bretanha também foi resultante da ação terrorista cipriota por meio da organização Eoka. Outro conflito de raízes profundas é o que se trava entre o setor extremista da Organização pela Libertação da Palestina e o Estado de Israel. A olp, corporação política fundada em 1964, foi uma tentativa de unir os diversos grupos árabes palestinos para se opor à presença israelense no antigo território da Palestina. O grupo não é necessariamente terrorista. Mas a década de 1980 assistiu a uma radicalização dos conflitos na região, e surgiram revoltosos que optaram pelo terror contra Israel: é o caso da Frente Popular para a Libertação da Palestina e do Setembro Negro. Por sua vez, sentindo-se vítimas dessas ações terroristas, o Estado de Israel reage com o terrorismo de Estado, dificultando o diálogo entre as partes. O fundamentalismo judaico e a sanha dos palestinos em criar um Estado na Palestina são ingredientes de um conflito de longa duração.

Ao falar em terrorismo de Estado, podemos abordar duas vertentes do terror: a primeira é o terrorismo de Estado, praticado contra sua própria população, como no modelo clássico totalitário; a segunda, os alvos são os civis, na maioria das vezes considerados estrangeiros, como ocorre no modelo norte-americano. O modelo clássico totalitário ocorreu em particular no século xx. O regime nazista na Alemanha exerceu uma política de terror, perseguição e morte aos judeus; o regime stalinista, por sua vez, fez uso da força do Estado centralizado para minar qualquer dissidência por menor que fosse, por meio de prisões e milhões de assassinatos; por fim, as ditaduras latino-americanas do Chile, Brasil e Argentina, por exemplo, e a ditadura de Pol Pot no Camboja, também exerceram o terrorismo de Estado com perseguições, extermínios, torturas e deportações. Não seria errôneo dizer que os eua e Israel do século xxi praticam terrorismo de Estado. A ideia de George W. Bush de guerra preventiva e as frequentes ações militares israelenses contra os palestinos são formas de terrorismo de Estado que, sob a desculpa do combate a grupos terroristas, espalham a morte por meio de tecnologias do terror para alcançar ou consolidar espaços geopolíticos.

Devemos nos perguntar, antes de tudo, por que o terrorismo existe, quais as razões do ódio político e quais projetos existem por parte daqueles que matam e morrem. O professor de História deve ter a coragem de discutir o terrorismo para além do sensacionalismo da mídia. Perceber o duro jogo de poder que é travado entre as forças em conflito é, antes de tudo, implodir a noção simplista, e muitas vezes bastante conveniente, de que há no mundo uma luta do bem contra o mal. Outra questão a ser observada: há o terror como prática e há ainda o discurso sobre o terror, que temos de analisar para não cair no senso comum.

Kalina Vanderlei Silva, Maciel Henrique Silva - "Dicionário de conceitos históricos") 
 

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publicado às 16:32



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