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O Estado é mais (como você diz) que uma “máquina de medo” – mas não muito. De qualquer forma, não há muitas coisas não relacionadas ao medo e/ou não condicionadas por ele. Se as pessoas não tivessem medo, seria difícil imaginar a necessidade de um Estado. Como elas não podem parar de temer, no entanto, pelo menos num futuro previsível, parece estar assegurado um longo futuro para o Estado enquanto tal, embora não necessariamente para qualquer um dos seus sucessivos avatares e fórmulas políticas mutáveis.
Mais que falar do Estado como uma “máquina do medo”, eu preferiria falar dele como uma “indústria de manejo, de processamento e reciclagem de medo”. Como já foi insinuado em nossa discussão anterior sobre o poder do Estado (e, mais em geral, sobre o poder político), os Estados como um todo tendem a capitalizar o fornecimento de medo que já foi pré-fabricado e armazenado por outras forças, em essência apolíticas, sem precisar de uma política institucionalizada para tomar parte ativa em sua produção; ou, mais precisamente, por intermédio das agências de política “ativadas pela sua inatividade”, “interferindo pela recusa ou negligência em interferir”. Com a exceção evidente dos regimes ditatoriais e totalitários, os Estados modernos capitalizaram sobretudo os medos que emanam da insegurança existencial, endêmica e, em suas origens, apolítica – ajudados e incentivados, como são esses medos, por inúmeras incertezas decorrentes da instabilidade, dos caprichos e das extravagâncias inerentes aos mercados de capitais e de trabalho, ambos apolíticos.
Escrevi bastante, em outros momentos (mais recentemente, em Medo líquido e Tempos líquidos ), sobre a incerteza e o ambiente de medo que saturam a vida contemporânea; e sobre como a manutenção de um volume constante de ansiedade e apreensão se transformou num fator importante e indispensável na autorreprodução de instituições políticas e econômicas. Prefiro não me repetir aqui. Permita-me apenas recordar que o estado de incerteza contínua excreta uma volumosa, na verdade insaciável, busca de força – qualquer tipo de força – em que se possa confiar para saber o que as pessoas comuns, atormentadas no dia a dia por uma consciência e uma suspeita de insegurança dignas de um pesadelo, não sabem e não podem saber. Uma força capaz de realizar o que pessoas comuns, amaldiçoadas com a gritante insuficiência de recursos à sua disposição, podem apenas sonhar em fazer. Em suma, uma força fiel e confiável com que se possa contar para ver o invisível, resolver o insolúvel e abarcar o inabarcável.
Para medir essas expectativas, as forças sonhadas e buscadas, em um sentido, devem ser “sobre-humanas” – ou seja, livres das habituais e incuráveis fraquezas humanas, mas também imunes a críticas e à resistência humanas. Poderia ser um “deus vivo”, ou um governante que não pleiteie divindade, mas que reivindique ter sido divinamente ungido para governar e guiar. Poderia ser um líder carismático anunciando uma missão endossada pelos céus e possuidor de uma linha telefônica direta com o Todo-Poderoso, ou que se apresente, a exemplo de Hitler, como um sonâmbulo a seguir o caminho traçado para ele pela Providência. Ou ainda um corpo coletivo, como uma igreja ou um partido, brandindo uma procuração assinada in blanco pelo tipo certo de Deus ou por uma História que esteja sempre certa. Sem dúvida há uma escolha entre algumas cruzes e muitas espadas.
Seja qual for o caso, todas as variedades da sonhada força sobre-humanamente dotada carreiam as esperanças de que salvarão os perplexos de sua perplexidade e os impotentes de sua impotência: é a esperança de que elas anularão as assustadoras fraquezas humanas, sofridas de modo individual ou em bloco, por meio da onipotência de uma congregação, uma nação, uma classe ou uma raça escolhida por Deus e a ele temente.
Claro que os organismos religiosos e políticos competem pelo controle dos mesmos recursos e pelo domínio dos mesmos territórios. Como marcas alternativas no mercado, disputam entre si os clientes, invocando o melhor serviço que podem oferecer para satisfazer as mesmas necessidades. Brandir abertamente a natureza coerciva ou violenta da subjugação não é uma opção razoável, e, assim, muitas vezes a aposta dos conquistadores na tibieza ou na covardia dos vencidos fica encoberta.
Além disso, os terríveis poderes das ameaças explícitas se desgastam de forma relativamente rápida. Populações lançadas em condições de servidão mais cedo ou mais tarde encontrarão formas efetivas de resistir à força invasora, por mais esmagadora que seja a superioridade militar dela. Irão tornar a situação dos invasores tão desconfortável que uma retirada rápida fica mais atraente a seus olhos que a continuação de seu sofrimento, agarrando-se à terra invadida, mas não de fato conquistada.
Os organismos religiosos e políticos prefeririam incutir o que Roberto Toscano e Ramin Jahanbegloo, inspirando-se num ensaio de meio milênio, da autoria de Étienne de la Boétie, sugeriam chamar de “servidão voluntária” (Beyond Violence: Principles for an Open Century). A suspeita de La Boétie, que Toscano e Jahanbegloo endossaram quase cinco séculos mais tarde, era que, além de ser atribuída a um medo de punição gerada pela coerção, a rendição maciça de parcelas substanciais de liberdade por parte das populações escravizadas precisa ser explicada pela propensão interior humana para voltar-se mais em direção a uma ordem (mesmo que seja uma ordem severamente limitada em termos de liberdade) do que no sentido de uma liberdade que substitui a contingência e a incerteza em relação ao tipo de paz espiritual e conforto que apenas uma rotina apoiada pelo poder (mesmo que se trate de uma rotina opressiva e coercitiva) consegue oferecer.
Como os corpos que buscam o poder político e religioso operam, por assim dizer, no mesmo território, visam à mesma clientela e prometem serviços calculados para satisfazer, no extremo, necessidades similares ou francamente idênticas, não é de admirar que eles tendam a trocar entre si suas técnicas e estratégias, e adotem os métodos e argumentos uns dos outros, apenas com pequenos ajustes: fundamentalistas religiosos tomam emprestada a caixa de ferramentas que se acredita ser de propriedade da política (talvez seja até sua propriedade definidora); os fundamentalismos políticos (e ostensivamente seculares) muitas vezes lançam mão do discurso religioso da confrontação final entre bem e mal – e demonstram uma inclinação monoteísta a fuçar por aí: excomungar e exterminar todo e qualquer sintoma, por menor, mais inócuo e marginal que ele seja, de heresia, de heterodoxia, de mera indiferença ou mesmo de uma dedicação e de uma obediência não apaixonadas à verdadeira (e única) doutrina. Hoje muito se fala sobre a “politização da religião”. Muito pouca atenção é dada, contudo, à tendência paralela de “sacralização da política”, algo talvez ainda mais perigoso e muitas vezes muito mais sangrento em suas consequências. Um conflito de interesses que convida à negociação e ao compromisso (o pão de cada dia da política) é então reciclado sob a forma de um confronto final entre o bem e o mal que torna qualquer acordo negociado inconcebível, do qual apenas um dos antagonistas pode sair vivo (o horizonte liminar das religiões monoteístas). As duas tendências, eu diria, são gêmeas siamesas inseparáveis, cada qual voltada sobretudo para projetar na irmã os demônios interiores que partilham.
Então, o que virá a ser o “futuro de uma ilusão”, para utilizar uma frase de Sigmund Freud? Estou inclinado a pensar que, seja qual for o futuro daquela “ilusão”, ele será longo. Provavelmente tão longo quanto a presença da humanidade. Freud atribuiu “a ilusão” aos traços permanentes e inextirpáveis do instinto humano: grosso modo, dada a “apatia geneticamente determinada e inata dos seres humanos”, sua impermeabilidade à “argumentação racional”, além do potencial destrutivo dos ímpetos também endêmicos dos homens, a sociedade humana é inconcebível sem a coerção.
Karl Marx associou a origem (temporária) inescapável da “ilusão” à história, e não à genética, e também às condições humanas historicamente desenvolvidas, e não à evolução biológica: a religião era o “ópio” que pretendia manter as massas em estupor para abafar a dissensão e impedi-las de se rebelar. Ela deveria durar tanto quanto, mas não mais que, o tipo de condição humana capaz de dar à luz ao dissenso e incitar à rebelião. Uma vez que os pressupostos que apoiavam os veredictos dos dois grandes  pensadores desde seu surgimento (no caso de Freud) ou até agora (no caso de Marx) permaneceram inacessíveis aos testes empíricos, prefiro adiar indefinidamente o retorno do júri ao tribunal.
Estou inclinado a apoiar de forma incondicional a interpretação da religião dada por meu erudito amigo Leszek Kolakowski. Segundo ele, a religião é a manifestação/declaração da insuficiência humana. Assim como nos solicitam que esperemos pelos já mencionados teoremas de Gödel (segundo o qual: um sistema não pode ser ao mesmo tempo completo e consistente; se ele for compatível com seus próprios princípios, surgem problemas que não pode resolver; e, se tenta resolvê-los, não pode fazer isso sem contradição com seus próprios pressupostos fundadores), a coesão humana cria problemas que não consegue compreender, ou não pode atacar, ou ambos.
Confrontada com esses problemas, a lógica humana corre o risco de falhar e ir a pique. Incapaz de reverter as irracionalidades que detectou no mundo para se ajustar à estrutura resistente da razão humana, ela corta-as do domínio dos assuntos humanos e as transporta para regiões inacessíveis ao pensamento e à ação dos homens. É por isso, aliás, que Kolakowski acerta com tamanha exatidão o alvo quando afirma que os teólogos formados deram à religião mais prejuízo que lucro, ao empreenderem esforços extremos para oferecer uma “comprovação lógica” da existência de Deus. A serviço da lógica, os seres humanos dispõem de pesquisadores e conselheiros devidamente credenciados.
Os homens precisam de Deus por seus milagres, não para seguir as leis da lógica; por sua inescrutabilidade e imprevisibilidade, não por sua transparência e rotina; por sua capacidade de virar o curso dos acontecimentos de cabeça para baixo (e não apenas o desenrolar do futuro, mas também o passado “já consumado”, como insistiu Leon Shestov); por sua capacidade de colocar entre parênteses a ordem das coisas, em vez de, subserviente, submeter-se a ela, como os seres humanos são pressionados a fazer e em sua maioria fazem a maior parte do tempo. Em suma, o homem precisa de um Deus onisciente e onipotente para dar conta (e espero que para domar e domesticar) de todas aquelas forças aterradoras, em aparência entorpecidas, surdas e cegas que a compreensão humana e seu poder de ação não podem alcançar.
Creio, em resumo, que o futuro dessa ilusão (em especial) está entrelaçado com o futuro da incerteza humana: incerteza coletiva (relativa à segurança e aos poderes da  espécie humana como um todo reunida em, e dependente de, um hábitat composto de homens, feito por homens e gerido por homens e que eles são incapazes de domesticar). Tendo falhado e continuando a sofrer derrotas em seus esforços recorrentes e contínuos para liquidar os dois tipos de incerteza, a humanidade continuará a se voltar para a “ilusão”: sua solidão no Universo, a ausência de um tribunal de apelações e de poderes executivos são por demais assustadores para a maioria dos homens suportar. Suponho que Deus morrerá com a humanidade. Não num momento anterior.

(Zygmunt Bauman - "Vida a crédito")

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