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A cultura numa cidade globalizada

por Thynus, em 29.03.13
As cidades, principalmente as megacidades como Londres, são as lixeiras nas quais nos desfazemos dos problemas gerados pela globalização. São também os laboratórios onde se realizam experiências com a arte de conviver com esses problemas (embora não com a arte de resolvê-los). Os impactos mais fundamentais da globalização (sobretudo o divórcio entre o poder e a política, e o deslocamento das funções antes exercidas pelas autoridades políticas para o âmbito do mercado, de um lado, e para a esfera da vida política individual, de outro) já foram investigados a fundo e descritos em grande detalhe.
Nesta carta, vou me limitar, portanto, a um aspecto do processo de globalização raras vezes analisado em suas conexões com a mudança de paradigmas na teoria e na pesquisa da cultura: os novos padrões de migração mundial.
Há três fases diferentes na história da migração na Idade Moderna.
A primeira onda migratória seguiu a lógica de uma síndrome tripartite: territorialidade da soberania, identidade de “raízes” e uma postura de jardinagem (as três formas serão daqui por diante referidas, por concisão, como TRJ). esta foi a fase da emigração de um centro “modernizado” (leia-se: um lugar de intensa construção da ordem e do progresso econômico, as duas principais atividades que produziram e repeliram números crescentes de “refugo humano”), em parte por exportação, em parte por expulsão de quase sessenta milhões de pessoas (número elevadíssimo para o século XIX) para “terras vazias” (leia-se: terras cujas populações nativas podiam ser riscadas dos cálculos “modernizados”, literalmente não serem contabilizadas e explicadas, presumindo-se que fossem inexistentes ou irrelevantes, nada a se levar em conta). Qualquer nativo residente que ainda estivesse vivo após os assassinatos em massa e as epidemias também em massa era considerado pelos colonizadores – e por aqueles que os haviam enviado e continuavam a se multiplicar – objetos da “missão civilizadora do homem branco”.
A melhor maneira de descrever a segunda onda de migração é tratá-la como um caso de “império emigra para a metrópole”. Com o desmantelamento dos impérios coloniais, muitos povos indígenas em diversos estágios de “avanço cultural” seguiram seus superiores coloniais de volta às metrópoles. Ao chegarem, foram distribuídos de acordo com a única visão de mundo, o único modelo estratégico disponível a partir da experiência passada, planejada, formada e usada na era da construção do Estado-nação para lidar com minorias destinadas à “assimilação” na comunidade nacional emergente. Um processo politicamente assistido que visava a anular e destruir as desigualdades culturais, colocando as “minorias” como receptoras de cruzadas, missões de proselitismo, de Kulturkampf (termos atualmente rebatizados, em nome do “politicamente correto”, de “educação cívica para integração”).
Mas essa história ainda não acabou: como a coruja de Minerva, que só abre as asas ao entardecer, seus ecos repercutem muitas vezes nas declarações de intenção proferidas em público pelos políticos. Tal como na primeira fase da migração, o drama do “império migrando para a metrópole” tentou atuar no marco da hoje ultrapassada síndrome TRJ, mas com pouco sucesso.
A terceira onda de migração moderna, que está em pleno vigor e se acelera, levou à era das diásporas: arquipélagos de assentamentos de base étnica, religiosa e linguística entrelaçando o mundo – alheios às trilhas incendiadas e pavimentadas pelo colonialismo imperialista e seguindo, ao contrário, a lógica globalizante da redistribuição planetária dos recursos de sobrevivência. Os arquipélagos tendem a se espalhar e disseminar. Cada qual se estende por muitos territórios separados e apenas formalmente soberanos, ignorando as pretensões territoriais locais e os compromissos com a superioridade e a supremacia; a consequência é que ficam encerrados no duplo (ou múltiplo) vínculo de “dupla (ou múltipla) nacionalidade” e dupla (ou múltipla) lealdade.
Hoje, a migração se diferencia das duas fases anteriores em mais de um aspecto: ela ocorre em dupla direção (quase todos os países, inclusive a Grã-Bretanha, são ao mesmo tempo polos de imigração e de emigração), sem rotas privilegiadas, pois as rotas não são mais determinadas pelos laços imperiais-coloniais do passado. A migração contemporânea também difere por explodir a síndrome TRJ e substituí-la pela tríade EAC – extraterritorialidade, “âncoras”, em lugar de “raízes”, como as principais ferramentas da identificação, e uma estratégia de caçada.
A nova migração põe um imenso ponto de interrogação no vínculo entre identidade e cidadania, indivíduo e lugar, vizinhança (ou proximidade física) e pertença. Jonathan Rutherford, arguto e sutil observador das aceleradas mudanças do espírito de grupo entre as pessoas, observou que os moradores da rua de Londres onde ele reside formam uma vizinhança composta de várias comunidades; algumas têm redes que chegam somente até a rua seguinte, outras se estendem pelo mundo todo (After Identity). É um bairro de fronteiras porosas, em que é difícil saber quem é de dentro e quem é de fora. Nessa localidade, estamos ligados a quê? O que é essa coisa que cada um chama de casa ou lar? Quando olhamos para trás e lembramos como chegamos aqui, que histórias temos em comum?
Viver dentro de uma diáspora (como tantos de nós fazemos; até onde ela se estende e em que direção?) e, como todos nós, entre diásporas (até onde elas se estendem e em que direções?) trouxe para nossas prioridades, pela primeira vez, a questão da “arte de conviver com as diferenças” – problema e tarefa que só podem aparecer em nossa lista de assuntos prioritários quando a diferença e a dessemelhança deixam de ser vistas como meros estorvos transitórios; assim, ao contrário do passado, elas impõem a urgente necessidade de desenvolver novas artes e habilidades, de ensiná-las e aprendê-las.
A ideia de “direitos humanos”, lançada no cenário da tríade EAC para substituir ou complementar a instituição da tríade TRJ, da identidade determinada pela territorialidade, traduz-se hoje em “direito a ser diferente”. Com grande dificuldade, a nova definição de direitos humanos sedimenta, no melhor dos casos, a tolerância; ainda é preciso consolidar a noção de solidariedade. Permanece a questão controversa de saber se é possível conceber a solidariedade de grupo sob qualquer outra forma que não por meio das redes instáveis e desgastadas, sobretudo virtuais, impulsionadas e continuamente remodeladas pela interação de indivíduos conectados e desconectados, que fazem chamadas e se recusam a respondê-las.
A nova tradução da ideia de direitos humanos desmonta hierarquias e destroça a imagem de “evolução cultural progressiva”. Formas de vida flutuam, se encontram, se chocam, se aferram umas às outras, fundem-se ou se afastam e se separam com igual gravidade específica (para usar uma imagem de Georg Simmel). Hierarquias firmes, imperturbáveis, e linhas evolucionárias são substituídas por verdadeiros campos de batalha de exigências e contraexigências, pedidos de reconhecimento e resistência a esses reconhecimentos. No melhor dos casos, as batalhas terminam com outra hierarquia social frágil, divisível e eminentemente renegociável, assim como a ordem que ela veio substituir (temporariamente).
Para imitar Arquimedes, conhecido por insistir em dizer (provavelmente com o tipo de ânsia dado somente pela absoluta nebulosidade do projeto) que poderia virar o mundo de cabeça para baixo se lhe dessem um ponto de apoio sólido o bastante, afirmamos que seríamos capazes de distinguir quem deve ser assimilado por quem, qual dessemelhança ou idiossincrasia deve ser eliminada e qual deverá vir à tona em seu lugar, caso nos dessem uma hierarquia de culturas. A verdade é que não nos deram, e é muito pouco provável que a tenhamos tão cedo.

(Zygmunt Bauman - "44 cartas do mundo líquido moderno")

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publicado às 10:57



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