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O falso alvorecer da liberdade

por Thynus, em 29.03.13

Não faz muito tempo, Siobhan Healey, uma jovem que hoje tem 23 anos, obteve seu primeiro cartão de crédito. Ela o saudou como o amanhecer de sua liberdade, a ser comemorado e festejado todos os anos, como o dia de sua alforria. Daí em diante, ela se tornava dona de si mesmo, livre para administrar suas finanças pessoais, livre para escolher suas prioridades e compatibilizar seus desejos com as possibilidades reais.
Não muito depois desse dia, Siobhan obteve um segundo cartão de crédito para pagar a dívida contraída no primeiro. Não se passou muito tempo para ela compreender o preço que tinha de pagar pela tão festejada “liberdade financeira” – assim que se deu conta de que o segundo cartão não era suficiente para cobrir os juros da dívida acumulado no primeiro. Siobhan então recorreu a um empréstimo bancário para liquidar suas dívidas nos dois cartões, que já alcançavam a soma de 26 mil dólares australianos (cerca de R$40.000). Mas, seguindo o exemplo de seus amigos, ela pediu um crédito adicional para financiar uma viagem ao exterior – um must para qualquer pessoa de sua idade.
Por fim, logo depois ela acordou para o fato de que seria impossível livrar-se das dívidas sozinha, de que tomar novos empréstimos não era a saída para pagar as dívidas. Afinal, com um atraso de cerca de dois anos, ela disse: “Vou ter de mudar completamente meu modo de pensar e aprender a poupar para comprar.” Contratou os serviços de um consultor financeiro pessoal e de um especialista em negociação de dívidas a fim de ajudá-la a encontrar uma saída para o sufoco em que se metera. Mas será que esses consultores a ajudariam a “mudar completamente” seu “modo de pensar”? Isso ainda não se sabe, mas é bem provável que a luta de Siobhan seja longa e árdua.

 Ben Paris, porta-voz do Debt Mediators Australia (firma especializada em consolidação e negociação de dívidas) não se mostrou surpreso ou impressionado com as tentativas e atribulações de Siobhan. Comparou a história da moça a “trocar seis por meia dúzia”, mas acrescentou que os jovens costumam “tomar empréstimos acima de suas posses”. Paris declarou ainda que o caso de Siobhan Healey está longe de ser exceção: “Estamos falando de 25 mil jovens por ano com dificuldades financeiras – e esta é apenas a ponta do iceberg.”
Será que Siobhan Healey e os milhares de jovens que passam por momentos de apuro  semelhantes devem ser realmente condenados e desprezados por sua conduta impulsiva e imprevidente? Há muitíssimas razões para culpá-la. Mas, antes de nos precipitarmos na denúncia de sua negligência, é preciso não esquecer que pessoas muito mais velhas, mais experientes e cuidadosas têm no mínimo uma parcela de culpa.
As empresas de crédito vivem dos lucros gerados pelos tomadores de empréstimo; aqueles que resistem a viver de crédito e se recusam a pedir dinheiro emprestado não têm para elas qualquer utilidade. Já as pessoas que se endividam pesadamente e contraem empréstimos “acima de suas posses” são recebidas com efusão – afinal, são essas as fontes constantes de lucro das empresas de crédito, porque as pessoas se mantêm como eternas pagadoras de juros.
Não admira, portanto, que administradoras de cartões de crédito, bancos e financeiras prometam tudo o que for preciso a fim de atrair as pessoas para a ciranda dos empréstimos, na expectativa de que, uma vez lá dentro, os clientes não encontrem solução mais fácil do que continuar a fazer dívidas.
Qual seria a etapa de vida mais propícia a transformar uma pessoa que pensa em “poupar para comprar” num devedor eterno? Justamente a fase em que ela está mais vulnerável, o momento de transição da infância para a idade adulta, quando os hábitos infantis ainda sobrevivem, embora estejam se tornando cada vez mais incompatíveis com as novas atrações, as demandas e os desafios da maturidade. É natural que uma criança esteja acostumada a receber as coisas de presente, sem incorrer em compromissos. O dinheiro que lhe dão não é para ser reembolsado com juros, mas fruto do amor e do cuidado dos pais – é uma prova de amor, não de avareza.
Ninguém pergunta à criança “se ela tem condições de reembolsar” o dinheiro que ganhou, ninguém lhe pede garantias de pagamento, nem se fixam datas para um possível reembolso. Se a criança pede ao pai ou à mãe algum dinheiro além da mesada, eles dirão, “Para que você quer esse dinheiro?”, e nunca “Você tem recursos suficientes para oferecer uma garantia?”. Os pais podem lhe dar ou recusar outro presente, de acordo com a urgência das necessidades ou da intensidade do desejo dos filhos – não por uma avaliação de sua capacidade de reembolsá-los. A maioria dos pais presume de imediato que seus filhos compensarão seus generosos presentes com os presentes que eles mesmos darão, no devido tempo, aos futuros netos. É assim que são as coisas, não?
Eventual e inevitavelmente, chegará um momento, porém, em que os jovens que não são mais crianças e ainda não são adultos desejarão ser independentes, cuidar de sua vida, decidir sozinhos para onde ir, o que fazer e quais suas prioridades. Também chegará um tempo em que os pais, até os mais amorosos e cuidadosos (não por egoísmo, mas por amor e cuidado), vão querer que seus filhos e filhas “sejam alguém na vida” – que arrumem um emprego e se sustentem por conta própria. E haverá um tempo em que filhos e filhas (não por ressentimento, mas por gratidão e amor aos pais) vão querer provar que são capazes de corresponder às expectativas de seus pais.
Para as empresas de crédito, este é um excelente momento para a investida certeira. O lugar dos pais no mapa-múndi introjetado na cabeça de adultos jovens de repente ficou vago, e isso indica aos agiotas uma ocasião excepcional para se insinuarem in loco parentis – tal como o lobo na história de Chapeuzinho Vermelho, tentando se fazer passar pela doce vovozinha, mas apostando que, dessa vez, Chapeuzinho seja menos esperta e engenhosa, e não o desmascare a tempo; ou que ela não perceba o logro, pois hoje seus descendentes não andam mais sozinhos pelos bosques, mas em grandes grupos. E, dentro do grupo, todo mundo tende irrefletidamente a se comportar como todo mundo, em vez de aceitar os riscos e o cansativo trabalho de pensar por si mesmos.
O que torna os jovens ainda mais vulneráveis é o fato de que, em muitos países, as empresas de crédito contam com o apoio dos governos para que se ofereçam cursos – em princípio de enfoque teórico, mas com aulas práticas – sobre “a arte de viver de empréstimos” nos currículos obrigatórios de todas as faculdades e universidades, seja qual for a carreira escolhida. Por outro lado, e também com a adesão crescente dos governos, foram elaborados esquemas de empréstimo para estudantes universitários com facilidades sedutoras, mas ilusórias, de acesso e reembolso. O resultado disso é que a média dos estudantes termina o curso superior com uma dívida que muitos, cedo ou tarde, acabam descobrindo ser impossível de pagar; uma dívida que quase sempre exige fazer novos empréstimos para saldar a primeira.
Uma vez que o jovem se inicia nessa roda-viva de “viver de empréstimos”, o hábito de pedir novos financiamentos para pagar o anterior lhe parece perfeitamente normal. Na realidade, ele entrou num círculo vicioso. E esses círculos não podem ser desfeitos, somente cortados.
Esta carta começou como uma história de marinheiro e logo adquiriu a feição de uma história de camponês (se é que o leitor ainda se recorda da diferença que expliquei na primeira carta). Quantas Siobhan Healey há em seu bairro? Quem sabe em sua casa? Em sua cama? Dentro do seu pijama?

(Zygmunt Bauman - "44 cartas do mundo líquido moderno")

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