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Saúde e desigualdade

por Thynus, em 28.03.13

Palm Beach é uma estreita ilha da Flórida de aproximadamente treze milhas de comprimento e pouco mais de dez mil habitantes. Liga-se ao continente por três pontes, mas seus moradores sentem e agem como se o lugar fosse um grande “condomínio fechado”.
Este é, sem dúvida, um grande condomínio fechado, mas sem muros e cercas de arame farpado. O preço das casas basta para manter a exclusividade. As poucas residências que estão à venda no momento têm valor médio estimado entre US$700 mil e US$72,5 milhões. Palm Beach é, por mútuo acordo, o local de maior densidade de riqueza dos Estados Unidos, já que ali se concentram mais milhões de dólares por quilômetro quadrado que em qualquer outro lugar do país. Corre uma piada de que chamar um residente de Palm Beach de “milionário” é um insulto. Nas boutiques que se espalham pela Worth Avenue, a rua em que os moradores da ilha compram suas roupas, um suéter custa mil dólares e um par de calças compridas sai pelo dobro disso. Para ser sócio do clube de campo local, o candidato terá de desembolsar trezentos mil dólares só de taxa de adesão.
David Segal, do The New York Times , estimou que, em sintonia com o status privilegiado de Palm Beach, as perdas sofridas por seus moradores durante a recente crise da bolsa de valores não teve paralelo em todo o país. O patrimônio líquido do morador médio da ilha, afirma Segal, “despencou, recentemente, … mais que o patrimônio líquido de qualquer outra cidade do país”. Esse dado, provavelmente mais que outras estatísticas, ilustra a posição privilegiada que Palm Beach ocupa no topo da “liga dos ricos” americanos (e, quem sabe, de todo o planeta).
Em Palm Beach não há um único cemitério, casa funerária ou hospital. Morte e doença são assuntos que os moradores da cidade afugentaram do espírito (embora não da vida, claro, apesar de não economizarem em seu devotado e sério empenho de fazê-lo), muito embora vários deles já passem dos oitenta anos.
Na Inglaterra, pesquisadores do Birmingham Hospital Trust, coordenados por Domenico Pagano, analisaram o destino de cerca de 45 mil pacientes com idade média de 65 anos que haviam passado por cirurgias cardíacas. Descobriram que o número de óbitos após a cirurgia dependia fortemente da fortuna dos pacientes, e subia depressa com a diminuição da renda. As “causas comuns” de morte, como fumo, obesidade e diabetes – que reconhecidamente afetam mais os pobres que os ricos – foram avaliadas como primeiras explicações, mas sem sucesso. Descontando-se o provável impacto desses fatores nas estatísticas de mortalidade, a nítida diferença no índice de sobrevivência após a cirurgia permaneceu. A única conclusão possível foi que, se os pacientes pobres tinham menos chance de sobreviver à cirurgia que os mais ricos, isso era por “cortesia” da pobreza.
Até pouco tempo atrás, a ideia de que a prosperidade da elite social acabaria beneficiando o conjunto da sociedade graças a um “efeito de capilaridade” fazia parte do senso comum cultivado com entusiasmo por lideranças de todas ou quase todas as correntes políticas. Mas essa teoria não está mais em uso em lugar algum, se é que um dia esteve; o elo entre uma elite cada vez mais rica e o aumento da segurança e da saúde do conjunto da comunidade não passa de um produto da imaginação – e, para não comer gato por lebre, um item de propaganda política.
De volta ao nosso argumento principal, Richard Wilkinson e Kate Pickett divulgaram extensa documentação para comprovar, no livro The Spirit Level,1 que a riqueza média de uma nação, medida pelo produto interno bruto, tem pouco impacto sobre uma longa lista de males sociais, enquanto a forma como essa riqueza é distribuída, em outras palavras, o nível de desigualdade social, influi profundamente na dispersão e intensidade dos males.
Por exemplo, Japão e Suécia são países administrados de maneira muito diferente; a Suécia é um grande Estado de bem-estar social, enquanto o Japão oferece pouquíssimos programas de previdência social. O que os une, todavia, é uma distribuição relativamente equitativa da renda, e, portanto, uma defasagem pequena entre o padrão de vida dos 20% mais ricos e dos 20% mais pobres da população. Mais importante ainda é que nesses países há menos “problemas sociais” que em outras sociedades altamente industrializadas, com uma divisão menos igualitária da renda e da riqueza social. Outro exemplo nos é oferecido por dois países vizinhos, Espanha e Portugal, este com índices de desigualdade social duas vezes maiores que o primeiro: em números e intensidade de “problemas sociais”, Portugal ganha de lavada da Espanha!
Na maioria das sociedades desiguais do planeta, como os Estados Unidos ou a Grã-Bretanha, a incidência de doenças mentais é três vezes maior que nos países menos desiguais; suas populações carcerárias são muito mais numerosas, assim como os problemas de obesidade, gravidez de adolescentes e (apesar de toda a riqueza nacional!) os índices de mortalidade de todas as classes sociais, inclusive os mais ricos. Se o nível geral de saúde é mais elevado nos países mais prósperos, naqueles de distribuição mais igualitária da riqueza, as taxas de mortalidade caem proporcionalmente ao aumento da igualdade social.
Descoberta notável e preocupante é que o acréscimo dos níveis de investimento na área de saúde quase não tem impacto na expectativa de vida média, mas o crescimento do nível de desigualdade tem forte impacto, e extremamente negativo.
Quais as razões disso, perguntam os pesquisadores. E sugerem que, numa sociedade não igualitária, o medo de perder posição social, de ser rebaixado, socialmente excluído, de lhe negarem dignidade e de ser humilhado é mais forte – e acima de tudo muito mais angustiante e aterrador, dada a altura da queda prevista. Esses medos geram grande ansiedade e tornam as pessoas mais vulneráveis a distúrbios psicológicos, inclusive a depressões, fator que, ademais, tem consequências negativas sobre a expectativa de vida, em especial nas classes médias reconhecidamente inseguras quanto à estabilidade de suas conquistas e à solidez de seus privilégios.
A lista de “males sociais” que atormenta as “sociedades desenvolvidas” é longa e, apesar de todos os esforços genuínos ou hipotéticos, vem crescendo. Além das aflições já mencionadas, a lista inclui homicídio, mortalidade infantil e falta de confiança mútua, sem a qual a coesão social e a cooperação são inconcebíveis. Em cada um desses casos, os índices se tornam mais favoráveis à medida que passamos das sociedades menos igualitárias para as mais igualitárias, e as diferenças às vezes são muito espantosas.
Os Estados Unidos estão no alto da lista da desigualdade social, o Japão, no ponto mais baixo. No primeiro país, quase quinhentas pessoas em cem mil estão presas, enquanto no Japão esse número é de menos de cinquenta em cem mil. Nos Estados Unidos, um terço da população sofre de obesidade; no Japão, menos de 10%. Nos Estados Unidos, de cada mil mulheres entre quinze a dezessete anos, mais de cinquenta estão grávidas; no Japão, a proporção é de somente três. Nos Estados Unidos, mais de um quarto da população sofre de doenças mentais; no Japão, Espanha, Itália e Alemanha, sociedades com distribuição da riqueza relativamente mais igualitária, apenas uma em cada dez pessoas informa ter problema mental, comparado com uma em cinco em países mais desiguais, como Grã-Bretanha, Austrália, Nova Zelândia ou Canadá.
Trata-se de dados estatísticos, contagens, médias e suas correlações. Dizem pouco sobre as conexões causais que estão por trás dessas correlações. Mas os números estimulam a imaginação e fazem soar um alerta (no pior dos casos, nos deixam alarmados, e isso é bom). Eles apelam para a consciência e também para nosso instinto de sobrevivência. Lançam um desafio (e minam) à nossa indiferença moral e ao nosso letárgico senso ético, mas revelam, sem deixar qualquer margem de dúvida, que a ideia de buscar a felicidade e uma vida confortável tomando como referência unicamente o próprio indivíduo é um equívoco e uma ilusão; que a esperança de “chegar lá sozinho” é um erro fatal que vai de encontro aos próprios interesses da pessoa – como ilustra o feito do Barão de Münchausen, de tentar sair do pântano puxando-se pela peruca.
É impossível nos aproximarmos desse objetivo afastando-nos dos infortúnios dos outros .Somente juntos poderemos travar essa luta contra os “males sociais” – ou a perderemos.

(Zygmunt Bauman - "44 cartas do mundo líquido moderno")

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