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Não tenho como saber se, ao ler essas palavras, o leitor ainda está assustado com o fantasma do vírus  da “gripe suína” que cruzou o Atlântico vindo do México e chegou às nossas portas. Também não posso saber se o leitor se sente tão assustado com tal perspectiva quanto as pessoas que me cercam (ou se sentem pressionadas a estar) no momento em que escrevo esta carta. Não tenho ao menos certeza se você ainda se lembra do motivo de todo aquele pânico. Afinal, uma importante tarefa das manchetes dos jornais diários é apagar da memória as manchetes da semana passada, abrindo espaço na atenção do público para os títulos das primeiras páginas da próxima semana.
No que se refere ao pânico, quanto mais intensos e terríveis forem, mais depressa exaurem nossas reservas emocionais e sua própria capacidade de nos aterrorizar e enervar. De modo que é preciso descobrir novas manchetes suculentas e assustadoras a fim de conter o decréscimo de circulação dos jornais e a queda dos índices de audiência da televisão. Por esses e outros motivos, não posso saber com certeza que fatos provocam pânico no leitor no momento em que lê esta carta. Desconfio que você, leitor, talvez ache que minhas palavras contam uma história antiga, uma situação encerrada faz tempo (se é que alguma vez começou), nada com que valha a pena perder tempo, prestar atenção. É possível que você tenha agora outros motivos para estar assustado, e por isso não disponha de tempo ou espaço na cabeça para medos antigos.
Sem dúvida, no instante em que escrevo estas palavras, as primeiras páginas dos jornais já estão coalhadas de manchetes que alertam para outras razões de pânico. As notícias sobre o avanço da gripe suína mudaram para páginas menos importantes, reaparecendo apenas esporadicamente impressas em tipos de menor tamanho e espessura. Quando publicadas, as notícias tendem a ser acompanhadas (ao contrário do que acontecia poucos dias antes) de um misto de espanto, ceticismo e ironia.
Por exemplo, Bart Laws, médico sanitarista do Tufts Medical Centre de Boston, observa com tristeza que as autoridades públicas que emitiram um alerta de pandemia “fizeram exatamente o que se esperava. É possível, mas pouco provável, que esse vírus venha a causar uma quantidade incomum de problemas”. Mas logo acrescenta que “é muito mais provável que [o pânico] se dissipe em algumas semanas, porque a estação propícia aos casos de gripe está chegando ao fim, e não há indícios da existência de algo fora do comum no comportamento do vírus”. Uma síntese dos últimos acontecimentos publicada por Simon Jenkins, no jornal The Guardian, revela-se ainda mais cética e sarcástica, e vai ao cerne do problema: “A mutação do [vírus] mostrava realmente aspectos preocupantes. Mas nada justifica a barafunda criada pelas autoridades públicas e pela mídia britânica.”
Agora já se sabe que o número de mortes ocorridas no México por causa da nova cepa mutante do vírus da influenza não foi maior que o número médio anual de óbitos em decorrência da gripe comum; e que foi muitas vezes menor que o número de pessoas que morrem todos os anos em acidentes de trânsito nas estradas (cerca de doze mil pessoas morrem todos os anos no mundo, vitimadas pela gripe; nos Estados Unidos, mais de 150 crianças morrem de gripe anualmente, em comparação com as 7.677 crianças vitimadas por acidentes de carro, somente em 2003, enquanto 3.001 foram assassinadas). Um número maior de pessoas que visitaram o México na época, nas quais se identificou a mutação do vírus e que foram objeto de suspeita e horror, depois de voltarem para casa, por serem possíveis portadores da pandemia planetária, na verdade, foi vítima de envenenamento alimentar.
Mas também sabe-se que o governo britânico encomendou 32 milhões de máscaras (que ficaram estocadas, e depois descobriu-se serem inúteis; em breve serão retiradas dos depósitos para abrir espaço a suprimentos para uma “emergência adversa”), ciente de que o ditado “seguro morreu de velho” é condição indispensável a todo governo que deseja sobreviver às próximas eleições; e que, nas atuais circunstâncias, é uma condição absolutamente necessária à sobrevivência de qualquer governo mostrar-se diante de milhares de câmeras de televisão, em milhões de telas de TV, intensamente envolvido na ação e lutando de forma valente contra as ameaças.
Outros milhões de libras foram gastos para formar estoques nos hospitais e clínicas médicas da substância oseltamivir, droga produzida e comercializada pela empresa-gigante do setor farmacêutico Hoffman-La Roche com o nome de Tamiflu. Em 6 de setembro de 2009, Robin McKie, editor de ciência do jornal The Guardian, informou que o projeto “de estocar bilhões de doses de medicamentos essenciais para combater a epidemia de gripe suína” custou dez milhões de libras pagos às empresas produtoras, garantindo estoques de penicilina, morfina, diazepam e insulina caso um grande surto de influenza ameaçasse fechar a indústria farmacêutica nacional e as redes de distribuição. A decisão de estocar medicamentos foi tomada a despeito do anúncio, por parte das autoridades médicas, de que a segunda onda esperada da gripe não seria tão grande assim.
Gastou-se dinheiro público, dinheiro coletado por meio de impostos, sob ameaça de sanções punitivas, tanto dos que se sentiam apavorados quanto dos que resistiram ao alarmismo. Haveria um conflito entre políticos e empresários? Talvez, embora não necessariamente por vontade dos políticos. Afinal, os governos precisam demonstrar a seus eleitores que se ocupam com a proteção de seu bem-estar e de suas vidas contra desastres inenarráveis, numa longa lista de várias ameaças e formas de perdição.
Por isso, sir Liam Donaldson, principal autoridade da área de saúde pública da Grã-Bretanha, advertiu a nação de que o otimismo era prematuro e que a gripe suína “poderia voltar” no próximo inverno; também por essa razão, autoridades sanitárias de muitos estados norte-americanos declararam “situação de emergência” na saúde pública do país. Ainda pelo mesmo motivo, o vicepresidente dos Estados Unidos, Joe Biden, fez um apelo à nação para evitar o uso do metrô ou de aviões, pintando um quadro de iminente desastre com as tintas mais sombrias e assustadoras.
De um modo ou de outro, o alarmismo é hoje, na opinião de Jenkins, “fonte de grande satisfação para os florescentes impérios do contraterrorismo, da ‘saúde e segurança’. Lançar alarmes falsos sobre moléstias globalizadas é agora uma parte tão importante do complexo industrial-médico que nenhuma pessoa lúcida consegue distinguir o que é verdadeiro do que é moeda de troca política”. Na verdade, são eles que nos fazem ficar amedrontados. Contra o coro dos tonitruantes profetas da morte, quem teria sido ousado, insolente, tolo ou distraído o bastante para botar a boca no trombone, tirar-lhes as máscaras e declarar que o risco foi inventado, grosseiramente exagerado ou ampliado em proporções absurdas – e que poderia ser ignorado?
No que diz respeito a calar a oposição e as vozes da razão, o vírus tem a grande vantagem de ser invisível. Por isso, os óculos mais possantes não nos podem assegurar que o ar que respiramos está livre dele. Nós, os destinatários dos alertas, as pessoas conclamadas e incitadas (e suscetíveis) ao pânico, não temos direito de entrar nos laboratórios de pesquisa e desenvolvimento de onde partem as notícias da mutação viral. Que escolha nos resta: confiar nos especialistas, nas pessoas que estão por dentro do assunto, ou… o quê?
Simon Jenkins conclui seu resumo expressando a certeza de que, “quando a atual onda de medo acabar e nos apresentarem a conta, o fiasco será investigado”. Ele não acredita, porém, que uma investigação previna o surgimento de outros motivos de pânico também caríssimos, e sugere ouvirmos de vez em quando o conselho de Voltaire, de matar um virologista de tempos em tempos para desencorajar os outros. À parte a absurda desumanidade do conselho, tenho dúvidas sobre a sabedoria de segui-lo. Afinal, os pobres virologistas estão fazendo seu trabalho. É obra de outras pessoas, arrogantes e poderosas, nos assustar com suas descobertas. Ou com o que elas dizem que descobriram. E tudo para obter ganhos políticos ou comerciais nesse processo. Marcar preciosos pontos na opinião pública e obter muitos lucros…

(Zygmunt Bauman - "44 cartas do mundo líquido moderno")

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