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Calcular o incalculável

por Thynus, em 27.03.13

O risco, disse Ulrich Beck, sociólogo alemão pioneiro dos estudos contemporâneos sobre esse tema e ainda hoje um dos seus mais eficazes teóricos, “amalgamou o conhecimento com o não saber dentro do horizonte semântico da probabilidade” (Weltrisikogesellshaft). “A historia da ciência”, escreveu Beck, “data do nascimento do cálculo da probabilidade – desenvolvido na correspondência entre Pierre Fermat e Blaise Pascal –, a primeira tentativa de pôr sob controle o imprevisível em 1651.” Desde então, por meio da categoria “risco”, acrescentou, “o pressuposto arrogante da possibilidade de controle” pôde intensificar sua influência.
Da nossa perspectiva, situada na sequência claramente liquefeita da etapa compulsivamente liquescente, embora obcecada pela solidez, do começo da modernidade (nos beneficiamos, portanto, do olhar retrospectivo), podemos dizer que a categoria “risco” foi uma tentativa de conciliar dois pilares da consciência moderna: a consciência da contingência e da aleatoriedade do mundo, por um lado, e a autoconfiança do tipo “nós podemos” (Beck prefere chamá-la de “arrogância”), por outro. Para ser mais exato, a categoria “risco” foi uma tentativa de salvar o segundo pilar da insistente e ubíqua, embora temida e incômoda, companhia do primeiro.
A categoria “risco” (e o consequente projeto de “calcular os riscos”) prometia que, mesmo que o mundo da natureza e os acréscimos e modificações feitos pelo homem ficassem aquém da regularidade incondicional, e portanto do ideal de genuinidade completa e previsibilidade confiável, o fato de reunir e armazenar conhecimento flexibiliza seu aspecto prático e tecnológico; além disso, poderia levar a humanidade para bem perto da condição de certeza, ou pelo menos da alta probabilidade de fazer prognósticos corretos – e, assim, “ter o controle”. A categoria “risco” não prometeu a segurança infalível contra perigos, mas a capacidade de calcular a probabilidade do perigo e sua possível dimensão; indiretamente, portanto, comprometeu-se com a possibilidade de calcular e aplicar a melhor distribuição dos recursos para assegurar uma eficiência máxima e o sucesso das atividades pretendidas.
Mesmo que não o faça de modo explícito, a semântica do “risco” precisava assumir de maneira axiomática “o segundo melhor” dos Universos, um ambiente “estruturado” (estruturante: manipulação, desvio ou distorção, e, por extensão, diferenciação de uma distribuição aleatória de probabilidades), ou, em outras palavras, essencialmente regulado por leis – um Universo predeterminado, senão pela ocorrência de eventos, ao menos pelas probabilidades de sua ocorrência, que pode ser examinado, conhecido e avaliado.
Por mais que o “cálculo de risco” se aproxime de uma certeza exata e infalível, e diante da perspectiva de predeterminar o futuro, a distância pode parecer pequena e insignificante em comparação com o abismo que separa o “horizonte semântico da probabilidade” (e da facticidade do cálculo de risco) do território resgatado àquela inquietante e ameaçadora premonição de irreparável incerteza que assombra nossa consciência moderna.
John Gray assinalou, uma dezena de anos atrás, que “os governos de Estados soberanos não sabem de antemão como os mercados vão reagir. … Os governos nacionais da década de 1990 fazem voo cego”. Gray não acha que o futuro nos traga uma situação muito diferente; como no passado, espera-se uma “sucessão de contingências, catástrofes e lapsos ocasionais de paz e civilização” (Gray’s Anatomy). Tudo isso, permitam-me acrescentar, imprevisível e incalculável de antemão, quase sempre irá pegar de surpresa, despreparados e desprevenidos tanto as vítimas quanto os beneficiários.
É cada vez mais provável que a descoberta e o anúncio da centralidade do “horizonte de risco” no pensamento moderno partilhem o eterno hábito da coruja de Minerva, que só abre suas asas ao entardecer, logo antes do cair da noite; ou a tendência mais comum de passar objetos da situação de “ocultos sob a luz” (submersos na obscura condição de zuhanden, óbvios demais para serem notados; ou, para usar a descrição de José Saramago, em Memorial do convento, de 1982, objetos que são “tão comuns e demandam tão pouco que tendem a ser despercebidos”) para a estonteante visibilidade de vorhandem, dos “problemas” a serem “enfrentados” e “resolvidos” agora, antes do fracasso, quebrando sua “naturalidade” ou frustrando as expectativas (em geral, tácitas) de seus habituais usuários.
Em outras palavras, as coisas “irrompem na consciência” e se tornam conhecidas graças a seu desaparecimento ou a uma mudança chocante e sem precedentes. A verdade é que só nos tornamos conscientes dos papéis assustadores das categorias “risco”, “cálculo de risco” e “assumir riscos” na história moderna no momento em que o conceito de “risco” perdeu grande parte de sua utilidade; ele só pode ser usado (como Jacques Derrida indica) sous rature, isto é, “sob rasura”, e se tornou (para usar o vocabulário de Beck) um “conceito zumbi”, em outras palavras, quando chegou a hora de substituir o conceito de Risikogesellschft (sociedade de risco) pelo de Unsicherheitglobalschaft (incerteza global).
Os perigos que hoje nos afligem são muito diferentes daqueles que a categoria “risco” lutava para captar e trazer à luz, porque são inominados até que nos atinjam, imprevisíveis e incalculáveis. O cenário onde nascem esses perigos, a partir de onde eles vêm à tona, não é mais o da Gesellschaft, da sociedade; a não ser que o conceito de Gesellschaft, contrariando suas conotações ortodoxas, se estenda não à população de um Estado-nação territorial, mas à população de todo o planeta, à humanidade como um todo.
O poder que interessa (isto é, o poder que a palavra final, ou pelo menos a importância principal para o conjunto de opções abertas às escolhas dos agentes) vem crescendo em volume e já se tornou mundial; todavia, a política permanece uma questão local tanto quanto antes. Por isso, o poder agora mais relevante está além do alcance das instituições políticas, enquanto vem se restringindo o quadro de manobras existente para a política.
O “estado das coisas” no planeta é agora sacudido por alianças ad hoc ou assembleias de poderes em discórdia, fora do controle político, em razão da crescente impotência das instituições políticas atuais. Estas são obrigadas a limitar de modo severo suas ambições e a “alienar” ou “terceirizar” para agências não políticas um número cada vez maior de funções tradicionalmente confiadas à administração de governos nacionais. A emancipação da esfera política (em seu sentido ortodoxo, institucionalizado) é autopropulsora, pois a perda de relevância de sucessivos setores da política nacional repercute na erosão do interesse dos cidadãos pela política institucionalizada e numa tendência geral a substituí-la pelo empenho em fazer experiências com uma política incipiente, rudimentar, quase de “livre flutuação”, mediada pela eletrônica; um tipo de política que se destaca pela rapidez e agilidade, mas também por ser ad hoc, imediatista, limitada a questões isoladas, frágil e resistente; ou talvez seja melhor dizer imune à institucionalização (atributos mutuamente dependentes e reforçadores).
Como a incerteza do mundo contemporâneo enraíza-se no mundo global, a tarefa de restabelecer o equilíbrio perdido entre poder e política só pode ser realizada no plano mundial e apenas por um processo de legiferação globalizado (que, infelizmente, ainda não existe), apoiado por instituições executivas e jurídicas. Esse problema traduz-se na exigência de complementar a globalização até aqui totalmente “negativa” (isto é, a globalização de forças intrinsecamente hostis à política institucionalizada, como capital, financiamento, comércio de produtos primários, informação, criminalidade, tráfico de drogas, de armas etc.) com uma globalização “positiva” (da representação política, do direito e da jurisdição, por exemplo) que ainda não começou de verdade.
Contudo, em nítido contraste com o tipo ideal de risco, os perigos que se avolumam no espaço vazio entre a vastidão da interdependência humana e a estreiteza dos instrumentos humanos de autogoverno não são previsíveis nem calculáveis. Por isso mesmo também não são administráveis. Governá-los é uma tarefa grandiosa; lidar com essa tarefa propiciará à história do nosso século a maior parte do seu ímpeto e de seu conteúdo.

(Zygmunt Bauman - "44 cartas do mundo líquido moderno")

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