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As trajetórias tortuosas da fobia

por Thynus, em 26.03.13

A fobia (um sentimento intenso de medo) é uma condição semelhante ao horror e ao pavor, só que inclui uma sensibilidade aumentada, uma aversão ou alergia concentrada em sensações específicas: determinados tipos de imagens, sons, cheiros, sabores e, indiretamente, certos tipos de pessoas, animais, substâncias ou situações que julgamos responsáveis pela produção dessas impressões sensoriais desagradáveis, desconcertantes, iníquas e repulsivas.
Suspeitamos que entrar em contato com essas causas de fobia, portadoras dos efeitos temidos e/ou das entidades ou substâncias culpadas por perpetrá-las, poderia ter consequências mórbidas – ou é justamente isso que tememos; portanto, tentamos a todo custo não chegar perto delas, não ter contato visual, auditivo, olfativo e principalmente tátil com esses fatores. As fobias nos persuadem a manter distância e a erguer muros impenetráveis, tecer densos emaranhados de arame farpado ou cavar fossos intransponíveis, tudo que previna o vazamento, gotejamento ou infiltração de coisas que machucam ou causam mal-estar em qualquer lugar próximo de onde vivemos.
Resumindo: desenvolvemos uma fobia quando sentimos medo, dirigimos nossos pânicos para coisas específicas que consideramos responsáveis pela aflição e tomamos medidas defensivas para mantê-las à distância. Isso é claro. Mas não é muito claro se essas coisas podem realmente nos provocar os danos que tememos. Menos clara ainda é a conexão causal entre elas e as dores que sofremos. Nossas queixas talvez sejam injustificadas, porque as verdadeiras causas talvez estejam em outro lugar. Manter longe os supostos fatores ofensivos não ajudará muito a aplacar e muito menos a eliminar nossa impressão de ameaça. De modo paradoxal, as ações que praticamos para nos salvar da tortura do medo podem ser a fonte mais eficaz e permanente de temores.
A probabilidade de que isso ocorra aumenta em paralelo à vagueza e ao caráter evanescente de nossas ansiedades atuais. Tudo na vida da gente pode parecer ir muito bem: bastante dinheiro no banco, o chefe deu um sorriso amistoso ao elogiar meu último projeto; o sócio declara e demonstra afeto e dedicação, gosta de me abraçar, e eu retribuo; meus filhos têm boas notas – por que me preocupar? Por que os dias parecem tristes, e não alegres? De onde vem essa sensação de desconforto? Por que não consigo dormir tranquilamente a noite inteira e acordo cheio de sinistras premonições? Por que não consigo ir em frente e manter o sorriso?
Pensando bem, esses “porquês” não são tão incompreensíveis assim. A conta bancária continuará no azul enquanto eu mantiver esse emprego, mas todo dia abro o jornal e leio sobre novos cortes de pessoal e novos desempregados. Não consigo me sentir seguro porque não sei quanto tempo essa situação bem-aventurada vai durar, não posso ter certeza de que amanhã ainda terei um emprego. Meu chefe derramou-se em elogios ao meu último projeto, mas quanto dura a recordação de um sucesso, quanto posso usufruir essa glória? Será que ainda irão se lembrar do meu projeto quando chegar a próxima rodada de fusões, reengenharias, terceirizações e contratações externas, como decerto acontecerá? Meu sócio e eu parecemos satisfeitos com nossa parceria, mas, e se ele for o primeiro a decidir que a sociedade já se esgotou, que chegou a hora de partir para outra? As crianças têm passado ao largo de problemas até agora, mas quanto tempo vai demorar até que se metam em más companhias, cedam aos traficantes de drogas ou não consigam evitar os ardis dos molestadores de crianças? Tudo isso já seria bem tenebroso se estivesse no fim da lista de preocupações. Mas o rol está longe de chegar ao fim. Aliás, haverá um fim para essa lista?
Roberto Toscano, diplomata italiano e perspicaz analista do cenário mundial contemporâneo, afirma que “há poucas dúvidas sobre a gravidade da crise atual, que se caracteriza por uma combinação letal entre descenso econômico, instabilidade política generalizada, questionamentos acerca da vitalidade dos sistemas democráticos, terrorismo e radicalização das identidades comunitárias, que muitas vezes se tornam violentas, terríveis ameaças à sobrevivência do planeta”. E depois aquele outro fator, talvez tão poderoso quanto os outros – um fator que o sociólogo italiano Ilvo Diamanti há pouco observou: “O medo que os italianos sentem tem pouco a ver com a realidade. Esse medo é acionado pelos programas de televisão.” Na verdade, quando o nível de criminalidade na Itália estava caindo, antes das últimas eleições, os canais de TV de propriedade e administração da família Berlusconi passaram a reforçar diariamente o pavor de criminosos que rondavam a cada esquina e até debaixo da cama. Isso aconteceu na Itália. Mas não só na Itália…
Faltam muitas coisas neste nosso mundo, mas as razões críveis para que esperemos a chegada de problemas não estão entre essas coisas. É perfeitamente natural que, numa ou outra extensão, a  gente sofra de fobofobia (termo cunhado recentemente por Harmon Leon), ou fobia das fobias, medo do medo. É o medo de sentir medo que nos assombra, nós que somos cidadãos desse mundo moderno líquido sempre em mudança, confuso, desordenado e cheio de brumas, imprevisível, em que abundam armadilhas e ciladas.
O medo de estar com medo, e com razões absolutamente válidas para tal – aterrorizados por uma ameaça ainda obscura, imprecisa e difícil de localizar, mas que certamente revelará toda sua face de Górgona, seu semblante horrendo, sua força terrível e satânica quando sair das sombras em que agora se esconde –, esta é a fobia mais comum e mais angustiante do nosso século. O cerne dessa fobia é a perspectiva de estarmos abandonados e sozinhos no momento da desgraça. A medida preventiva mais ansiada e geral contra a possibilidade dessa ocorrência é a tentativa de buscar refúgio na companhia de outros potenciais sofredores da mesma fobia: dar as mãos e não soltá-las, ficar em contato, manter contato e jamais deixar de entrar em contato – esforço em que a maioria de nós investe mais zelo e energia, durante a maior parte do tempo, que em qualquer outra de nossas incontáveis atividades rotineiras.
Vocês se lembram do filme A bruxa de Blair, de 1999, que anunciava o advento do século do “mantenha contato ou morra”? O horror que abateu, paralisou e afinal acabou devorando os três jovens heróis daquela história assustadora reduzia-se – pelo que os espectadores puderam ver – às baterias dos celulares descarregadas e ao fato de eles terem se desviado para uma região fora do alcance de cobertura da rede. É fácil imaginar o tipo de horror de uma situação dessas porque, vez ou outra, a maioria de nós já sentiu seu gosto amargo, pungente, mesmo que, graças a Deus, em versão diluída e atenuada. Por exemplo, quando deixamos o celular em casa, esquecemos de recarregar a bateria, perdemos o aparelho ou ele nos é roubado (tem gente que confessa que sair sem celular é como estar caminhando na rua despido e indefeso, duplamente humilhado, pela vergonha mortal e incapacidade de fazer qualquer coisa a respeito).
O que há em jogo não é tanto estar em contato, mas ter a certeza permanente de que podemos entrar em contato depressa sempre que necessário ou sempre que se deseje. É comum você resistir a interromper uma conversa face a face com um amigo para atender seu celular quando ele toca, de maneira brutal e invasora, ou quando vibra para chamar sua atenção? Não é verdade que o comprimento da lista de endereços do seu Facebook disponíveis para mensagens de voz ou de texto lhe parece mais satisfatória do que falar com seus donos e ouvi-los ao vivo? E a qualidade mais admirada e sedutora da última sensação, o Twitter, não é a oportunidade de sua presença ser notada por uma quantidade imensa de pessoas, em números que excedem sua capacidade ou disposição de travar uma conversa significativa?
Exclusão, expulsão, ser deixado sozinho, descobrir-se abandonado, jogado fora ou ser de alguma forma banido, ficar para trás ou ir longe demais, ter recusado seu pedido de admissão, fazerem com que você se sinta ignorado ou não convidado, deixarem-no esperando horas sem ser recebido – são estes os pesadelos mais comuns neste nosso mundo, bem conhecidos por sua produção em massa de excedentes e redundâncias.

(Zygmunt Bauman - "44 cartas do mundo líquido moderno")

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