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Conversas de pais e filhos

por Thynus, em 26.03.13

Falando sobre as origens de um dos seus mais belos contos, “A busca de Averróis”, o grande escritor argentino Jorge Luis Borges declarou que sua intenção era “narrar o processo do fracasso”, “da derrota” – como o teólogo à procura de uma prova final e irrefutável da existência de Deus; o alquimista em busca da pedra filosofal; o entusiasta da tecnologia à cata do moto-perpétuo; ou o matemático tentando descobrir a fórmula da quadratura do círculo. Mas depois Borges decidiu que “um caso mais poético” seria “o de um homem que estabelece para si um objetivo que não é proibido para os outros, mas só para ele”. Tomou então o caso de Averróis, o grande filósofo muçulmano que decidiu traduzir a Poética de Aristóteles, mas, “por estar encerrado no âmbito do islã, nunca pôde saber o significado das palavras tragédia e comédia”. O fato é que, “sem nunca ter suspeitado o que é teatro”, Averróis estava inescapavelmente fadado ao fracasso quando tentou “imaginar o que é uma peça de teatro”.
Como tema para uma história maravilhosa contada por um grande escritor, o caso escolhido por Borges se revela “mais poético”. Mas, se o examinarmos pela ótica menos inspirada, mundana e um pouco tediosa da sociologia, o caso parecerá bem mais prosaico. Somente algumas almas intrépidas tentam construir um moto-perpétuo ou descobrir a pedra filosofal; mas buscar em vão compreender o que outros não têm dificuldade alguma para entender é uma experiência que todos nós conhecemos pessoalmente e que reaprendemos a cada dia – nós muito mais, hoje, em pleno século XXI, do que nossos ancestrais. Basta pensar num exemplo: a comunicação com nossos filhos, se os temos, ou com nossos pais, se ainda estiverem vivos.
Há uma longa história de incompreensão recíproca entre gerações, entre os “velhos” e os “jovens”, e de consequente desconfiança mútua. Sintomas desse descompasso já foram percebidos em épocas bastante remotas. Mas a desconfiança entre gerações tornou-se muito mais visível em nossa era moderna, marcada por profundas, contínuas e aceleradas mudanças nas condições de vida. A aceleração do ritmo das mudanças, característica dos tempos modernos e em contraste com os séculos anteriores de interminável reiteração e letárgica mudança, permitiu que as pessoas observassem e tivessem a experiência pessoal de que “as coisas mudam”, que “já não são como costumavam ser”, no decorrer de uma única existência humana. Essa percepção trouxe como consequência o estabelecimento de uma associação (ou mesmo um laço causal) entre as mudanças na condição humana, o afastamento das velhas gerações e a chegada dos mais novos.
Estabelecida essa implicação, tornou-se visível e até evidente que (pelo menos desde o início da modernidade e por toda sua duração) as classes de idade que chegavam ao mundo em diferentes etapas do processo de contínua transformação apresentavam uma tendência a diferir profundamente no modo de avaliar as condições de vida que compartilhavam. As crianças em geral nascem num mundo muito diferente daquele da infância de seus pais, e que estes aprenderam e se acostumaram a ver como padrão de “normalidade”; os filhos jamais poderão visitar esse mundo que deixou de existir com a juventude dos pais.
O que certas “classes de idade” encaram como “natural” – “o modo pelo qual as coisas são”, “o modo como as coisas são normalmente feitas” e, portanto, como “elas devem ser feitas” – pode ser visto por outros como uma aberração, um estranho desvio da norma, talvez uma situação ilegítima e insensata – injusta, abominável, desprezível ou absurda, que exige completa revisão. O que para certas classes de idade parece uma situação agradável, que permite o uso de rotinas e habilidades aprendidas e dominadas à perfeição, pode ser esquisito e chocante para outras; pessoas de idades diferentes podem se sentir à vontade em situações que trazem desconforto para outras, que se veem confusas e desorientadas.
As diferenças de percepção já assumiram tantas facetas que, ao contrário do que se passava nos tempos pré-modernos, os jovens não são mais vistos pelas velhas gerações como “adultos em miniatura” ou “miniadultos”, como “seres ainda não plenamente maduros, mas fadados a amadurecer” (entendendo-se por “maduro” ser “igual a nós”). Hoje, não se espera nem se pressupõe que os jovens “estão em vias de se tornar adultos como nós”; a tendência é vê-los como um tipo diferente, que permanecerá diferentes “de nós” por toda vida. As discrepâncias entre “nós” (os mais velhos) e “eles” (os mais novos) não nos parecem mais corresponder a uma fase passageira e irritante, que tenderá fatalmente a se dissipar e a desaparecer à medida que eles amadureçam para as realidades da vida. Os jovens sem dúvida vão permanecer; eles são irrevogáveis.
A consequência disso é que jovens e velhos tendem a se perceber mutuamente com um misto de incompreensão e mal-entendido. Os mais velhos temem que os recém-chegados ao mundo acabem estragando e destruindo a “normalidade” que conhecem e lhes parece confortável e decente, mas que custaram tanto a construir e preservar com carinho; os mais jovens, ao contrário, têm uma enorme urgência de consertar o que os mais velhos estragaram. Nenhum dos grupos se sentirá satisfeito (pelo menos não completamente) com o atual estado de coisas e com o rumo que seus mundos parecem seguir – e culpa o outro por sua insatisfação.
Em dois números consecutivos de um respeitado semanário inglês, duas avaliações radicalmente distintas foram feitas: um colunista acusou “os jovens” de serem “inúteis, chatos, frouxos, focos de clamídia”; ao que um irado leitor respondeu que os jovens supostamente preguiçosos e negligentes tinham “alto desempenho acadêmico” e na verdade “estavam preocupados com a confusão que os adultos criaram” (Guardian Weekend, 4 e 11 ago 2007). Como em outras incontáveis divergências, trata-se de uma diferença de avaliação e de pontos de vista subjetivos. Nesse tipo de situação, a controvérsia dificilmente pode ser resolvida de modo “objetivo”.
Convém não esquecer ainda que grande parte da geração jovem de hoje jamais passou por dificuldades de vida efetivas, como uma longa depressão econômica e o desemprego em massa. Essa juventude nasceu e cresceu num mundo no qual podia obter apoio de serviços comunitários socialmente produzidos, um guarda-chuva à prova de água e de vento que lhes parecia sempre ao alcance da mão, para protegê-los contra as inclemências do tempo, o frio das chuvas e os ventos gelados; um mundo em que cada nova manhã parecia prometer um dia mais ensolarado que o anterior e mais regado de agradáveis aventuras.
Contudo, enquanto escrevo estas palavras, nuvens escuras vêm se acumulando sobre esse mundo, nuvens cada dia mais sombrias. O estado de felicidade, otimismo e confiança que o jovem pensava ser o estado “natural” do mundo pode não durar muito tempo. O sedimento da última depressão econômica – o prolongado desemprego que diminui as oportunidades de vida das pessoas  e obscurece suas perspectivas de futuro – pode se recusar a desaparecer depressa, se é que um dia desaparecerá; e não há mais tanta certeza quanto a um retorno rápido aos dias ensolarados.
Assim, ainda é muito cedo para determinar se as atitudes e visões de mundo que impregnam os jovens de hoje acabarão se ajustando ao mundo que está por vir, nem como esse mundo se ajustará às suas expectativas mais profundas.

(Zygmunt Bauman - "44 cartas do mundo líquido moderno")

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