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A moda, ou o moto-contínuo

por Thynus, em 25.03.13

Perpetuum mobile, moto-perpétuo ou contínuo – mecanismo independente e autossuficiente que contém tudo necessário para permanecer em movimento ininterrupto, eterno, sem qualquer impulso exterior que mantenha o funcionamento, sem estímulo, ímpeto ou tração, nem sequer uma interferência de força externa ou acréscimo de energia.
Desde os tempos de Galileu e Newton, pelo menos, o motoperpétuo era um sonho de sábios e místicos, de bricoleurs e trapaceiros, objeto de febril experimentação e causa de intermináveis frustrações. De quando em quando se anunciava a milagrosa descoberta ou invenção de um motoperpétuo que sempre falhava na hora da prova, e era rejeitado como mera ilusão nascida do amadorismo ignorante ou da pura vigarice de alguém movido pela ambição e ajudado por uma plateia de crédulos; tudo isso reduzido, afinal, a mais uma nota de rodapé na longa e ainda inconclusa história da insensatez humana.
Recentemente, a ideia do moto-perpétuo foi enterrada na lata de lixo das concepções populares equivocadas, não tanto em decorrência da longa sucessão de desapontamentos, mas por causa do veredicto de inexequibilidade e da pena capital imposta pela física moderna.
Não é o caso de discutir as declarações dos físicos. Quando se trata da “realidade física” e das condições de movimento dos corpos móveis, de mudar a velocidade ou direção do movimento, ou fazê-lo cessar, a última palavra cabe sem dúvida a eles, e devemos aceitá-la com toda humildade. Mas, no nível da realidade, no plano “social” – em que os corpos, embora ainda submetidos às leis da física, são indiferentes aos propósitos e motivos, e, ademais, estão sob a regra da mudança intencional –, acontecem coisas com as quais (como diria Shakespeare) os físicos jamais teriam sonhado.
Nesse outro mundo, de súbito, um moto-perpétuo – uma mudança autoinduzida, autopropelida e autossustentável, um movimento que sobressai não tanto por sua incapacidade de prosseguir sozinho quanto por sua incapacidade de cessar ou mesmo de se desacelerar – torna-se, mais que uma possibilidade, uma realidade. A moda é o exemplo supremo dessa contingência.
“Sobre a moda”, afirmou certa vez Georg Simmel, “não se pode dizer que ela ‘é’, pois está sempre ‘se fazendo’” (“Zur Psychologie der Mode: Soziologische Studie”). No caso da moda, ao contrário dos processos físicos, e em estreita conformidade ao conceito e ao tipo ideal do moto-perpétuo, não é inconcebível a eventualidade de se estar em eterna mudança (sem parar de atuar); impensável é uma interrupção da cadeia de alterações autoinduzidas já iniciadas. O aspecto mais impressionante dessa extraordinária qualidade é que o processo de mudança não perde força enquanto seu impacto no mundo em que opera continua a se realizar. “Tornar-se” moda é inesgotável e irrefreável, mas esse ímpeto e essa capacidade sempre tendem a crescer e a acelerar à medida que aumentam o volume de seu impacto material tangível e o número de objetos que ela afeta.
Se a moda fosse apenas um processo físico comum, ela constituiria uma anomalia monstruosa a transgredir as leis da natureza. Só que a moda não é um fenômeno da física: ela é um fenômeno social. E a vida social como um todo é um mecanismo espantoso, que consegue sustar a segunda lei da termodinâmica ao construir um enclave protegido contra a maldição da entropia, a “grandeza termodinâmica” que representa (segundo o site www.princeton.edu) “a quantidade de energia num sistema que não pode mais se transformar em trabalho”; e que “aumenta conforme a matéria e energia do Universo se degradam até um estado final de uniformidade inerte”.
No caso da moda, a “uniformidade inerte” não é o “estado final”; na verdade, esta é uma perspectiva cada vez mais distante. É como se a moda possuísse válvulas de escape que se abrem muito antes de alcançar o objetivo final da “uniformidade” – como se sabe, uma das motivações humanas essenciais para ativar o movimento perpétuo do processo da moda –, e, com isso, ameaçassem solapar ou anular o poder de atração e sedução que ela exerce.
Considerando-se a entropia um fenômeno de “contradiferenciação”, a moda – cujo impulso deriva da tendência humana a sentir aversão pela diferença e a almejar a equalização – consegue reproduzir em quantidades sempre crescentes as mesmas divisões, desigualdades, discriminações e privações que prometeu mitigar, nivelar ou até eliminar de todo.
Embora seja uma impossibilidade no universo da física, o moto-perpétuo se insere na esfera da realidade no mundo social, onde se converte em norma. Como isso é possível? Simmel explica: reunindo dois anseios ou impulsos humanos igualmente poderosos e incontroláveis – parceiros inseparáveis, embora sempre em conflito, que impelem ou arrastam as ações humanas em direções opostas. Recorrendo mais uma vez ao vocabulário da física para construir nossas metáforas, podemos dizer que, no caso da moda, a “energia cinética” do movimento é gradual, embora totalmente transformada em energia potencial apta a se converter em energia cinética para ativar o contramovimento. O pêndulo continua a oscilar e, a princípio, pode continuar a fazê-lo por tempo indeterminado a partir do momento linear.
Os dois impulsos ou anseios em questão são: fazer parte de um todo maior e individualizar-se ou distinguir-se; um sonho de pertencimento e um sonho de autoafirmação; um desejo de apoio social e a obsessão de autonomia; ao mesmo tempo, o ímpeto de imitar e a tendência a separar. Enfim, a necessidade de contar com a segurança de dar as mãos a alguém e a liberdade para soltar-se delas. Ou, examinando por outro ângulo esse dilema emocional: o medo de destacar-se e o pavor da dissolução do ego.
Como tantos casais legalmente formados (talvez até a maioria), segurança e liberdade não podem viver uma sem a outra, mas logo se descobre que a convivência dos dois valores é tarefa muito difícil. Segurança sem liberdade é um atestado de escravidão, mas liberdade sem segurança é condenar-se a uma permanente crise de nervos e a uma irremediável incerteza.
Privados da compensação ou da restrição de sua parceira (melhor dizendo, de seu alter ego), tanto a segurança quanto a liberdade perdem os valores desejados e se transformam em pesadelos aterradores. Segurança e liberdade ao mesmo tempo necessitam uma da outra e não se suportam; ao mesmo tempo se desejam e lutam, embora a proporção dos dois sentimentos contraditórios mude a cada um dos frequentes afastamentos (frequentes demais, quase uma rotina) do “caminho do meio”, que significa um compromisso temporário.
Em geral, as tentativas de compensar e conciliar os dois sentimentos acabam se mostrando incompletas, muito aquém da plena satisfação e sobretudo frágeis demais e instáveis para adotar um ar de inexorabilidade. Sempre há problemas menores a ser resolvidos. Mas toda vez que se tenta ajustá-los eles ameaçam romper o delicado tecido da relação social. É por esse motivo que as tentativas de conciliação jamais alcançam seu objetivo explícito ou implícito, manifesto ou latente, embora ele nunca seja ou possa ser efetivamente abandonado.
Por isso, a convivência entre segurança e liberdade está fadada a se tornar uma rotina de som e fúria. A endêmica e insolúvel ambivalência desses sentimentos faz com que eles sejam uma fonte inesgotável de energia criativa e de mudança obsessiva. Pela mesma razão, a convivência está predestinada a ser um moto-perpétuo.
“A moda”, escreveu Simmel, “é uma forma peculiar de vida por meio da qual se procura estabelecer uma solução de compromisso entre a tendência à igualdade social e a tendência à distinção individual.” Vale lembrar que o compromisso jamais pode constituir uma situação de “equilíbrio permanente”; ele não pode ser definido de uma vez por todas: a cláusula “até segunda ordem” (que, aliás, é abominavelmente concisa) está gravada de modo indelével em sua própria forma de existir.
Essa solução de compromisso, como a moda, está sempre “se fazendo”. Ela não pode ficar no mesmo lugar, deve ser perpetuamente renegociada. Mobilizada pelo impulso competitivo (ver a Introdução do meu livro Arte da vida), a busca do que está na moda induz depressa a que se construam símbolos banais e comuns de distinção, de modo que o mais breve momento de desatenção logo gera o efeito contrário: a perda da individualidade. É preciso arranjar logo novos símbolos; os de ontem devem ser imediata e ostensivamente descartados.
O preceito do “que não é mais aceitável” tem de ser tão meticulosamente observado e com diligência obedecido quanto o preceito do que “é novo e (hoje) em ascensão”. Uma situação de status indicada, comunicada e reconhecida pela posse e exibição de símbolos da moda (de curtíssima duração e irritante volatilidade) tanto pode ser definida pela exposição visível de certos símbolos quanto por sua ausência também visível. No resumo sucinto mas incisivo publicado no jornal The Guardian, de 9 de setembro de 2009, Hadley Freeman escreve que “a indústria da moda não está interessada em fazer as mulheres se sentirem bem consigo mesmas. A moda tem a ver com fazer as pessoas desejarem algo que provavelmente não têm, … e qualquer satisfação que obtenham é efêmera e ligeiramente decepcionante.”
O moto-perpétuo da moda é o destruidor especializado, treinado e testado de toda e qualquer paralisação do movimento. A moda projeta estilos de vida sob a forma de permanente e infindável revolução. Dado que o fenômeno da moda está íntima e inseparavelmente vinculado a dois atributos “eternos” e “universais” do modo humano de estar no mundo, com sua também irreparável incompatibilidade interna, a presença ubíqua desse fenômeno não se limita a uma ou mais formas selecionadas de vida. Em qualquer momento da história humana e em qualquer território habitado por seres humanos, o fenômeno da moda realiza a função crucial de introduzir mudanças constantes na norma de nosso estar no mundo. Contudo, a maneira de realizar essa função e as instituições que a sustentam e ajudam variam de acordo com diferentes formas de vida.
A variedade atual do fenômeno da moda é determinada pela colonização e exploração desses aspectos eternos da condição humana por parte dos mercados de consumo.

(Zygmunt Bauman - "44 cartas do mundo líquido moderno")

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